Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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Calamidade pública

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 09/06/2015 na edição 854

“Um país se faz com homens e livros”. Infelizmente, Monteiro Lobato não está sendo escutado. Segundo números presentes no Censo Escolar 2013, 65% das unidades de ensino do país, públicas e privadas, não têm bibliotecas. Desde 2010, quando entrou em vigor a Lei 12.244 – que obriga todos os gestores a providenciar, até 2020, espaços estruturados de leitura em suas unidades educacionais –, a situação praticamente não evoluiu. Naquele ano, só 33,1% das escolas tinham bibliotecas; em 2013, eram 35%. Esse estado de calamidade pública se agrava com a seguinte distorção de valores: segundo destaca Frei Betto, no artigo “Do mundo virtual ao espiritual” (Estado de Minas, 05/06/2008), uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias. Diante dessa “zorra total”, pergunto, inspirado nas palavras de Machado de Assis, mestre de nossas letras: “Pobre espírito! Quem pensa em ti, nessa dança macabra de coisas sólidas? Quem oferece alguma coisa ao paladar dos delicados, não corrompido pelo angu do vulgo?” (Notas Semanais, de 01/09/1878).

Assim, o Brasil ainda está longe de ser uma nação de cidadãos leitores e há muito chão pela frente até que se chegue lá. Conforme destaca o importante volume Retratos da leitura no Brasil (2008), são 95 milhões de leitores e 77 milhões de não-leitores. A média nacional de leitura, por pessoa, corresponde a 4,7 livros por ano. Número de livros comprados: 1,2 livro por habitante/ano. A pálida estatística mostra uma preocupante apatia frente à importância significativa da leitura e da escrita. A respeito, faz-se relevante notar o aspecto utilitário: a gente lê para se informar, para saber das coisas. De outra parte, temos o aspecto simbólico que, em parte, deriva do aspecto utilitário. Lendo, adquirimos saber; ora, saber é poder, e essa verdade se afirma dia-a-dia no tipo de sociedade em que vivemos, uma sociedade em que a informação é decisiva.

Dói saber que temos um grande déficit no número de livrarias no país. O Brasil possui apenas 3.095 livrarias, o que representa, em média, uma para cada 64.954 habitantes, de acordo com a Associação Nacional de Livrarias (ANL). Do total, 55% estão na região Sudeste, 19% no Sul, 16% no Nordeste, 6% no Centro-Oeste (incluindo o Distrito Federal) e 4% no Norte, conforme pesquisa da instituição sobre a localização desses espaços comerciais no país. A média brasileira é inferior à recomendada pela Unesco, que é de uma livraria para cada 10 mil pessoas, segundo Ednilson Xavier, presidente da ANL. Para ele, a concentração nas regiões Sudeste e Sul, que chega a 74%, reflete a má distribuição de cultura no país.

Acolher a leitura como exercício supremo de vitalidade possibilita experimentar “o prazer do texto”, conforme salienta Roland Barthes. Leitura informa, leitura emociona, leitura é coisa prazerosa. Há um aspecto lúdico no ato de escrever, na escolha das palavras que construirão o nosso relato; e esse prazer de uma forma ou de outra chega ao leitor. Por isso, em se tratando de formação e consolidação do público leitor, é melhor apresentar a leitura como um convite amável, não como uma tarefa, como uma obrigação que, ao fim e ao cabo, solapam o próprio simbolismo da leitura, transformada num trabalho árido quando não penoso. A casa da leitura tem muitas portas, e a porta do prazer é das mais largas e acolhedoras.

Comunicação de saberes entre indivíduos

A leitura proporciona também um vínculo emocional, inclusive com o autor – não por outra razão Baudelaire considera o leitor “mon semblable, mon frère” (meu semelhante, meu irmão). E o escritor precisa ser lido, o que explica o transbordante apelo da poeta Edna St.Vincent Milay: “Read me, do not let me die” (leia-me, não me deixe morrer). Em torno do ritual de leitura, os leitores, mesmo distantes no tempo e no espaço, formam uma família, uma verdadeira irmandade. Irmandade que simboliza aquilo que a humanidade tem de melhor. Salutar compreender a irmandade em questão como belo exemplo de rede de sociabilidade, considerando a teia de conteúdos nela compartilhados, tendo em vista a promoção da “era da inteligência conectada”, termo cunhado pelo consultor de tecnologia da informação, Don Tapscott.

É inadmissível que, em termos de política pública de incentivo à leitura, o sistema de disponibilização do conhecimento, via bibliotecas e livrarias, não canalize seu empenho no perfil de usuário da informação adquirida. Urge contemplar e remediar, com eficiência e eficácia, a problemática conjuntura nacional – escolas do século 19, professores com recursos do século 20 e alunos conectados tecnologicamente com o século 21. Cabe ressaltar que as bibliotecas e as livrarias, como centrais de democratização do conhecimento, apresentam papel cultural estratégico na disponibilização pública de acervos impressos e digitais.

A ideia de uma Sociedade da Informação, ou do Conhecimento, ou ainda da Educação, é um conceito antigo e constantemente renovado no desenvolvimento da humanidade, desde aqueles que pretenderam fazer a súmula dos conhecimentos na coleção da Biblioteca de Alexandria, passando pelos ardores e mentores do Renascimento e pela criação de universidades no fim da Idade Média, continuando nos ideias democratizantes e racionalistas dos enciclopedistas até a chegada da internet e da web. No fundo da questão, o que se coloca, como desafio brasileiro, é viabilizar a comunicação de conteúdos ou saberes entre indivíduos, numa forma de compartilhamento mais aberta e acessível do que nunca.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

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