Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > DIA DO LIVRO

Bruxices ou boas leituras

Por Gabriel Perissé em 02/11/2004 na edição 301

Dia 29 de outubro, Dia Nacional do Livro. Dia 31 de outubro, Dia das Bruxas. Na escola de minha filha e em muitas outras, como o dia 31 deste ano caía no domingo, antecipou-se a comemoração de inspiração anglo-estadudinense para a sexta-feira, dia em que deveríamos celebrar o pobre livro.

Livro? Que livro?

Embora sem a menor intenção de iniciar uma cruzada contra o Halloween, lanço aqui meu protesto. Nem sei bem contra quem, porque minha filha foi vestida de bruxinha e estava feliz da vida. Mais do que um protesto, um alerta.

Longe de mim agir como inquisidor pós-moderno e jogar na fogueira os educadores que preferem as bruxas aos livros. Ou, numa linguagem religiosa radical, dizer que no dia 31 de outubro as crianças, mesmo sem saber, andam comemorando o aniversário de satanás. Estou muito mais preocupado com o esquecimento do livro. Pois todo livro é livro de magia, transporta-nos, seja qual for nossa idade, para uma realidade mais real do que a que vivemos. Por que não comemorar o livro no Dia do Livro?

Lendas e costumes

Parafraseando a música de Jorge Benjor, todo dia é Dia de Livro, mas a opção que tem sido feita por centenas de escolas, em nome de algum projeto pedagógico(?), ou, ao que tudo indica, na falta de opção pedagógica, reafirma o que Darcy Ribeiro estampou no título de uma de suas obras: nossa escola é uma calamidade.

Toda essa história começou nos cursos de língua inglesa, que introduziram a festa do Dia das Bruxas como atividade didática. O intuito era familiarizar alunos brasileiros com a cultura e as tradições que envolviam o idioma em estudo. Até aí, aplausos.

A vaia começa no momento em que as escolas de nossos filhos adotam a mesmíssima atividade. Conversando com a diretora pedagógica de um colégio católico, ouvi a singela explicação: ‘Comemoramos o Halloween para ampliar nosso contato com a cultura inglesa’. Como se esta ampliação fosse necessária. Seria muito mais convincente a idéia de fazer os alunos ampliarem seu contato com o livro, em si mesmo um universo que me dá acesso a todas as culturas que eu quiser conhecer.

Curiosamente, numa enquete feita pela revista Escola (http://revistaescola.abril.com.br/home/home.shtml), em 2003, 78% dos que responderam (a maioria deles docentes) consideram errado comemorar o Dia das Bruxas nas escolas, uma vez que não pertence à nossa tradição popular e, além disso, muitas de nossas lendas e costumes podem e devem ser lembrados no lugar da tal festa, por mais divertida que seja e por mais lucrativa que venha a se tornar (nos EUA, o Halloween já se tornou o segundo maior evento em faturamento financeiro, perdendo apenas para o Natal).

Não fez o menor sentido comemorar o Dia das Bruxas no Dia dos Livros. Pero que las hay, las hay.

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Doutor em Educação pela USP e escritor

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