Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > FIM DE SEMANA, 3 E 4/11

Comunique-se

06/11/2007 na edição 458

CONVÍVIO VIRTUAL
Bruno Rodrigues

Os grandes querem conversar com você, 1/11

‘O bom-senso adverte: onde termina o limite de um, começa o do outro. A idéia vale para o convívio familiar, social e profissional. Mas, e para o virtual, existe um consenso?

Há pouco mais de uma semana, sem muito estardalhaço, grandes grupos de mídia e internet dos EUA reuniram-se para divulgar uma lista de ‘princípios colaborativos’ que darão suporte e apoiarão a crescente produção de conteúdo gerado pelo usuário para a web, o chamado UGC (user generated content). Esta visão, é claro, é a de quem manda, e não a de quem cria, disponibiliza e oferece conteúdo na Rede.

Algum problema? Em um primeiro momento, nenhum. De acordo com o seleto grupo, que inclui pesos-pesados como Disney, Fox, CBS, Microsoft, Viacom e MySpace, a idéia é garantir o direito autoral de quem produz conteúdo para a internet: eu, você – e eles, é óbvio.

O pulo do gato da iniciativa são os programas que funcionam como filtro – se um adolescente produz um vídeo e sobe o material para o MySpace, no problem! Ele preparou o material, que é dele, e ponto final! Os ‘princípios colaborativos’ protegerão o copyright do rapaz, que já não se sentirá tão ‘vulnerável’.

Que esse mesmo adolescente tente, porém, subir para o MySpace um trailer inédito de um filme há muito aguardado, que ele conseguiu sabe-se lá onde. A Fox, que antes tinha um trabalho chatíssimo do ponto de vista de relações públicas – o envio de um aviso extra-judicial pedindo a retirada do material -, agora poderá encostar na cadeira e relaxar: os ‘filtros de conteúdo’ irão detectar, assim que o trailer tiver sido cadastrado para veiculação no MySpace, que o conteúdo é pirata. E, então, sem drama, o vídeo simplesmente não entra no site. Sem trabalho para a área jurídica, sem confusão com a opinião pública, tudinho automático.

O grupo que criou as regras faz questão de dizer que não está pensando apenas no seu lado, mas no do usuário, principalmente. Segundo Disney e cia., além do internauta ter agora um ‘norte’ para se guiar quando for disponibilizar material em um dos sites das empresas signatárias dos ‘princípios’, ele terá a seu dispor recursos tecnológicos muito úteis, mas que não existiam, ou não eram o foco de sites que aceitam conteúdo gerado pelo usuário.

Se antes era problema do internauta procurar ferramentas para construir e colocar no ar um material, agora ele terá o apoio e a orientação do site. Entre várias gentilezas, estaria o upgrade constante das ferramentas de publicação e a rápida solução de erros quando, por exemplo, um conteúdo apontado como pirata for, na verdade, legítimo, mas estiver sendo bloqueado.

O principal foco da empresas é estimular – e regular – a produção de vídeos, a maravilha das maravilhas da era Web 2.0, mas dor de cabeça constante de redes de TV, estúdios de cinema e gravadoras, sempre às voltas com pirataria.

Em tese, o discurso do grupo é ‘vamos colaborar, estreitar laços’. Mas, como eu já disse, eles é que mandam, então é bom ficar de olho. Ainda assim, por mais que eu tenha tentado – e juro que me esforcei -, não consigo notar intenção ruim na iniciativa. Só a junção de megaempresas assumindo que a era do UGC chegou para ficar, e que deste tipo de conteúdo depende boa parte do futuro da Comunicação, já é um passo considerável.

Falta, agora, a adesão de outros players fundamentais, como o Google e seu agregado YouTube, mas tudo leva a crer que é apenas um questão de formalização, já que no site de vídeos mais procurado do mundo os filtros de conteúdo já começam a operar mudanças.

Sinto falta, apenas, do Brasil, sempre tão up-to-date com a web, divulgar o que está fazendo neste sentido. UOL, Terra, iG e Globo.com, pronunciem-se!

E você, vê a criação de ‘princípios’ para o conteúdo gerado pelo usuário como colaboração ou censura velada?

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

FAROESTE FINANCEIRO
Milton Coelho da Graça

Espanhol não sabe fazer conta, 1/11

‘Uma empresa, quando pretende expandir a produção, tem três caminhos a seguir: usa (se tiver) recursos próprios, pede emprestado a um banco ou lança ações na Bolsa (a chamada IPO, investment public offer).

Num país como o Brasil, em que o governo paga juros altos a quem compra títulos da dívida pública, investir só é bom negócio se a expectativa de lucro for maior do que essa taxa de juros. O juro real mínimo (juro da Selic menos inflação) somado a margens e taxas bancárias hoje chega a uns 15% ao ano. Teoricamente qualquer lucro acima disso seria convidativo, mas o empresário tem de pensar também nos riscos e esforços. Por isso dificilmente topa se meter num negócio que ofereça menos de uns 25% líquidos sobre o capital, próprio mais emprestado.

A alternativa de capitalização mais ‘barata’ é a IPO, porque a empresa só paga corretagens e o acionista só recebe sua parte quando a empresa apresentar lucro. Por isso, tivemos muitas IPOs nos últimos meses.

Uma empresa chamada Triunfo – concessões de rodovias, portos e geração de energia elétrica (todas as atividades de alguma forma ligadas ao Estado) – estava devendo 200 milhões de reais ao Credit Suisse. Aí formulou o alívio financeiro: lançar uma IPO. E ofereceu ao banco credor por R$ 4 milhões (mais ou menos 20 centavos por ação) o direito de comprar cerca de 20 milhões de ações da Triunfo a R$ 3,90. O banco topou. E vendeu essas ações a investidores por 9,50.

A história foi toda – e muito bem – contada em reportagem de Raquel Balarin e Cristiane Perini Lucchesi, no jornal Valor desta quarta-feira, 31/10, caderno de Finanças.

Nada de ilegal nem anormal. Mas é ilustrativa do faroeste financeiro em que nossas empresas, industriais especialmente, operam. Em todo o faroeste que se preze, o escritório do xerife fica num lado da rua, o banco no outro. Mas nosso xerife (curiosamente com as mesmas iniciais de Butch Cassidy) acha que está tudo bem com o banco, nem se preocupa.

Os xerifes americanos da área financeira não deixam os bancos cobrar mais de 17% em operações desse tipo. Pelas meticulosas contas de Raquel e Cristiane, o Credit Suisse ganhou entre 23% e 24% na operação com a Triunfo. E o presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimento – Luiz Fernando Rezende – considera esses 17% apenas um ‘número cabalístico’. ‘Não se deve – explica Rezende – inibir lucros legítimos de bancos, para não emperrar o livre funcionamento do mercado, que se auto-ajusta.’

O diretor de uma empresa que recentemente perdeu nas licitações para concessão de rodovias federais (dêem uma olhada para ver se a Triunfo participou) explica que não entendia como os espanhóis puderam pedir preços tão menores pelos pedágios. E disse que sua empresa incluía nas propostas uma margem mínima de 12% sobre a receita líquida dos pedágios. Vamos calcular: 12 mais 24 mais impostos, mais aquelas percentagens que vão ficando pelo caminho – antes, durante e depois das obras. Tudo isso tem de caber no pedágio, pô! Talvez espanhol não saiba fazer conta.

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Moral e cívica, 1/11

‘Protesto contra as guerras.

Protesto contra as falhas.

Protesto contra as serras.

Protesto contra os canalhas.

(JRQuintão in Protesto)

Moral e cívica

Sucede que o Fantástico, esse inevitável mistagogo dos lares brasileiros, resolveu implicar com o ‘Modo Souza’ de festejar os gols. Depois de exibir aquele que derrotou o América (RN), quando o jogador, para mostrar suas qualidades de artilheiro, imitou uma metralhadora com os braços, o apresentador achou importante dizer, diante da imagem riscada por um X vermelho:

‘… mas comemorar com uma arma?!?! Diga não à violência’ – ou algo parecido.

No jogo de ontem à noite entre Goiás e Vasco (3 a 2 pra nós!!!!!!!), o narrador também implicou com idêntica comemoração do menino Alan Kardec.

Janistraquis, que perdeu a paciência ainda no tempo em que Luís Eduardo Greenhalgh era coroinha, suspirou:

‘Agora me diga, considerado: há saco que agüente esse falso pacifismo do lado coca-cola da vida?…’.

É verdade, pois a ‘metralhadora’ do artilheiro Souza faz tanto mal à formação moral dos telespectadores quanto o saiote das dançarinas do Faustão.

(Registre-se, a propósito, que prejudicial mesmo é quando as transmissões esportivas tentam ensinar a pronúncia dalgumas palavras comuns e um singelo subSídio se transforma em subZídio, sabe-se lá por quais arcanos.)

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Acidez alcalina

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de onde ainda é possível escutar o foguetório na Residência do Torto, com os empregados a festejar a vitória de Lula na sensacional disputa para o Brasil sediar a Copa de 2014, pois Roldão, químico aposentado, lia o Correio Braziliense, sentiu na boca o intragável sabor de leite fraudado e resolveu alertar o diretor de Redação:

Exemplar do dia 27/10, páginas 1 e 19, títulos Leite sob suspeita é apreendido no DF e Leite ruim em Brasília. Tanto na primeira página como na 19, o jornal informa que os laudos das análises das amostras do leite longa vida apresentaram excesso de acidez e de alcalinidade, o que é um paradoxo. Ou há excesso de acidez ou há excesso de alcalinidade, uma coisa ou outra. Na escola aprende-se que são propriedades antagônicas. O ácido neutraliza o álcali. As substâncias não podem ser alcalinas e ácidas ao mesmo tempo.

Janistraquis comentou:

‘Considerado, se não existe acidez alcalina, como é possível o PT conseguir apoio do PSDB?!?!?!’

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Gol de bicicleta

Quem leu, garante: O livro FUTEBOL BRASIL MEMÓRIA: DE OSCAR COX A LEÔNIDAS DA SILVA (1897-1937) é um gol de bicicleta do considerado Claudio da Silva Nogueira, que há 19 anos bate com as duas e brinca nas onze lá na Redação de O Globo.

A editora Senac Rio informa que nas 284 páginas recheadas de causos e curiosidades Claudio traça um excelente retrato ‘histórico-futebolístico’ do Rio de Janeiro, das elegantes peladas iniciais até os primeiros quatro anos da introdução do profissionalismo entre nós.

O livro está nas livrarias e sites e custa R$ 39,00.

Mais informações: Editora Senac Rio RPM Comunicação www.rpmassessoria.com.br (21) 3208-7354 Paula Catunda (paulacatunda@rpmassessoria.com.br) (21) 3478-7414 / 8272-2337 / 9105-3102 Renata Bern (renata@rpmcom.com.br) (21) 3478-7400 / 9628-9416 Maria Vargas – (mariavargas@rpmassessoria.com.br) (21) 3478-7437 / 8139-4163 / 8121-3832

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Capitão Nascimento

O considerado sociólogo/flamenguista Gilson Caroni Filho, professor-titular das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), escreveu na Agência Carta Maior:

A TROPA PÚRPURA DO RIO

Quando, fascinado pela trama de ‘Tropa de Elite’, o governador fluminense Sérgio Cabral Filho (PMDB), entra na tela e dela sai de braços dados com o capitão Nascimento, ficção e vida real se fundem na lógica fria de uma visão belicista de segurança pública.

(Leia no Blogstraquis a íntegra do artigo que tem dado o que falar.)

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Protesto contra tudo

O considerado Camilo Viana, diretor de nossa sucursal em Minas Gerais, com jurisdição desde as sofraldas do Morro do Chapéu aos quixós do Vale do Jequitinhonha, despacha da sede vizinha aos domínios de Aécio:

Esta semana envio colaboração diferente. Trata-se de Interessante poema escrito pelo dileto amigo José Romualdo Quintão. Desejando conhecer a obra, visite http://www.jrquintaoartenaif.com/

(Leia no target=_blankBlogstraquis os versos do escabreado Quintão, poeta bissexto e luminar da arte naïf.)

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Cincos dos quatro

O considerado Ageu Vieira, aquele que não tarda nem falha, como Josiel, artilheiro do Brasileirão, pegou esta na Gazeta do Povo, de Curitiba:

A missão do Paraná Clube é conhecidamente difícil: vencer cinco dos próximos quatro jogos que terá no Campeonato Brasileiro. Para conseguir o objetivo, o técnico Saulo de Freitas tem feito tudo a seu alcance para motivar e preparar seus jogadores para o próximo jogo, domingo às 18h10 contra o Internacional, no estádio Durival Britto e Silva.

Ageu pensou a respeito e concluiu:

O repórter excedeu-se na ânsia de salvar o Paraná da ‘degola’ para a segunda divisão. Tarefa difícil, já que segundo ele o time terá que vencer mais partidas do que tem pela frente. Aliás, difícil não é. É impossível vencer cinco em quatro restantes…

Janistraquis acredita que impossível não é, ó Ageu, porque no futebol brasileiro a fé está dois palmos acima de qualquer razão.

(O Paraná ganhou a primeira, 1 a 0 em cima do Internacional, mas empatou a segunda, ontem, contra o Atlético Mineiro. Quer dizer: já não dá mais pra vencer as ‘cinco das quatro’.)

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Misterioso título

O considerado Thomaz Magalhães perdeu a sesta diária na tentativa de descobrir o enigma deste título do site da BBC:

Brasil e Chávez marcaram debate internacional na eleição argentina.

Leitor sempre alerta, Thomaz se achou enredado num laço de marinheiro, daqueles dos escoteiros d’antanho:

O título da matéria informa que ‘O Brasil’ e Chávez marcaram debate. O corpo da matéria não elucida a informação. Quem, no Brasil, marcou debate com Chávez? Qual trecho da matéria toca na informação?

Foi relendo o título mais atentamente que descobri minha confusão. O ‘marcaram’ tem o sentido de ‘identificaram’, de ‘se destacaram’. Não reparei no ‘o’ debate.

Por outro lado, gostei do ‘olhar’ da BBC, o Brasil é o Brasil, um país; e a Venezuela é Chávez, ou sua granja.

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Entrando o resto

O deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP) propõe uma consulta popular para dar o terceiro mandato a Lula e Janistraquis assim reagiu:

‘Tá certo, considerado, é isso mesmo. E ninguém deve se espantar com a proposta desse baluarte da democracia, pois quando o país abriu as pernas pros petistas, iniciou relação mais promíscua e perigosa do que romance entre padre e interno da Febem.’

É a pura verdade; sabe-se que, quando a cabeça vai, o resto deslisa fácil…

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Coração vingador

O considerado José Paulo Lanyi passeava o esperto olhar pela internet e encontrou no Globo Online esta notícia infartada sob o título Coração resgatado bate em agricultor:

‘Helicóptero retirou órgão de congestionamento na Bandeirantes e levou em 8 minutos para o Incor. Paciente transplantado passou a noite na UTI, sedado.’

Zé Paulo, jovem apaixonado por tudo o que faz, deixou fluir a emoção:

Lembrei-me daquele dito de quem sofre por amor: ‘Meu coração não bate, apanha’. Esse, pelo jeito, resolveu se vingar. Pelo visto, cansado de tanto apanhar, preferiu parar de bater, mas acabou resgatado e, inconformado, partiu para cima do pobre agricultor…

Janistraquis quedou-se impressionado com o coração vingador, ó Lanyi, mas garante que nenhum outro há de superar aquele da canção de Vicente Celestino: ‘Disse um campônio à sua amada, minha idolatrada, diga-me o que quer…’

(Leia no Blogstraquis a letra completa de Coração Materno, estrondoso sucesso do tempo em que o pai do Cazuza não havia nascido.)

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Nota dez

O considerado Augusto Nunes escreveu no Jornal do Brasil, sob o título O Encantador de Sucuris:

Nelson Jobim chegou de terno e gravata, na noite de terça-feira, para o jantar na casa do senador goiano Demóstenes Torres. Mas a expressão beligerante informava que a alma seguia trajando o uniforme de guerreiro de selva usado pelo ministro da Defesa na demorada visita à Amazônia. Era a cara de quem quer briga. Conseguiu o que queria ao topar com o deputado federal Rodrigo Maia, presidente do DEM.

Com voz ríspida, cobrou do parlamentar do Rio (a quem se referiria, no restante da noitada, como ‘esse guri de merda’) explicações para a nota, divulgada pelo blog do partido, sobre o passeio na floresta. Jobim achara sarcásticos demais o tom e, sobretudo, o título: O canastrão e a sucuri.

(Leia no Blogstraquis a íntegra do artigo que informa e diverte.)

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Errei, sim!

‘BONS DE VARA — Ao providenciar incomensurável faxina em nosso arquivo de excentricidades jornalísticas, Janistraquis reencontrou esta obra-prima de duplo sentido, publicada pela falecidíssima Folha da Tarde, de São Paulo: Soviéticos bons de vara conquistam tudo.

O título prometia mas não contava o que o considerado leitor está, porventura, a imaginar – é que os saltadores Serguei Bubka e Radion Gataulin são mesmo imbatíveis. Até o zebrão Grigori Egorov saltou 5m80. Com vara, naturalmente. (dezembro de 1988)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP), ou japi.coluna@gmail.com.

(*) Paraibano, 65 anos de idade e 45 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou, entre outros, no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu nove livros (dos quais três romances) e o mais recente é a seleção de crônicas intitulada ‘Carta a Uma Paixão Definitiva’.’

COPA 2014
Eduardo Ribeiro

Brasil sedia a Copa, mas tem longo caminho a percorrer, 31/10

‘A editora regional deste Jornalistas&Cia, no Rio de Janeiro, Cristina Vaz de Carvalho, chega esta semana com um texto em que mostra com exclusividade os desdobramentos em termos de imprensa que o anúncio feito pela Fifa, nesta segunda-feira, confirmando o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, terão. Pela pertinência e oportunidade do tema, tomo a liberdade de reproduzir neste Comunique-se o texto que também está circulando na edição ‘impressa’, que é enviada para assinantes por meio de correio eletrônico. Na seqüência, matéria sobre a edição de dez anos do diário esportivo Lance, que registrou a tiragem recorde de 1 milhão de exemplares. Segue o artigo.

‘Nesta 3ª feira (30/10), Joseph Blatter, presidente da Fifa, anunciou em Zurique, Suíça, que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014. Antes mesmo do anúncio, governadores do Rio e de São Paulo já apresentavam seus estados como candidatos para receber o Centro de Imprensa. Afinal, o evento pode atrair até 500 mil turistas no período de um mês, e mais a repercussão provocada pela imprensa internacional. Na última Copa, na Alemanha, foram credenciadas 16 mil pessoas de mídia, entre jornalistas e técnicos. Como o Brasil tem um território enorme, o que dificulta os deslocamentos para cobertura, especialistas acreditam que aqui esse número deve ser maior.

Do país-sede, a Fifa exige, em contrato, rigor extremo no trato com a imprensa. A área de mídia da instituição entende que, se cada patrocinador master paga 700 milhões de euros por quota, quer aparecer bem – e muito. Para dar retorno, a entidade zela para que a imprensa tenha total conveniência em seu trabalho. E procura dar todas as condições para o jornalista, o que nem sempre ocorre entre nós.

A cada Copa do Mundo, o país-sede tem um centro em que a Fifa monta seu quartel-general. Em geral, é a cidade na qual ocorre o jogo de abertura (que aqui deverá ser em São Paulo) e, na antevéspera, o Congresso da Fifa. Mais comum, mas não necessariamente, o Centro Principal de Imprensa fica na mesma cidade do QG (que deverá estar no Rio). Dali é emitido o day briefing – em que, como o nome diz, se avisa o que de importante vai ocorrer naquele dia. São exigidas salas de imprensa com capacidade para, no mínimo, 200 jornalistas, mais seis salas para estúdios das emissoras de tevê que compraram os direitos de transmissão, além de área para coletivas, da zona mista e do espaço para flash interviews.

Antes de mais nada, talvez seja preciso mudar a mentalidade. No Brasil, não existe o conceito preciso de zona mista – trajeto entre campo e o vestiário e, depois, do vestiário ao ônibus dos atletas. Aqui, é comum esconder estrelas que tiveram mau desempenho e sobre isso não querem falar. Lá fora, é obrigatório passar pela zona mista, mostrar a cara para a mídia e assumir que não vai falar. A zona mista deve ter, obrigatoriamente, 600 m2.

Como se sabe que os jornalistas são hoje cada vez mais móveis, querendo mandar matérias e imagens a qualquer momento, é preciso prever quanto o serão daqui até 2014. Apenas como exemplo, hoje, o Maracanã não oferece Wi-Fi, e nossos centros de imprensa não têm banda larga para todos que dela precisam se utilizar, mesmo em jogos de menores proporções. Quando jornalistas internacionais se queixam disso diante de autoridades – secretários municipais ou estaduais de Esporte –, é comum receberem o deboche como resposta. Jornalistas esportivos brasileiros comentam que nossas autoridades esportivas não conhecem o regulamento da Fifa para o evento – que sustentará a entidade pelos próximos quatro anos, assim como todas as suas divisões de base e outros eventos, pelo mesmo período. Talvez seja preciso repensar tudo.

Mais do que as questões relacionadas com a comunicação, o País vai precisar resolver seus problemas de infra-estrutura – estádios, instalações, segurança, transportes, garantia do fornecimento de energia elétrica, entre tantos outros – em apenas cinco anos. Apesar de estarmos a sete anos de distância da Copa no Brasil, consta do contrato com a Fifa uma inspeção em 2012. Se nem tudo estiver em conformidade com o acordo, pode haver uma rescisão por justa causa. Nosso país ganhou, esta semana, um evento que o mundo inteiro quer sediar. Não vai perdê-lo.

Nizan Guanaes e Bia Aidar, há cerca de um mês, cuidam da Comunicação Integrada da CBF. Rodrigo Paiva, há cinco anos, cuida de Imprensa. E, mais recentemente, Mário Rosa faz consultoria como ‘especialista em imagem’ para a CBF, a partir de Salvador, Bahia, onde mora. Todos têm muito trabalho pela frente e várias exigências a cumprir. O próximo passo, na CBF, será a criação de um Comitê Organizador, em substituição ao Comitê da Candidatura que existiu até aqui. Apesar do muito trabalho e despesas que tem pela frente, o Organizador vai poder cobrar o justo preço: na Copa da Alemanha, apenas esse Comitê obteve de lucro 53 milhões de euros. Vale o esforço.’

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Lance – 10 anos e 1 milhão de exemplares

Chegou às bancas nesta 3ª.feira (30/10) a edição comemorativa de 10 anos do diário esportivo Lance. São mais de 80 páginas, com uma tiragem de 1 milhão de exemplares, 20% encartados na edição normal do dia e 80% distribuídos gratuitamente em 30 cidades do norte a sul do País. É a primeira edição no novo projeto gráfico do diário, desenvolvido pelo escritório da Cases y Associats, de Barcelona.

Coordenado por Paulo Marcos Mendonça Lima, editor da Lance Publicações, e Alex Borba, editor de Arte do diário em São Paulo, o Especial 10 anos tem textos de 57 personalidades que contam a história do esporte no Brasil e no mundo durante a década, dando sua visão de protagonistas, testemunhas oculares ou meros torcedores. Entre os convidados, os governadores de São Paulo, José Serra, que fala do Palmeiras; do Rio, Sérgio Cabral, do Vasco; e de Minas, Aécio Neves, do Cruzeiro; o ministro Orlando Silva Júnior, do Esporte, que explica a crise do Vitória; esportistas como Pelé (que fala da geração de Diego e Robinho no Santos), Zico, Parreira, Lars Grael, Guga, Rogério Ceni, Diego Hypolito, Carlos Arthur Nuzman e Aurélio Miguel; artistas como Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawai, o documentarista João Moreira Salles e o publicitário Whashington Olivetto, além de jornalistas e colunistas da casa (Paulo Vinicius Coelho, Armando Nogueira, Mauro Betting, Benjamin Back, Paulo Bonfá, Roberto Assaf e Marcelo Damato, entre outros), e de fora, como Juca Kfouri (UOL e Folha), Álvaro Oliveira Filho (CBN – Globo Rio), Bob Fernandes (Revista Terra), Leão Serva (Prefeitura de SP), César Seabra (TV Globo), Márcio Pinheiro (Zero Hora), Marcelo Barreto (Sportv), Ruy Carlos Ostermann (Sportv – Zero Hora), Rolberto Falcão (Ex-COB, e Edição Extra e Faculdade Hélio Alonso), Ricardo Galuppo (Totum Editorial), Adrian Piedra Buena (diário Olé, de Buenos Aires) e Alberto Cerrutti (Gazzetta dello Sport, de Milão).

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’

Marcelo Russio

A Copa do Mundo é (quase) nossa, 30/10

‘Olá, amigos. Felizmente para uns, infelizmente para outros, a Copa do Mundo foi oficialmente confirmada no Brasil. Ou quase. Pelo estatuto da Fifa, a confirmação da realização do torneio no país escolhido só será definitiva em 2012, dois anos antes do evento. Até lá, a Fifa pode cancelar a escolha, caso julgue que prazos e procedimentos não estão sendo cumpridos, e designar outro país para sediar a competição.

Achei muito interessante a mobilização das redes de TV, enviando seus correspondentes a Zurique, na Suíça, para cobrirem da melhor maneira possível o dia histórico para o futebol brasileiro. O fato desagradável é a insistência do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em não dar entrevistas à ESPN Brasil. Tudo bem, ele está no seu direito de só falar com quem quer, e quando quer. Mas que pega muito mal, em tempos de democracia, abertura e transparência, o representante máximo da instituição que rege o futebol mais prestigiado do mundo simplesmente ignorar uma equipe de reportagem do seu país, isso fica. Ainda mais estando o Brasil em evidência de agora até 2014, mesmo que a Copa de 2010, na África do Sul, aconteça no meio do caminho.

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Para a imprensa brasileira, o anúncio oficial da Fifa foi uma beleza. Tivemos gafes de Ricardo Teixeira, frases de efeito de Paulo Coelho, declarações fortes de Joseph Blatter… Acredito que, em termos de cobertura esportiva, a coisa tende a esquentar progressivamente, e certamente não faltará trabalho para repórteres, que noticiarão não apenas esporte, mas obras, licitações, cronogramas e todo tipo de assunto até o Mundial.

Já que se disse que haveria a criação de 40 mil empregos diretos com a realização da Copa do Mundo no Brasil, creio que pelo menos uns 5% serão na imprensa esportiva (que está precisando, e muito, de um sopro desses), pois notícia não faltará até lá.

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Já faz tempo que não falo aqui de uma parte importante de qualquer publicação esportiva: a charge. Temos no Brasil excelentes chargistas, mas um em especial merece milhares de parabéns pela qualidade do seu trabalho: Mário Alberto, do LANCE!, é hoje, se não o melhor, um dos melhores chargistas que o Brasil já teve. Não só pela qualidade indiscutível do seu traço, mas pela inteligência com que cria charges, sempre espirituosas e nada óbvias. A sacada está sempre lá, com muito estilo. Parabéns, portanto, ao competente MAL, com quem tive o prazer de dividir redação no início da carreira.

(*) Jornalista esportivo, trabalha com internet desde 1995, quando participou da fundação de alguns dos primeiros sites esportivos do Brasil, criando a cobertura ao vivo online de jogos de futebol. Foi fundador e chegou a editor-chefe do Lancenet e editor-assistente de esportes da Globo.com.’

 

O XIS DA QUESTÃO
Carlos Chaparro

O preguiçoso e hipócrita ‘jornalismo popular’, 29/10

‘Na verdade, o jornalismo desses diários nada tem de popular, porque reproduzem, até como cacoete, o modelo elitista dos venerados jornalões de referência. Jamais dão voz ao povo. E não fazem qualquer esforço para encontrar protagonistas fora das esferas do poder. Nem como vítimas ou beneficiários das ações oficiais.

Não tenho apreço pelos jornais que o mercado e a cultura jornalística classificam como ‘populares’. Isso não significa que os considere dispensáveis. Ao contrário: penso que um jornalismo verdadeiramente popular faz muita falta nesta nossa sociedade em que os poderosos tão bem sabem formular e socializar os próprios discursos. Mas os jornais populares que temos por aí não cumprem, nem minimamente, a vocação que deveriam assumir, de dar voz ao povo.

Raramente compro ou leio alguns desses jornais. Em tempos idos, para fins acadêmicos, comprava de vez em quando o antigo Notícias Populares. Isso, nos tempos em que o jornal chegou aos cem mil exemplares, graças às histórias fantásticas que inventava, a mais retumbante delas a do Bebê Diabo, isso já quando na direção do jornal estava o experiente Ibraim Ramadan. Criada e mantida entre gargalhadas na redação que a inventara, a história do Bebê Diabo virou narrativa das ruas, levada a sério ou na brincadeira por multidões que se divertiam com as manchetes do NP, e nelas até acreditavam ou fingiam acreditar, para esquecer agruras da vida real.

Antes de Ibraim, reinou no jornal o lendário Jean Mellé, que sabia como poucos enganar e divertir os leitores, sob disfarces de jornalismo. Certa vez, também eu fui enganado. A manchete anunciava, como tragédia do dia que ninguém noticiara, a morte de uma irmã da cantora Wanderléia, então no auge da fama. Comprei o jornal, seduzido pelo vigor do ‘furo’. E quando cheguei à página para a qual a manchete me remetia, descobri a fraude : a irmã de Wanderléia realmente morrera, atropelada, naquela data, mas alguns anos antes. Mellé não se atrapalhava, nem em dias sem assunto sangrento para a manchete…

Vem daí, em parte, a minha reserva aos nossos jornais populares. Mas a razão principal é outra – e desde já aviso que não se trata de preconceito contra o tão execrado sensacionalismo. Quem me lê sabe o que penso sobre o assunto. E não custa resumir.

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Em relação ao sensacionalismo, o que se deve colocar em causa não são as formas e as técnicas de produzir sensações, mas as intencionalidades da sua utilização, que deveriam estar vinculadas aos motivos éticos da atividade jornalística.

O sensacionalismo que escamoteia conteúdos, ou os substitui, é uma pilantragem repugnante. Mas o sensacionalismo que chama a atenção para bons conteúdos ajuda a socializar conhecimentos e a ampliar interações transformadoras. A ele recorrem todos os jornais sérios do mundo quando põem em relevo, diariamente, temas e acontecimentos fervilhantes da atualidade.

Alguns geniais antecessores nossos aperfeiçoaram o jornalismo como linguagem de intervenção social, porque fizeram a revolução das formas sensacionalistas. Cito dois nomes: Joseph Pulitzer e William Hearts, editores rivais que no final do século XIX protagonizaram na América a mais sensacional competição entre dois jornais, Pulitzer à frente do New York World, Hearts comandando o Morning Journal. Chegaram a tiragens de um milhão de exemplares. E foi nessa competição que surgiram e se desenvolveram coisas como a titulação horizontal (as nossas manchetes de hoje), a hierarquia de espaços e títulos, as amplas ilustrações, a habilidade para criar ênfases e dar evidência às relevâncias de cada dia, tornando-as sensacionais.

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O que não suporto no nosso chamado jornalismo popular é o reducionismo do conceito à especulação ‘mancheteira’. Na verdade, o jornalismo desses diários nada tem de popular, porque reproduzem, até como cacoete, o modelo elitista dos venerados jornalões de referência. Jamais dão voz ao povo. E não fazem qualquer esforço para encontrar protagonistas fora das esferas do poder. Nem como vítimas ou beneficiários das ações oficiais.

Foi o que mais uma vez constatei, dias atrás, na leitura do Diário de S. Paulo, que tem um discurso de marketing assentado na enganação de ‘ser um jornal popular’. Com raríssimas exceções, o conteúdo da edição resultava de um jornalismo que começa e termia nas fontes oficiais. Tratam o ‘popular’ como uma questão de forma. E socializam o discurso do poder e das fontes oficiais em embalagens popularescas.

Exemplo: a grande notícia do dia era a nova linha de crédito para a casa própria. Mas o que a matéria fazia era a reprodução fiel das informações e dos argumentos fornecida pelo Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

A matéria teve tratamento radicalmente econômico. Baseada em cifrões, passou longe do qualquer significado social que a questão habitacional obrigatoriamente deveria ter, num jornal que se diz popular. Assim, os principais interessados no projeto, os cidadãos de classe média que lutam pela realização do sonho da casa própria, sequer tiveram a oportunidade de fazer perguntas.

E esse é o padrão preguiçoso e hipócrita do nosso jornalismo popular.

(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.’

TELEVISÃO
Antonio Brasil

Tadeu Schmidt reinventa os gols do Fantástico, 29/10

‘Nem todos gostam. Muitos ainda resistem à irreverência e descontração de suas crônicas esportivas. Outros, como o Janistraquis, adoram: Tadeu é 10. Há alguns meses ele recebeu o prêmio Comunique-se para melhor jornalista esportivo. Mas ninguém contesta a verdadeira revolução que ele provocou nos Gols da Rodada do Fantástico, um de seus quadros mais antigos e provavelmente, um dos mais chatos.

Com o crescimento dos campeonatos, o quadro aumentou, se dividiu em vários blocos repletos de gols. Alguns bonitos, outros nem tanto. Mas aquela narração em off, um texto impessoal, chato e previsível lido pelo veteraníssimo Léo Batista, o mais antigo apresentador de TV do Brasil, era uma ótima demonstração de tudo que a TV não deve fazer para sobreviver.

Televisão é um meio muito conservador. E o telejornalismo é provavelmente o setor mais avesso às mudanças. Na dúvida, não muda nada. A identidade do meio está em crise, a audiência cai e tudo continua do mesmo jeito. A vaca já está no brejo, mas ninguém ousa reverter a situação.

Tadeu Schmidt pode cometer os seus excessos. Alguns dizem que ele grita muito, que não leva nada a sério ou que comete muitos erros. Pode até ser verdade. Mas ele teve a coragem de mostrar uma alternativa ao velho texto de TV. Teve a coragem de mexer no que parecia ser ‘imexível’.

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Antimanual

Todos nós aprendemos e alguns até ensinam que texto de televisão deve ser simples, objetivo e coloquial. É texto para ser falado. Parece fácil, mas quem já tentou escrever para TV sabe o quanto é difícil. O problema é definir os limites dessa simplicidade e coloquialismo sem comprometer o nível da informação. Até onde podemos criar e ousar sem errar?

Há diversos manuais no mercado com muitas regras sobre o que fazer e o que não fazer no telejornalismo. Os livros das professoras Olga Curado e Vera Íris Paternostro são clássicos para o ensino de texto na TV.

Mas o bom do jornalismo, o jornalismo de verdade é aquele que contraria as regras estabelecidas. Está sempre em busca de novos rumos tanto para a profissão quanto para o mundo.

O problema é que essa busca implica em riscos. Nem todos querem mudanças ou aceitam inovações.

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Fogueira de vaidades

Mas até hoje, ninguém parece ter mais coragem de ousar e mudar formatos no jornalismo de TV do que os jornalistas esportivos. O Esporte Espetacular e o Globo Esporte ainda são bons exemplos. Apesar dos limites, ainda tentam inovar. Nem sempre conseguem. Esses limites são rigorosos e poderosos. A guerra diária pela audiência é implacável e os interesses do clubes, dos patrocinadores e a sensibilidade dos torcedores impedem maiores ousadias. Fazer jornalismo esportivo no Brasil também parece fácil. Mas é um mundo misterioso, uma fogueira de vaidades que envolve muitos interesses econômicos, riscos e ameaças. O Brasil pode não ser um país sério. Mas o futebol, por aqui, é mais do que sério. É tudo.

Tadeu Schmidt não ‘deu muita bola’ para esse cenário pessimista e conservador. Produz matérias de forma criativa, utiliza muitos recursos visuais, escreve com palavras e com imagens. É um mestre na edição de jogadas que até então eram descartadas pela ditadura dos gols.

Tadeu pode não ter mudado o país, o mundo ou o telejornalismo. Mas certamente reinventou o texto de TV.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’ e ‘O Poder das Imagens’. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

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O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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