Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ARMAZéM LITERáRIO >

Choque de civilizações ou fim da história?

Por Carlos Eugênio Timo Brito (Londres), George Felipe em 03/02/2009

Sábado à tarde, janeiro de 2009. Numa mesa virtual do bar World Wide Web, de endereço indefinido, sentam-se três brasileiros. As boas-vindas do garçom são abafadas pelo som de uma televisão de balcão sintonizada no noticiário. Na tela, cenas desagradáveis de uma guerra. Naquele dia, a invasão israelense em Gaza completara uma semana. No dia anterior, o prédio do Parlamento palestino havia sido destruído pela força aérea israelense. Ainda naquele mesmo dia, seis dezenas de foguetes haviam sido lançados pelo Hamas em direção às cidades israelenses de Ashkelon e Sderot. Resultado: mais um conflito em Gaza, uma das regiões mais explosivas do mundo há muito tempo.


O garçom, tentando ser simpático com os seus recém-chegados clientes, faz um comentário trivial: ‘Vocês preferem que eu mude para um jogo de futebol?’


Izabela, brasileira radicada no Timor Leste, apressa-se em dizer ‘Não, não há necessidade’, aliviada em perceber opinião semelhante de Felipe. Antes ver um noticiário do que um jogo de futebol. Felipe, confortavelmente sentado em sua cadeira em Brasília, Brasil, emenda: ‘Esse conflito no Oriente Médio é resultado de uma sucessão de oportunidades de paz desperdiçadas’. Izabela balbucia, ao mesmo tempo em que abre o cardápio: ‘É mesmo, parece uma guerra sem fim… O que você acha, Carlos?’ De sua cadeira, em Londres, o estudante dispara, já se esquecendo do jogo proposto pelo garçom: ‘Este assunto exige uma bebida, de preferência forte…’


Um contraponto intrigante


Discutir o conflito entre o Hamas e o Estado de Israel requer um esforço excepcional, pois envolve abundância de emoções e escassez de razão. A cada novo anúncio midiático de explosão, destruição, dor, sofrimento e morte, sentimentos poderosos de indignação e repulsa invadem o observador. Essa reação representa, freqüentemente, uma visão cósmica peculiar, quiçá afetiva – e menos cognitiva – do curso dos eventos e do mundo em que vivemos. Diante desse esforço, mostra-se tentadora a busca por teorias que expliquem, de uma só vez, todo o complexo tabuleiro de atores e interesses envolvidos no conflito. No cardápio de teóricos já considerados populares, destacam-se Huntington e Fukuyama.


Felipe sugere: ‘Que tal uma boa garrafa da cerveja Huntington?’ O Choque de Civilizações, obra seminal de Samuel Huntington, foi lançado ainda na década de 1990. Em síntese, o teor dessa perspectiva sugere que as principais fontes de conflito no mundo pós-guerra fria seriam de natureza cultural, em oposição às contendas de ordem político-econômica que marcaram a maior parte da história da humanidade. Dentre os principais elementos culturais indutores de conflito, o autor destaca a religião e a identidade (nacional?). Uma possível e recorrente leitura do conflito em Gaza à luz de Huntington envolve interpretar a guerra como uma sucessão de binômios: ocidente versus o oriente, judeus versus islâmicos, democratas versus teocratas etc.


Carlos, lembrando-se de sua última ressaca de Huntington, ainda nos tempos de faculdade, responde sem pensar: ‘Vejo aqui que também temos a cerveja Fukuyama…’


Fukuyama é um contraponto intrigante a Huntington. No seu O Fim da história e o último homem, o autor propõe que a supremacia do capitalismo, após a glasnost e a perestroika, teria interrompido o surgimento das dialéticas que funcionavam como ‘o motor da história’. Daí, o seu fim e a consagração do ‘último homem’: um ser humano capitalista, liberal e democrata, figura mesmo do típico ‘wasp’ (white, anglo-saxon and protestant – branco, anglo-saxão e protestante), ‘vencedor’ da Guerra Fria. Os eventuais conflitos que surgissem após essa consagração, propõe Fukuyama, representariam apenas uma acomodação de forças ao novo status quo, supostamente permanente. Nesta caso, o conflito em Gaza refletiria a saúde do paciente disciplinado ao tratamento capitalista (Israel) em detrimento do esforço do paciente não-capitalista (Hamas), debatendo-se para manter-se vivo.


Teocracia vs. democracia?


Izabela, prevendo o impasse na hora do pedido, solidária ao garçom que esperava em pé ao seu lado, mui candidamente sugere trazer Huntington mesmo (quiçá como proxy de uma ‘cerveja virtual’ nessa mesa digital…). Faz, contudo, uma ressalva. ‘Vai depender de como pretendemos usá-lo para tratar da questão `Hamas versus Israel´.’ Segundo ela, o momento seria perigoso em sua superficialidade de análises, preferências, vieses, enfim, de parcialidade. O terceiro à mesa, mais que rápido, aceitou polidamente a ‘cerveja virtual Huntington’, mas não sem pedir uma ‘carta de vinhos’ em que apontou uma ‘pluralidade de buquês’, sem esquecer um ‘chateau neo-realista’. Bebamos então: in vino veritas!


O que não restaria em dúvida, entretanto, ao brindarem Huntington, seriam a fragilidade e impotência das organizações internacionais e a ineficácia da diplomacia egípcia e européia em relação a palestinos e israelenses. Isso para não citarmos um direito internacional posto de lado e que ainda figura, em 2009 e com o Conselho de Segurança, sob um mesmo signo de impotência vis-à-vis as heranças malditas do imperialismo tratadas no âmbito do Conselho de Tutela, extinto em 1994 após a independência de Palau.


A escolha por Fukuyama poderia ter semelhantes efeitos colaterais limitadores. O calcanhar de Aquiles dessa interpretação é ignorar as potenciais contendas oriundas de dentro do próprio sistema capitalista – e as novas dialéticas que a partir disso poderão surgir. O fracasso da ‘rodada Doha’ e a corrente crise dos sub-primes, dizem os críticos de Fukuyama, seriam apenas dois bons exemplos de que a história pode estar apenas começando ou, pelo menos, repetindo-se.


A pós-modernidade não provou ser, nesse ‘fim de linha bucólico’ proposto por Fukuyama, uma ‘droga estupefaciente’, fruto da associação de fármacos existenciais como ciência, tecnologia, riqueza, liberdade ideológica, política e educação. Huntington talvez nos queira lembrar, ao supostamente contrapor Fukuyama, que possa existir um mundo pós-moderno, dito ocidental – com conotação substantiva e adjetiva valorativa – eventualmente alternativo a um outro mundo, pré-moderno, e que se opõe fundamentalmente àquele outro. Teocracia versus democracia? E o que seria, exatamente, uma e outra coisa, na ‘semiótica dura’ dessas duas expressões?


Soluções mágicas


Os acontecimentos em Gaza refletem a complexidade do conflito que por suas características o tipificaria mesmo como uma ‘guerra sem fim’ (endless war), tal como dito inicialmente por Izabela. Entretanto, segundo uma visão clássica e apesar do envolvimento coadjuvante de países como EUA, Líbano, Síria e Egito, o conflito armado entre Hamas e Israel não poderia ser classificado à luz do direito internacional público como uma ‘guerra’ propriamente dita visto que este quadro específico não envolve dois ou mais Estados soberanos.


Na abordagem pluralista, os novos conflitos incluem atores não-estatais, como o Hamas, o Fatah e o Hezbollah, atores intra-estatais, como Likud e Kadima, ou até mesmo atores não-identificados, como as células terroristas surgidas no âmbito da ‘guerra contra o terror’ (as quais certamente têm operado em Gaza). Contudo, pela sua complexidade e durabilidade, tal conflito produz fadiga e exaustão, não apenas acerca dele próprio em suas várias décadas, mas também sobre noções genéricas do que seja justiça, paz, ética e moral.


No caso específico, a percepção de injustiça, em um mundo cada vez mais global em termos de comunicação, expande reflexões e percepções, levando-as a outros teatros de guerras, como no caso do Sudão e Congo. O efeito macabro da espetacularização midiática da violência faz com que Gaza seja a bola da vez. O ‘efeito CNN’ impacta e incendeia o contencioso cujo relativismo moral sugere diferentes modelos explicativos em prol da análise e resolução de conflitos internacionais ao dar mais valor aos escombros de um e menos às pilhas de mortos de outro.


É também nesse contexto de conflitos globais que os leigos em relações internacionais especulam sobre soluções mágicas, superficiais e efetivas para a atual crise no Oriente Médio, como se lá estivesse em curso o único contencioso importante no planeta envolvendo forças culturais, grupos políticos, mortes, armas de destruição em massa e outras expressões da beligerância.


Ontologia da complexidade


Em outra ‘mesa virtual’, o jornalista Gustavo Chacra, na busca de vencer a superficialidade de análises parciais sugere que existem diferenças marcantes entre o Hamas e o Hezbollah, ambos contendores ‘diretos’ de Israel – um na Gaza de 2008/2009, o outro no sul do Líbano do início da década de 1980 e em 2006. Entre as diferenças de base, o Hamas é sunita, entre uma maioria sunita de palestinos, e o Hezbollah é xiita, entre vários outros grupos religiosos do Líbano; um é palestino, enquanto o outro libanês; possuem inspirações diferenciadas: o Hamas na Irmandade Muçulmana, do Egito; o Hezbollah, na Revolução Islâmica do Irã; o Hamas segue empreendendo ataques suicidas em Israel; o Hezbollah valeu-se disso no sul do Líbano, cessando de fazê-lo após a desocupação em 2000; o ‘poder de fogo’ do primeiro é bastante limitado, enquanto o segundo possui meios bélicos de atingir Tel Aviv; o Hamas não tem quadros operacionais da qualidade tático-operacional dos afiliados ao Hezbollah, talvez os mais bem treinados combatentes da comunidade árabe; o primeiro não detém unidade de comando local (Khaled Meshal vive em Damasco), enquanto o Hezbollah é dirigido indisputadamente pelo xeque Hassan Nasreallah; o Hamas enfrenta dificuldades de recursos, enquanto o grupo libanês é apoiado por xiitas libaneses, da África e Golfo Pérsico, além do próprio Irã; e, finalmente, o Hamas pode estar fortemente infiltrado pela inteligência israelense, enquanto a contra-inteligência do Hezbollah tenha um poder diferenciado dos palestinos em resistir à conhecida competência israelense na realização de operações do gênero contra seus opositores.


Por tudo isso, é preciso compreender que a atual crise em Gaza, como no caso de outros conflitos, é extremamente complexa, oferecendo um vasto leque de metodologias, focos e abordagens com que pode ser analisada e interpretada. A fim de evitar cair em obviedades e simplismos, é necessário ter muito cuidado na busca de sentido no nonsense. A eleição da própria abordagem pode ensejar o predomínio desta ou daquela ideologia, muitas vezes fruto de uma agenda oculta. Por isso, torna-se imprescindível esclarecer sempre qual o foco ou viés, bem como a extensão da análise, no tratamento de um tema de tamanha importância e significado no mundo globalizado de 2009. O ideal, neste caso, seria ter às mãos uma epistemologia e uma ontologia da complexidade, ainda inexistente ou inacessível.


Influência do pan-arabismo


Abordar a questão de Gaza buscando explicações da ‘razão da desrazão’, no conflito entre o Hamas e Israel, pressupõe entender não apenas o Hamas, mas também sua relação com o Hezbollah. Isso antes mesmo de contrapor, em análise, Israel versus Palestina, legalidade das causas, direito de existência como Estados soberanos, autodeterminação dos povos, aplicabilidade da resolução das Nações Unidas, historia, nacionalismo, identidade e fanatismo, jogos e assimetrias de poder, estratégia política, anti-semitismo, interdependência, entre outros vieses.


Mas há uma saída? A História e a esperança dizem que há, sim. Mas essa saída irá requerer coragem por parte dos tomadores de decisão de ambas as partes, bem como uma interrupção no jogo de vaidades e intolerância dos atores principais e coadjuvantes envolvidos no conflito. A solução passará certamente pela devolução de terras por parte dos israelenses, voltando à configuração geopolítica pré-1967, ano em que os israelenses, em resposta a um ataque conjunto de países árabes, invadiram Gaza pela primeira vez. Por parte dos palestinos, a solução depende de uma moderação do Hamas e do fortalecimento dos setores palestinos mais tolerantes.


De qualquer forma, o conflito em Gaza proporciona, indubitavelmente, lições importantes para a vida de cada um de nós. Gaza é a concretização, em grande escala, dos conflitos diários que ocorrem entre os mais diversos indivíduos. Pode-se dizer que Gaza é o resultado de oportunidades desperdiçadas sucessivamente, de um infantil conflito de vaidades, de uma ingênua indisposição para a solução definitiva de problemas e de uma incapacidade real de perdão. O que começou, há mais de 15 séculos, como uma disputa agrária entre dois povos (israelenses e palestinos) pelo mesmo pedaço de terra, tornou-se hoje uma grave contenda de ordem religiosa e civilizacional. No meio dessa história, reside a influência do pan-arabismo de Nasser durante a década de 1960. Esse populismo resultou, entre outras tragédias, na Guerra dos Seis Dias, primeiro episódio de grandes proporções do conflito atual.


Tragédias ‘encenadas’ e ‘reais’


Curiosamente, Gaza representa mais um episódio de um conflito entre as duas religiões monoteístas mais antigas da humanidade. Trata-se, portanto, de uma clara comprovação de que experiência ou antiguidade nem sempre significa moderação e ponderação. Ou seja, ao invés de um ‘choque de civilizações’, poderíamos estar a presenciar um ‘diálogo (saudável) entre civilizações’, caso o problema não tivesse escalado para proporções tão assustadoras.


Contemplando o que possam representar expressões como palestinos e israelenses ou islâmicos e judeus, existirá sempre alguém cuja identidade maior será com a própria raça humana. Nessa igualdade universal entre os homens, considerando que todo conflito, como é o caso em Gaza, deva ser, sempre e cada vez mais, analisado racionalmente com o objetivo de encontrar um desfecho viável, satisfatório às necessidades das partes e cuja resolução seja implementada rapidamente e com eficácia.


Mesmo assim, uma única teoria será sempre bastante insuficiente para interpretar um contencioso com tal complexidade, da mesma forma que não existe um único Shakespeare que represente, em tragédias ‘encenadas’, todo o rol de tragédias ‘reais’.

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Respectivamente, doutorando em Justiça Criminal e Relações Internacionais pela Universidade de Westminster, Londres, Reino Unido; doutor em Educação pela George Washington University, Washington, D.C, EUA; mestre em Estudos da Paz e Resolução de Conflitos pela Universidad del Salvador, Argentina

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