Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

Celso Furtado, jornalista

Por Norma Couri em 24/09/2014 na edição 817

Jornalista bom não aceita perfis definitivos. Foi juntando papéis perdidos e escavando a vida do marido Celso Furtado que a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar revelou de que matéria era feito o economista mais famoso do Brasil. Morto há dez anos, Furtado fica para a história como um dos maiores pensadores que a América Latina já produziu, autor de 34 livros sobre as raízes do subdesenvolvimento e a dialética do desenvolvimento, a criatividade e a dependência na civilização industrial, projetos, construção e análises para o Brasil. Mas o superintendente da Sudene e ministro do Planejamento de João Goulart, professor da Sorbonne depois de cassado no Brasil, não foi por acaso ministro da Cultura ou imortal na Academia Brasileira de Letras. O paraibano que se dizia “um cacto” era um Quixote, um inconformista, um idealista de ação.

A não ser pela capa com belo traço do pintor Samson Flexor, de quem ficou amigo em 1948 a bordo do vapor Jamaïque rumo ao Brasil, nada sugere o que o leitor vai encontrar em Anos de Formação, 1938-1948, sexto livro recém-editado pela editora Contraponto e os Arquivos Celso Furtado no Rio, que abriga seus 7.542 livros. Para se manter no Rio e na Faculdade Nacional de Direito, o estudante, instalado numa pensão da Lapa, vai trabalhar por 300 mil réis como redator de publicidade na Revista da Semana, lançada pela mesma editora das populares Eu Sei Tudo e A Cena Muda. Mas é como suplente de redator a 12 mil réis por dia no Correio da Manhã, aprovado num teste de admissão por Antonio Callado, que ele se realiza.

Na Revista era obrigado a participar de coquetéis no Copacabana Palace, como aquele que anunciou a inauguração do salão de beleza de Helena Rubinstein no Brasil. Mas também participou da coletiva de imprensa de Orson Welles nos estúdios da Cinédia, em 1942, e escreveu a reportagem sobre a morte trágica do jangadeiro Jacaré, que se afogou na Barra da Tijuca durante as filmagens de Welles. Jacaré ficou famoso depois de pegar sua jangada na praia cearense de Iracema, com três colegas, e costear mais de dois mil quilômetros para pedir direitos trabalhistas a Getúlio Vargas…

Celso Furtado cruza novamente com o cineasta, que se preparava para filmar o inacabado It’s All True, quando faz uma reportagem de 12 páginas sobre a Semana Santa em Ouro Preto, entrevistando gente de todo lado, fino repórter ao lado do fotógrafo Arnaldo Vieira.

Desejo íntimo

Escreveu surrealismos citando Dédalos e Ícaro, como na reportagem sobre Marcos Barbosa, o primeiro índio brasileiro que voou na pequena cidade de Mamanguape (PB). Com sensibilidade de artista, criticou os inimigos de Chopin que, como os cossacos em 1863, atiraram seu piano pela janela, e os nazistas que proibiram sua música em 1939. E emocionou-se na morte do caubói Buck Jones, rei do faroeste, implacável inimigo dos vilões, protetor dos fracos e cavalheiro impecável. “Em Buck Jones nós depositávamos a fé em nós próprios, naquilo que existe de puro dentro do homem”, escreveu. Não deixaria de lado os artistas de vanguarda recusados, excluídos pelo academicismo num “Salon des Refusés” carioca… e cita Portinari, Manoel Bandeira, Menotti Del Picchia.

O grande encantamento é a música. Ele estudou piano na Paraíba com Gazzi de Sá. É de babar a profusão de concertos e óperas do Rio que ele cita, assombrado, em suas cartas à mãe: o violinista Heifetz, Toscanini, a ópera Carmen com o famoso tenor Jan Liepura no papel de Don José. Arthur Rubinstein emociona tanto aquele que se diz “um cacto” que ele escreve a Adhemar Nóbrega, futuro colaborador de Villa-Lobos: “Minha emoção tem sido tão grande que ainda não me sinto com coragem para escrever sobre o assunto”.

Depois de uma conversa com Villa-Lobos num café da Cinelândia, lastima em carta ao mesmo Nóbrega: “O nosso amigo Villa-Lobos recebe algumas dezenas de contos de réis para apresentar ao público obras sinfônicas suas; contrata músicos, organiza uma grande orquestra, dá dois concertos tendo de antemão facilitado a entrada a quem quisesse… e seu auditório é microscópico”.

No papel de jornalista apanhou como um profissional depois de escrever uma boa reportagem sobre o concurso de piano patrocinado pela gravadora Columbia, com direito a uma viagem aos Estados Unidos. A disputa Fla-Flu era entre o carioca Arnaldo Estrela e o paulista Adolfo Tabacow, e a reportagem foi atacada numa carta anônima recheada de palavrões e insultos: “Ganhas naturalmente algum dinheiro para estas reportagens adúlteras; pois bem, queres, pagarei o dobro”.

Num caderno de 1940, listou os livros lidos no mês: O Guarany e Diva, de José de Alencar, Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre, Memórias Póstumas de Braz Cubas e Quincas Borba, de Machado de Assis, Joseph Fouché de Stefan Zweig. Na lista do ano seguinte elege Confúcio, Platão, Wilde, Rousseau, Graça Aranha, Kepler, Bergson, Proudhon, Coulanges, Tennyson. Além dos livros de história, compra os primeiros livros de economia. Mas o desejo é escrever literatura.

Vida árida

Seu romance traçaria a vida de um interiorano na metrópole, Transumância,o deslocamento sazonal de rebanhos para lugares mais acolhedores. Traça estruturas narrativas, tempos literários, imagina que os métodos possam ser “os de A Condição Humana”, uma tendência natural a Proust… Admite que reage “mais como romancista”. Esboça contos que falam de liberdade, individualismo e do super-homem nietzcheano, e se surpreende mais analisando a vida “do que vivendo”.

Quando o Brasil declara guerra ao Eixo, o tenente Celso Furtado vai para o front e desembarca em 8 de fevereiro de 1945 no quinto contingente da Força Expedicionária Brasileira, com seis mil soldados – ali já deixa sua marca literária nas Notas de um Diário. A vida toma outro rumo, mas a veia poética nunca abandonou o “cacto”, nem quando escreve no Panfleto, dirigido por Joel Silveira, aglutinando intelectuais de esquerda como Moacyr Werneck de Castro e Jorge Amado.

Na edição em três volumes de Rosa Freire d’Aguiar da Obra Autobiográfica de Celso Furtado(Paze Terra, 1997) já se pressentia esse Celso de outras paragens que sobreviveu à desesperança da deposição de Miguel Arraes, em 1 de abril de 1964, ouvindo Alexandre Nevsky de Prokofiev em casa, à noite. “Quase chorei na travessia do campo dos mortos e respirei aliviado com o canto da vitória. Sem música, viver seria muito mais difícil.” E foi lendo A Peste de Camus, em Brasília, imaginando a cidade invadida por ratazanas, que ouviu pelo rádio a notícia da cassação de seus direitos políticos por dez anos. Até sair do país de cabeça em pé, com passaporte diplomático, o refúgio foi Oréstia, de Ésquilo. Era vigiado desde 1947.

Cita Emily Dickinson, beleza é alegria, “a thing of beauty is a joy forever” – e enxerga beleza até na Florença em guerra. “A luta é como um rio que passa, ninguém ganha propriamente e nenhuma derrota é definitiva.”

Na Obra Autobiográfica ele analisa a história do Brasil e os homens que traçaram o destino no país entre 1950 e 1964, um Juscelino Kubitscheck visionário que gerou uma crise cambial ao se chocar com o FMI porque queria Brasília a qualquer custo, e um Jânio Quadros, com sua política externa, que não era tão louco como parecia. Furtado também tentou traçar os destinos do país, porque gostava de um bom combate e homens desse naipe lutam para mudar a História. Mas na edição de Rosa Freire não resta dúvida do que ela sempre nos quis mostrar: esse batalhador pela luta social, pela educação para todos e a melhoria da vida árida do nordestino é, no fundo, um esteta.

E quando tudo parece que teríamos um literato de primeira na praça, Celso Furtado se volta, no terceiro ano da faculdade, para a técnica de administração, que resultará um teórico do planejamento e desembocará o primeiro ministro do Planejamento do Brasil.

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Norma Couri é jornalista

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