Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTAS ESCOLHIDAS

Brasil, fatos e interpretações

Por Gabriel Perissé em 03/04/2006 na edição 375

Brasil de Fato é um semanário político de circulação nacional. Foi lançado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2003. Recebeu, desde o seu nascimento, o apoio entusiástico de nomes como o escritor Eduardo Galeano e Hebe Bonafini, do movimento Madres de Plaza de Mayo, da Argentina. Neste livro, 24 entrevistas, selecionadas entre as que publicou ao longo desses três anos.

Brasil, de fato. Entrevistas quentes no calor da hora. Fatos e interpretações. Frases antológicas. Celso Furtado: ‘O Brasil é um país de construção imperfeita’. Do geógrafo Manuel Correia de Andrade: ‘Não se faz nada no Brasil sem o apoio da Igreja’. Augusto Boal: ‘Hoje, é quase impossível ser artista e permanecer no mercado cultural’.

Pouco espaço para ambigüidades e paninhos quentes. Afora Marilena Chaui e Leonardo Boff, quase… talvez… meio insatisfeitos com o governo Lula, a maioria dos brasileiros entrevistados expressa sua decepção. Fábio Konder Comparato denuncia a ausência de um projeto de país. D. Pedro Casaldáliga reconhece que o governo é fraco. Plínio Arruda Sampaio mostra as razões que o levariam, poucos meses depois, a romper com o PT. O advogado Goffredo da Silva Telles Jr. afirma, com todas as letras e sem medo de errar, que estamos numa pseudodemocracia.

Lição dos entrevistados

O livro é um documento importante, inquietante. São vozes de gente que participou intensamente da realidade política brasileira nas últimas décadas. Que depositou ou ainda deposita suas esperanças em Marx, em Jesus Libertador, no povo ou em Lula. E que sente, como todos nós sentimos, o peso das lentidões, da demagogia, a estreiteza dos caminhos.

Não é fácil transformar o Brasil. Fazê-lo à imagem e semelhança de ideais um pouco mais elevados. Oscar Niemeyer desabafa – o mundo é uma merda.

Eu não iria tão longe. O Brasil, de fato – viver no Brasil, brincava Tom Jobim, ‘é uma merda… mas é bom’. Contudo, para muitos é horrível viver no Brasil. Viver (sofrer) os fatos que vivemos no Brasil.

Para não recair na queixa pela queixa, precisamos olhar os fatos e arriscar interpretações. Não basta constatar. Esta é a lição dos entrevistados. Combatem, defendem, opinam, demonstram, acusam. Li o livro viajando de ônibus entre São Paulo e uma cidade do interior. Metade na ida pela manhã. A outra metade na volta, à tardinha. À noite, sonhei que estava acordando. De fato.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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