Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > FIM DE SEMANA, 25 E 26/11

Comunique-se

29/11/2006 na edição 409

MÍDIA vs. GOVERNO
Milton Coelho da Graça

Os muitos jeitos de esconder a verdade, 22/11/06

‘A ‘grossura’ autoritária de José Sérgio Gabrielli com o repórter Chico Otávio é a melhor prova (no mínimo, circunstancial) de alguma culpa do presidente da Petrobras no caso dos 1500 contratos da empresa com ONGs, especialmente o da ABEMI – mais de R$ 220 milhões, sem licitação e sem satisfação a ninguém.

Há evidentemente a possibilidade de que o sr. Gabrielli seja uma pessoa destemperada. Até porque existe forte suspeita de que o presidente Lula o afastou das conversações com o governo boliviano por conta disso. O Itamaraty e o Ministério de Minas e Energia assumiram a negociação com a Bolívia (do lado de lá também botaram para escanteio o também destemperado ministro dos Hidrocarburos) e, desde então, tudo parece no rumo de uma solução tranqüila e aceitável para os dois lados.

Na verdade sei pouco sobre o presidente da Petrobras e seu passado. Em compensação, sei muito sobre Chico Otávio, que teve seu primeiro emprego como repórter sindical da Última Hora, onde eu era editor. Antes disso, Chico, ainda estudante, só havia trabalhado em jornal de bairro.

Gosto de me vangloriar de ter sido chefe do Chico, ganhador de cinco prêmios Esso -um de Jornalismo, dois de Reportagem, um de Informação Econômica e um de Meio Ambiente e Informação Científica – em seus 20 anos de carreira. E nunca ouvi qualquer queixa – verdadeira ou mesmo mentirosa – sobre sua integridade profissional.

Costumo dizer a meus alunos que, em quase 50 anos como repórter e editor, desenvolvi uma intuição (sem chancela racional definitiva, mas com freqüência fortemente majoritária): quem não quer ou não pode contar a verdade à imprensa silencia, foge ou esbraveja. Minha intuição se fortaleceu nesse ataque idiota ao Chico Otávio.

(*) Milton Coelho da Graça, 75, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’



DIPLOMA EM DEBATE
Folha e Fenaj divergem, 27/11/06

Tiago Cordeiro

‘Na última sexta-feira (24/11), a Folha de S. Paulo publicou o editorial ‘Diploma Autoritário’ onde critica a exigência do diploma em jornalismo para o exercício da profissão. ‘É com a convicção de que esse decreto conspurca a ordem constitucional que esta Folha – pioneira na insubmissão à tutela do diploma – vem saudando as iniciativas do Ministério Público Federal para sustar seus efeitos antidemocráticos’, afirma o editorial se referindo ao decreto-lei 972/69.

O texto fala da obrigatoriedade como um ‘entulho autoritário’ e lembra que a exigência pode não durar muito tempo já que o Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do poder judiciário, analisará o caso.

‘Eu acredito que o judiciário vai ter um espaço para mostrar nossa posição de que exigir diploma também é exigir a qualidade da profissão’, afirmou o presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo, ao Comunique-se nesta segunda-feira (27/11).

Murillo afirmou também que o jornal age por interesse próprio ‘pois seu dono não é jornalista e transformou essa causa em pessoal’. Ele afirmou que a Folha parece considerar a questão de relevância nacional para colocar em um editorial. ‘E como em outros assuntos que estão ligados a seus interesses privados, age de forma completamente antidemocrática, pois não ouve a Fenaj. Não dá espaço nenhum para o debate público. Não há nenhuma abertura para o contraditório, para o divergente’, completa.

O Comunique-se procurou Marcelo Leite, responsável pelo editorial da Folha, mas ele não foi encontrado até o fechamento da matéria.’



INTERNET
Bruno Rodrigues

Nem tudo é de todos, 23/11/06

‘Na terça-feira passada, dia 14, aconteceu a versão 2006 do Dia Mundial da Usabilidade. Por aqui, este dia é comemorado há pouco tempo; em outros países, já virou tradição.

O termo ‘usabilidade’, do inglês ‘usability’, significa ‘testar a facilidade do uso’. Para checar, por exemplo, se um game ou um celular são fáceis de usar, aplica-se um conjunto de testes ao ambiente ou objeto em questão, sempre com a participação de um número razoável de usuários.

Este know-how de aplicação de testes, muitas empresas vêm acumulando ao longo das décadas, em especial companhias que produzem computadores de pequeno e grande porte, como a Sun Microsystems. Lá trabalhava, nos anos 60, o americano Jakob Nielsen, que ficaria famoso ao transpor para a recém-criada web, no início dos 90, os conceitos de facilidade de uso.

Hoje, Nielsen é referência em usabilidade e ajudou a difundir a necessidade de se ouvir o usuário quando se constrói um site. Em um terreno como a web, onde ainda vale muito o subjetivo, a idéia de dar ‘todo o poder ao usuário’ ao testar os sites foi fundamental para que a internet se tornasse, de fato, fácil de usar.

No Brasil os testes de usabilidade já são aplicados em grande escala, e comemorar o Dia Mundial da Usabilidade é também uma maneira de trazer para o centro das discussões o maior beneficiado no assunto: o próprio usuário. A grande maioria dos eventos brasileiros deste ano foi aberta ao público e gratuita, e só ao ciclo de palestras do Rio, de que o ‘Comunique-se’ foi um dos divulgadores, estiveram presentes mais de 60 pessoas. Um sucesso.

Em um determinado ponto das discussões, veio à tona um assunto polêmico: a liberdade na Rede. Em um ano como este, em que o Orkut ameaçou sair do país por se achar cerceado e um projeto de lei colocou os brasileiros em polvorosa ao propor a identificação constante dos usuários na Rede, nem é preciso dizer que boa parte do evento girou em torno de dar limites ou não à internet. Além de organizar o evento, participei da mesa falando – é claro – sobre conteúdo online, que é um dos principais objetos em questão quando se fala em liberdade de acesso.

Tenho uma opinião muito particular sobre conteúdo na web: não acho que todos que disponibilizam informações na Rede têm a obrigação de torná-lo livre, como muitos da vertente ‘romântica’ da internet defendem. Para estes, a web inteira é uma questão de responsabilidade social, e precisa ser aberta a todos.

Contudo, todo conteúdo tem um autor, e cada autor de conteúdo tem direitos sobre o que produz. Se eu escrevo este texto para ‘Comunique-se’ e sou pago por ele, não acho que minha coluna deva ser ‘socializada’. Meus textos não estão em uma prateleira para serem copiados e publicados em outros sites.

Atenção: não há ganância no que digo, e muito menos me agarro ao que produzo, sem querer dividi-lo. Muito do que escrevo aqui eu autorizo a reprodução em outros sites e mídias, mas há um limite: os textos que aqui publico são, em primeiro lugar, do ‘Comunique-se’; depois, meus. Se podem ou não ser reproduzidos, há que perguntar e obter autorização de ambos os lados.

Ah, se a Rede fosse um paraíso de pessoas bem-intencionadas… Canso de ver meus textos publicados em sites sem autorização. Uma vez, inclusive, já encontrei um deles como se fosse de outro, um mal que não é exclusividade minha e nem da mídia online. A grande diferença de ser na web é porque é difícil de controlar – como achar uma agulha (clonada) no palheiro?

Desta forma, entendo quando veículos como ‘O Globo Online’ aplicam medidas extremas, e não permitem mais o ‘copiar e colar’ em seus textos, fotos, gráficos e todo o resto – ainda mais quando um veículo em questão é referência em conteúdo no país.

O ponto crítico – e aí voltamos à usabilidade – é o que o usuário comum acha disso. Já tentou, como leitor, copiar um endereço de um cinema ou um endereço de um site de um texto de ‘O Globo Online’? Assim, rapidinho, na maior inocência? Um alerta daqueles tomará a tela de seu computador, avisando que não pode, não! Multidões de leitores já protestaram e continuam a protestar contra este ‘protecionismo’.

Como leitor, autor e praticante de usabilidade, não consigo chegar a uma conclusão que atenda plenamente à minhas ‘múltiplas personalidades’… Como redator, quero mais respeito e proteção; como leitor, acho isso tudo um exagero e quase uma agressão; como defensor da usabilidade, dou nota zero.

Como sair dessa?

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’. Ministra treinamentos e presta consultoria em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em seis anos, seus cursos formaram 1.200 alunos. Desde 1997, é coordenador da equipe de informação do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, com 4.000 páginas em português e versões em inglês e espanhol e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’ (Editora Objetiva, 2001), há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Terapia das chamas, 24/11/06

‘O considerado Herbert Marinho, de Brasília, leu nos jornais e escutou nas emissoras de rádio e TV esta notícia que revela a criatividade da Medicina brasileira nesses tempos de universidade para todos:

Psicólogo goiano toca fogo em paciente

O psicólogo Edson Rodrigues de Souza, de 28 anos, foi preso em flagrante por atear fogo a uma paciente em Anápolis (GO). Edimar Francisca de Oliveira, 42, teve queimaduras de 1º e 2º graus nas costas e cabeça. Ela se tratava contra depressão e síndrome do pânico há seis meses no Instituto de Psiquiatria Professor Wassily Chuc.

Segundo o depoimento de Oliveira e de duas testemunhas à polícia, o psicólogo colocou fogo na cama da paciente para estimulá-la durante a terapia.

Janistraquis, que teme médicos e advogados, arregalou os olhos:

‘Caramba, considerado! Se andam a incinerar os depressivos, o que estará reservado aos loucos?!?!?!’

Todo cuidado é nenhum.

Descontinuada

Deu no excelente site do Meio&Mensagem:

Vivo descontinua sua revista.

Janistraquis festejou a notícia:

‘Que bom, considerado, que bom! Pensei que a Vivo tivesse fechado a revista…’

Aliás, de uns anos para cá o poderoso mercado editorial brasileiro não vê revistas e jornais chegarem ao fim; são produtos ‘descontinuados’, eufemismo capaz de transmitir otimismo até na dolorosa hora da falência.

Duríssimo

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de onde se pôde apreciar o espetáculo no qual o governo trata a pontapés os aposentados deste país, pois Roldão deu uma geral em suas fontes e concluiu:

A imprensa passou a chamar o grupo central de assessoramento do presidente Lula de ‘núcleo duro’, estranha expressão que é apenas má tradução do inglês hard core. Hoje, 19/11, por exemplo, o Correio Braziliense identifica Luiz Dulci como ‘único sobrevivente do núcleo duro com o qual Lula tomou posse’(p. 4). Para mim, ‘núcleo duro’ lembra o caroço do abacate.

Roldão achou melhor reservar o abacaxi e os pepinos para outra oportunidade.

Antes de morrer

O considerado José Esmeraldo Garcia, de São Carlos (São Paulo), implicou com esta chamadinha na capa do UOL:

Alemanha – Homem armado invade escola e fere reféns antes de morrer.

Garcia tem certeza de que a triste notícia merecia outra redação:

‘O tal homem armado só poderia ter ferido os reféns ‘antes de morrer’; depois de morrer seria impossível, pois não?’

Janistraquis concorda com o leitor, porém defende o redator:

‘Isso somente aconteceu porque o titulinho precisava estar alinhado e o espaço era pequeno. Além do mais, a notícia não esclarece se o seqüestrador, de 18 anos, ex-aluno da escola, foi morto, se matou ou simplesmente foi vítima do chamado ‘mal súbito’. De todo modo, a chamada poderia ser esta: Homem armado morre depois de invadir escola e ferir reféns.

Verdade; o tamanho é o mesmo.

Viva o Itaú!

Janistraquis leu no Portal da Comunicação:

Doação de livros infantis nas agências do Itaú vai até 30 de novembro

As mais de 3 mil agências do Itaú, Itaú Personnalité e unidades Taií, em todo o País estão abertas para receber, até o dia 30 de novembro, livros infantis para crianças de até 6 anos (…). Os livros arrecadados serão doados à Pastoral da Criança, que os utilizará em atividades desenvolvidas em suas mais de 6 mil unidades em todo o País, beneficiando diretamente cerca de 1,8 milhão de crianças.

Meu secretário louva a campanha, mas faz pertinente observação:

‘Considerado, por que o bilionário Itaú não aproveita e compra livros para doá-los à Pastoral? Assim, ajudaria as criancinhas e também as editoras, que precisam de apoio, né não?’

É bem pensado.

Toma que é teu

Informa matéria de Natália Suzuki na Agência Carta Maior:

Populações indígenas estão crescendo no Brasil, afirma estudo.

Instituto Socioambiental (ISA) lança publicação sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. Dados apontam o crescimento das etnias nos últimos dez anos. O fenômeno contraria previsões de especialistas.

Janistraquis festejou:

‘Pois é, considerado; vamos deixar crescer mais e depois a gente entrega este país de volta pros índios. Com pedido de desculpas pelo uso indevido que fizemos desta terra onde outrora cantava o sabiá…’

Horário de verão

Leia no Blogstraquis a excelente crônica que o considerado Nei Duclós escreveu especialmente para ilustrar os leitores desta coluna. O mote é este intragável horário de verão, assim visto pelo refinado humor do jornalista-poeta-cronista:

Mal desponta o sol e já são três da tarde. Os bancos fecham antes de você acordar e sempre dá uma vontade danada de almoçar aí pela meia-noite. No fim do expediente, ainda é de manhã. As noites, com sol de rachar, são intermináveis e dá para jogar um torneio completo com dez times de futebol antes do telejornal.

É do Piauí!

Deu no Erramos, da Folha de S. Paulo:

BRASIL — Diferentemente do publicado na nota ‘Sessão bocejo’, no ‘Painel’, o senador Mão Santa pertence ao PMDB do Piauí, e não da Paraíba.

Janistraquis, que é pernambucano, cumprimentou o titular da coluna pelo providencial conserto:

‘Que alívio, hein, considerado? Um Mão Santa paraibano já é desgraça demais, né não?…’.

Leontino Filho

Poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, é dele a estrofe que epigrafa esta coluna. Confira no Blogstraquis a íntegra do poema intitulado Lágrima.

Boa educação

Ao distribuir o currículo via internet, pois é jornalista e técnico em publicidade e propaganda e está à procura de emprego, como tantos e tantos neste país de m…, o considerado Renato Daidone, de São Paulo, recebeu uma ‘resposta automática’ da Revista Hotéis, produzida pela Editora Ejota Ltda., cujo responsável se chama Edgar José de Oliveira.

Dizia a ‘resposta automática’: A REVISTA HOTÉIS, RECONHECIDA PELOS PROFISSIONAIS QUE ATUAM NO SEGMENTO HOTELEIRO COMO A MELHOR E MAIS COMPLETA PUBLICAÇÃO DO MERCADO, AGRADECE O ENVIO DE SEU E-MAIL.

VAMOS AVALIÁ-LO E SE FOR NECESSÁRIO ESTAREMOS RESPONDENDO-O.

Desempregado, sim, mas a gozar de boa disposição de espírito, Daidone ‘contra-atacou’ nesta bem-humorada mensagem:

Gerundismo com recheio de erros na resposta automática da sua caixa de e-mails? Sinceramente, ‘Estaremos Respondendo-o’ deverá ser remetido imediatamente ao Janistraquis. Sim, aquele famigerado assistente do inclassificável Moacir Japiassu. Aliás, você sabe de quem estou falando?

Poucas horas mais tarde chegou a resposta-da-resposta da Ejota:

VAI TOMAR NO SEU C… ARROMBADO SEU TROUXA, SE FOSSE BOM JORNALISTA COMO DIZ EM SEU CURRICULUM NÃO ESTARIA DESEMPREGADO. ALIÁS, SABIA QUE ESTE TAL DE MOACIR JAPIASSU É UMA TREMENDA BICHONA E QUE TEM MUITOS FÃS QUE ADMIRAM SEU PÉSSIMO TRABALHO DE VAGABUNDO QUE NÃO TEM O QUE FAZER.

ESTA É UMA MENSAGEM AUTOMÁTICA E NÃO ADIANTA QUERER RESPONDER, POIS SEU E-MAIL FOI BLOQUEADO COMO INCONVENIENTE

Janistraquis e eu lemos juntos o, digamos, material e meu secretário comentou:

‘Considerado, já te chamaram de filho da p…, corno, safado, irresponsável, mentiroso, caluniador e o escambau; agora, aparece esse cara a dizer que és uma bichona vadia. Acho que tá na hora de a gente se separar pra evitar falatório…’

Nota dez

A considerada Eliane Cantanhêde escreveu em sua coluna da Folha de S. Paulo:

(…) nada mudou, a começar da política econômica que o PT tanto condenava. Quando algo vai mal, é a ‘herança maldita’. Quando estoura um escândalo, é ‘armação da imprensa e das elites’.

Quando escândalos deixam de ser exceção e viram regra, é porque ‘todo mundo faz’. Cristovam Buarque registra: ‘Tudo que é bom foi Lula quem fez, tudo que é errado a culpa é dos outros’.

Leia no Blogstraquis a íntegra do artigo que devolve este país à dura realidade.

Errei, sim!

‘PULGAS DELATORAS – Em sua página Meio Ambiente, o Estadão publicou matéria com este título assaz perturbador: Pulgas delatam fábricas que poluem os rios. Imaginei logo que fossem alguns daqueles insetos sifonápteros ou suctórios que o professor José ‘Nobel’ Lutzenberger cria em sua mansão de Porto Alegre, porém Janistraquis esclareceu: ‘Não, considerado, não se trata daqueles insetos; são pulgas autônomas que por aí abundam, e tanto, que cada brasileiro carrega a sua atrás da orelha…’. Meu secretário anda mais cínico do que ateu em candomblé.’ (maio de 1990)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).

(*) Paraibano, 64 anos de idade e 44 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu oito livros, dos quais três romances.’



PRÊMIOS ESSO E EMBRATEL
Eduardo Ribeiro

Temporada de prêmios: Esso e Embratel divulgam finalistas, 22/11/06

‘Com diferença de apenas algumas horas, os organizadores dos dois maiores prêmios de imprensa do País, o Esso e o Embratel, divulgaram neste início de semana os finalistas dos respectivos concursos. Na segunda-feira, saiu a divulgação do Esso e no começo da tarde desta terça a do Embratel. Juntos, os dois prêmios distribuem a bagatela de R$ 275 mil aos vencedores.

Em números de inscrições, o Esso levou pequena vantagem: 1.172 trabalhos contra 1.131 do Embratel. No Esso, deu O Globo, na cabeça, com cinco finalistas, seguido pelo Correio Braziliense, com quatro. No Embratel, a liderança entre os finalistas ficou com a TV Globo, com cinco indicações, seguida pelos jornais O Globo e O Dia, empatados com quatro cada um.

Em termos regionais, na contagem de finalistas por Estado do Esso, São Paulo e Rio de Janeiro empataram com 11 indicações cada, sendo que as do Rio são predominantemente de jornais (O Globo, O Dia e Extra) e as de São Paulo, de jornais (Correio Popular, Estadão, Folha de S.Paulo e Diário do Comércio), revistas (Época, TPM e Saúde) e tevê (SBT e EPTV). A seqüência aponta o Distrito Federal (todas do Correio Braziliense) e Rio Grande do Sul (Zero Hora e RBS) empatados com quatro indicações; Pernambuco (Diário de Pernambuco e Diário do Nordeste) com três; Minas Gerais (Estado de Minas e O Tempo), com duas; Bahia (Porto Seguro) e Ceará (O Povo), com uma.

O júri do Esso, aliás, decidiu outorgar o diploma de Melhor Contribuição à Imprensa em 2006 ao livro e site ‘Políticos do Brasil’, de Fernando Rodrigues, e ao Projeto Excelências, da Transparência Brasil, ambos focados no objetivo de permitir maior visibilidade sobre o comportamento e a atuação dos políticos brasileiros.

O Esso destina este ano aos vencedores um total de R$ 109 mil, já deduzidos os impostos. Além do prêmio principal, que leva o nome do programa, fixado em R$ 30 mil, e do Prêmio de Telejornalismo, estabelecido em R$ 20 mil, serão distribuídos R$ 3 mil para cada um dos três prêmios regionais, R$ 10 mil para as categorias de Reportagem e Fotografia e R$ 5 mil para cada uma das categorias de Criação Gráfica-Jornal, Criação Gráfica-Revista, Informação Econômica, Informação Científica/Tecnológica/Ecológica, Interior e Primeira Página. Os vencedores deste ano serão conhecidos no próximo dia 12/12, durante cerimônia de premiação a ser realizada no Copacabana Palace, no Rio. Outras informações podem ser obtidas com Carolina Eloy e André Corrêa (RP Consultoria) pelo e-mail rp.consultoria@uol.com.br / telefone 21-3208-3646, ramais 220 e 213; ou Natália Kienitz (Esso) pelo 21-3433-2196.

Já o Embratel pagará um total de R$ 166 mil, sendo R$ 20 mil para o Grande Prêmio, três prêmios de R$ 12 mil, três de R$ 10 mil e três de R$ 8 mil para as categorias nacionais, dois de R$ 10 mil para a categoria Telecomunicações, um de R$ 8 mil para Internacional, e R$ 25 mil a serem divididos igualmente entre as cinco categorias regionais. A Comissão Julgadora poderá indicar um trabalho para receber menção honrosa, que será contemplado com um prêmio de R$ 3 mil. Mais informações no www.embratel.com.br e nas assessorias Planin, para São Paulo (11-5505-8900) e SPS, para os demais estados (21-2111-2655). A data da festa de entrega ainda não foi informada.

Ambos os prêmios tem como centro nervoso a cidade do Rio de Janeiro, onde as respectivas comissões se reúnem para as escolhas preliminares, nessa fase, e definitivas, na fase de premiação. O Esso convidou para júri desta etapa do prêmio 31 profissionais, sendo 25 para a seleção dos trabalhos de mídia impressa (indicados diretamente pelos veículos de comunicação) e seis para telejornalismo (independentes). O júri do Embratel foi integrado por 11 profissionais, sendo dois representantes do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, um da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), um da Associação dos Repórteres Fotográficos – Arfoc/RJ e sete independentes.

Prêmio USP homenageia Rodolfo Guttilla

Ainda na onda de prêmios, destaque para a entrega, na noite desta terça-feira (21/11) do Prêmio USP de Comunicação Corporativa, em concorrida solenidade realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Rodolfo Guttila, diretor de Comunicação da Natura e presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial – Aberje, foi o vencedor da noite na categoria Trajetória Profissional, concorrendo com Nemércio Nogueira, da Alcoa, Sidnei Basile, da Abril, Marco Antonio Lage, da Fiat Automóveis, Elisa Prado, da Tetra Pak, e Pedro Heer, da Siemens. No rápido pronunciamento que fez, ao receber o prêmio, Guttilla fez questão de reafirmar o compromisso assumido pela Aberje de combater sem tréguas o corporativismo na área de Comunicação, em prol da chamada mestiçagem profissional.

Também foi homenageada a Cemig, escolhida como a melhor campanha de comunicação corporativa, vencendo Basf, Hospital Samaritano, Sabesp e Microsoft, que também eram finalistas.

O evento marcou ainda as festividades pelos 40 anos de criação da Escola de Comunicações e Artes, da USP. A coordenação dos trabalhos foi do professor Luís Milanesi.

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’



JORNALISMO ESPORTIVO
Eurico da Gama, 21/11/06

José Paulo Lanyi

‘Já contei um trecho dessa história, mas cabe enriquecê-la. Filho de oficial do Exército, passei a infância e a adolescência sendo ‘transferido’ junto com o meu velho. Morei em vários estados e em quase todas as regiões do Brasil (só faltou a Norte). Ainda assim, tenho dificuldade de explicar às pessoas, quase sempre atônitas ou inconformadas, que, tendo nascido em Brasília, sou um paulistano que começou a torcer por um time do Rio de Janeiro quando estava no interior do Rio Grande do Sul.

E é justamente essa peculiaridade que me faz um vascaíno da gema. Sou como os estrangeiros que escolhem uma pátria, em contraste com a maioria, que se deixa escolher pela fatalidade geográfica. Bem verdade que, uma vez nascido no Rio, poderia ter sido tragado por uma vaga rubronegra, dessas que tomam de assalto os afoitos e constituem a mais devastadora de todas as fatalidades. Que Deus os guarde das conseqüências desse mau passo.

Tive sorte melhor. Colecionava, então, aos sete anos, aquelas tampinhas de garrafa da Coca-Cola com os jogadores da Seleção Brasileira de 78. Alguns se destacavam na minha cabeça, não me perguntem por quê. Melhor, perguntem sim, acho que tenho a resposta. Dois daqueles jogadores das tampinhas se chamavam Dirceu e Roberto Dinamite. Eram craques que faziam muitos gols e, descobriria logo depois, jogavam em um clube que ostentava um nome que me parecia épico: Vasco da Gama.

Cedo na vida associei os goleadores à nobreza de um nome. Fui atrás dos detalhes e me impressionei, por fim, com o uniforme mais imponente do futebol brasileiro, talvez do mundo inteiro. A cruz de malta (ou a de Cristo, ou a pátea) vermelha sobre a faixa diagonal prenunciava uma superioridade irresistível.

Quando, naquele mesmo ano de 77 (ou teria sido em 78?), Vasco e Grêmio se enfrentaram no Maracanã, eu era o único vascaíno na casa da tia Alda, em Porto Alegre. À frente da TV, a gauchada me classificou de louco ou insolente, não me lembro bem. Quase trinta anos depois, muitos ainda pensam o mesmo de mim, sobretudo aqui em São Paulo, minha verdadeira terra, em que torço por que todos os seus times percam.

Sou um vascaíno contra a maré, sou um vascaíno contra tudo e contra todos. Sou insolente por natureza e por opção, sempre com a cruz de malta (ou a de Cristo, ou a pátea) no peito. Por isso, não tolero o que Eurico Miranda está fazendo com o Vasco.

Não ligo a mínima por ser um outsider, por ser chamado de cafajeste por causa do rodízio de personagens polêmicos de São Januário, lordes de punhos de renda como Almir, o Pernambuquinho, Romário, Edmundo, Emerson Leão, Renato Gaúcho, Edilson ou Marcelinho Carioca. O Vasco atrai mesmo gente de personalidade, graças ao bom Deus.

Mas me incomodo com a onipresença de Eurico Miranda, um sujeito que faz mal ao Vasco da Gama. Não vou falar desse seu traço compulsivo de freqüentar o tapetão, ‘em prol’ do clube. Não vou me lembrar da sua falta de compaixão para com os torcedores feridos pela queda do alambrado em São Januário na decisão do Brasileiro de 2000. Todos se recordam: enquanto o sangue escorria, Eurico, o indiferente, berrava para retirar os feridos e as ambulâncias e fazer o jogo continuar.

Falarei, sim, de um traço que eu e o pessoal da ONU consideramos ditatorial: Eurico acha que é dono do Vasco. Eurico acha que é o próprio Vasco. Se deixarem, muda o nome do clube para Eurico da Gama.

Eurico acha que pode barrar um repórter, pode barrar dez repórteres, pode barrar cem repórteres. Eurico ‘leva a coisa para o pessoal’ e acha que pode impedir o acesso à informação.

Não se iludam. Não se cometem atos antidemocráticos por amor ao Vasco. O Vasco não tem nada a ver com isso. Cometem-se atos antidemocráticos por amor a Eurico da Gama.

Ou por um inexplicável desamor por si mesmo. Eu mesmo não gostaria de me ver associado a uma antitradição vergonhosa. Porque o Vasco da Gama tem uma história das mais belas do futebol e da democracia mundiais.

O Vasco foi o primeiro clube brasileiro a aceitar jogadores negros, contra a vontade dos demais. Sem Vasco não teríamos Pelé, que arrumaria outra coisa para fazer lá em Três Corações. Sem Vasco, não teríamos o mulato Garrincha. Sem Vasco, a Seleção Brasileira seria formada por um monte de loiros cabeludos. Sem Vasco, a Seleção Brasileira seria a Argentina.

O Vasco é um clube de tradição. É diferente do atual campeão brasileiro, o São Paulo, esse novo-rico que ostenta seus títulos recentes como se chacoalhasse braceletes, como se cruzasse as pernas sobre o capô do seu modelo importado. O São Paulo é o time da moda. O São Paulo é fashion.

O Vasco é diferente. É pioneiro contumaz. Conquistou o primeiro título internacional para o Brasil. Foi o primeiro clube brasileiro a ganhar um torneio no exterior. Foi o primeiro clube brasileiro a ganhar um título sul-americano. O Vasco criou o bicho e melhorou a vida dos seus atletas. O Vasco construiu o imponente estádio de São Januário, um marco arquitetônico no nosso país (estádio em que seria assinada a CLT, para o bem do povo, é claro). O Vasco fez e batizou o gol olímpico, num jogo contra o Uruguai, ‘a celeste olímpica’. O Vasco criou o termo gandula (pois um de seus elegantes jogadores, um argentino chamado Gandula, fazia a gentileza de buscar a bola para os seus rudes adversários). O Vasco tem classe e fairplay, tomou o milésimo gol de Pelé e ainda ajudou a fazer a festa. Três vascaínos históricos são os maiores artilheiros do Campeonato Brasileiro: Roberto Dinamite, Romário e Edmundo. Futebol, afinal, ainda é bola na rede.

Isso tudo se chama tradição. Títulos pouco importam. Importa é desbravar e fazer história. Ah, Vasco, as tuas glórias vêm do passado…

O São Paulo é aquele que ganhou dinheiro, foi morar no bairro nobre e passou a dar vexame nas festas dos senhores respeitáveis de bigode.

O Vasco é o clube mais paulista do Brasil. O Vasco é o verdadeiro bandeirante. Abre caminho para os outros, a ferro e a fogo. Às vezes, entre uma e outra batalha memorável, numa dessas fases difíceis por que passam todos os guerreiros, é obrigado a aturar a companhia desses novos-ricos do futebol.

Diálogo de uma das festas, que, infelizmente, não abrigam mais só os grandes:

Vasco: Não estou lembrado de você…

São Paulo: Eu tenho jóias.

Vasco: Mas… O que você fez pelo futebol?

São Paulo: Eu tenho dinheiro.

Vasco: Sei… Você é novo por aqui… O que você fez pela democracia?

São Paulo: Eu tenho uma residência de verão em Ipswich.

Vasco: Mas e a História????!!!!

São Paulo: 4-3-3: quatro títulos de capitalização, três títulos ao portador, três títulos a cobrar.

Vasco: Com a sua licença, cavalheiro.

É… Bem fez o Vasco, deixando esse falastrão de lado…

Hoje, contudo, não é o pedante São Paulo, mas o próprio Vasco o clube mais antipático do Brasil. E não há uma única ocasião em que não se explique o porquê dessa aversão: todos me falam dele, todos falam mal do Eurico Miranda.

Digo aqui, em resposta, o que sempre digo aos detratores do clube mais tradicional do Brasil: o Vasco da Gama não é o Eurico. O Eurico vai passar. O Vasco, não, para o bem da democracia, da glória, da honra, do pioneirismo e – por que não?- do futebol de todo o sempre.

E quando o bom senso voltar… os repórteres voltarão a trabalhar.

(*) Jornalista, escritor, dramaturgo, crítico, escreveu quatro livros, um deles com o texto teatral ‘Quando Dorme o Vilarejo’ (Prêmio Vladimir Herzog). No jornalismo, tem exercido várias funções ao longo dos anos, na allTV, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, CNT, CBN, Radiobrás e Revista Imprensa, entre outros. Tem no currículo vários prêmios em equipe, entre eles Esso e Ibest, e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).’



JORNALISMO PÚBLICO
Carlos Chaparro

A prioridade do direito à informação, 24/11/06

‘O XIS DA QUESTÃO – Em qualquer democracia que se queira e possa levar a sério, a democratização da informação começa pelo dever governamental de informar a Nação com veracidade, clareza e honestidade. Portanto, sem vieses partidários nem propagandísticos. O Governo Lula não tem feito isso. Mas há uma exceção: a Radiobrás, que assumiu e cumpre o compromisso público de respeitar a verdade dos fatos, com a objetividade e apartidarismo.

1. Jornalismo de engodos

Com chamada de destaque na primeira página e tratamento de impacto na página 7, o Estadão de quinta-feira passada (23-11-06) deu-nos a notícia de que o Planalto estuda criar ‘secretaria para democratizar informação’. Assunto importante, ainda por cima com a forte sugestão de se tratar de coisa oficial. Fui olhar a Folha, para, comparativamente, sentir o peso da novidade. E nada. Apesar da importância do assunto, a Folha de S. Paulo não o agendara na pauta do dia. E isso me aguçou o interesse, passando a trabalhar com a hipótese de estar diante de um furo.

Voltei ao Estadão. Reli a chamada de primeira página, a duas colunas, no valorizado canto superior direito. E fiquei de pé atrás, diante do título construído com a dubiedade de uma locução verbal execrável à luz das regras do bom jornalismo: ‘Dilma deve cuidar de ‘democratizar’ a informação’. Abaixo do título, o texto pouco elucidava, ainda por cima enfraquecido pela ausência do referencial de fontes responsáveis pela informação.

(E aqui abro um parêntesis para confessar a desconfiança de que a reforma feita no Estadão ficou na perfumaria, pouca importância dando aos cuidados de acurácia com que qualquer redação responsável deve tratar as notícias espalhadas ao mundo).

À falta de fonte, o texto da chamada atribuía a responsabilidade da informação ao repórter João Domingos, da sucursal de Brasília. Por princípio, tendo a acreditar em repórteres, mais do que em editores. Por isso, lá fui eu à cata da matéria na página 7, na esperança de saborear a leitura de um bom furo.

Logo melhorei de humor. O título a sete colunas, embora aguado por nova locução verbal, tinha tom performativa: Planalto estuda criar ‘secretaria para democratizar informação’. Afinal, ‘estudar’ é uma forma de agir – em muitos casos, fundamental.

Nos três primeiros parágrafos, João Domingos descreve em detalhes o que o governo planeja fazer para democratizar a informação. O texto é seguro, convicto, com frases afirmativas, peremptórias: O governo planeja… Pelo que está em estudo, a SECOM mudará de nome e passará para as mãos da ministra-chefe da Casa Civil… A principal missão da nova secretaria será implementar a democratização da informação… – e nesse tom segue.

Onde está, quem é, a fonte de tantas e tão claras revelações?

No quinto parágrafo, temos a resposta: o site do PT, no link ‘Cadernos Setoriais’. Lá, o tema da democratização da informação ocupa um capítulo. E assim, dando como coisa do Planalto um conteúdo tirado do site do PT, o Estadão brinca com tema tão sério. Não polemiza, não questiona, não aprofunda. Nem sequer se dá ao trabalho e à prudência de nos lembrar que toda essa complexa questão, mesmo que vá direto do site do PT para os gabinetes do Planalto, terá de passar pelo Congresso Nacional e por debates mais amplos, no âmbito da sociedade.

Pior: ao dar tamanho destaque à matéria, o Estadão cometeu a hipocrisia de esconder dos seus leitores aquilo que a história nos permite acreditar seja a verdadeira intenção da matéria – pôr em alerta os setores do empresariado e os grupos de opinião que detestam ouvir falar em democratização da informação.

Sobra uma curiosidade. Segundo o Estadão, para o novo mandato presidencial, na composição da nova equipe do governo, o PT não abre mão da futura Secretaria de Democratização da Informação. O destino, irônico, quis que no mesmo dia em que o jornal circulava com a notícia, o presidente Lula, falando aos 16 governadores eleitos ou reeleitos com os quais se reunia, prometeu à Nação governar como Chefe de Estado, acima de amizades e interesses partidários.

Podemos até nem acreditar. Mas o que foi dito, dito está.

2. Modelo a seguir

Claro que a democratização da informação é tema sempre importante e atual, em qualquer sociedade democrática. Porém, a essência do conceito não é esse com que o PT trabalha. Em qualquer democracia que se queira levar a sério, o mais importante exercício de democratização da informação que se impõe aos governos é o dever de informar com veracidade, clareza e honestidade. Regular, plenamente. E sem vieses partidários nem propagandísticos.

O Governo Lula não tem feito isso.

Registre-se e saúde-se, entretanto, a brilhante exceção da Radiobrás, que agrega seis emissoras de rádio, três emissoras de TV e duas agências de notícias (na internet).

O que se faz na Radiobrás, sob a direção do jornalista e acadêmico Eugênio Bucci, bem poderia servir de modelo conceitual a toda a comunicação jornalística do Governo. Apesar das pressões vindas das toupeiras políticas que só enxergam os tronos que lambem, a Radiobrás respeita o caráter público da sua atividade, com formas e atitudes jornalísticas de informar os cidadãos.

Em matéria de informação pública, nenhum outro setor do Governo exibe a coragem, menos ainda a lucidez, com que a Radiobrás assume publicamente o seu compromisso de bem informar, em respeito aos valores da cidadania.

Está no site da empresa:

‘Os valores da Radiobrás, que expressam e sustentam a dimensão ética de nossas ações, têm como base o respeito: ao caráter público da nossa atividade (…); à cidadania, ao assumir um compromisso permanente com a universalização do direito à informação (…); às diferenças, por meio do diálogo; e às pessoas (…)’.

Isso, para pôr em prática a convicção de que ‘a informação é um direito do cidadão porque, na democracia, todo poder emana do povo e é para delegar o poder que o cidadão tem direito a estar bem informado’.

Na principal página do seu site, a Radiobrás assume o compromisso público de respeitar a verdade dos fatos, com objetividade e apartidarismo, para socializar um conteúdo informativo de qualidade, pelas diferentes mídias que administra e pelos canais que alimenta.

Posso assegurar: apesar de todas as dificuldades e pressões que sofre, a Radiobrás faz hoje um bem sucedido esforço diário de fidelidade aos compromissos publicamente assumidos, fundamentados em convicções éticas que orientaram o treinamento do seu pessoal e pautam os seus procedimentos. No plano técnico, as equipes jornalísticas da empresa terão em breve mais uma ferramenta para fundamentar o seu trabalho: um manual de jornalismo público, prestes a ser editado.

3. Recado respeitoso

Eis aí, senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um modelo de conceitos e práticas de comunicação pública que poderia muito bem ser estendido ao seu governo, no segundo mandato.

Jornalistas e comunicadores pagos pelo orçamento da Nação não lhe faltam, senhor presidente. Mas lhe falta, ou pelo menos faltou neste primeiro mandato, a decisão ética, cidadã, de respeitar o dever de bem informar.

Depois dos 58 milhões de votos recebidos, o senhor não tem necessidade de continuar a imitar o que, em matéria de comunicação, os seus antecessores também fizeram, torrando dinheiro público em propaganda enganosa. Nem tem o direito de usar o passado como desculpa para os erros de comunicação do seu primeiro mandato.

Lembre-se, senhor presidente: quando a informação do governo é banhada por vieses partidários e/ou propagandísticos, o que se produz não é a notícia, mas a fraude da notícia.’

Comunique-se

Bernardo Kucinski critica linha editorial da Radiobrás, 27/11/06

‘O jornalista Bernardo Kucinski, que foi assessor da Presidência da República, publicou em sua coluna no site da Agência Carta Maior uma análise sobre a atuação da Radiobrás no primeiro governo Lula. Kucinski define a empresa como uma ‘estatal que ficou com vergonha de ser estatal’.

Kucinski defende que a Radiobrás deve ter sempre os atos e ações do governo como foco principal, mais por sua inserção em Brasília do que pelo perfil estatal, e critica o conceito da própria Radiobrás de que faz jornalismo público. Para o jornalista, a intenção de não se fazer comunicação de governo parece boa, mas na definição de comunicação pública do principal veículo da Radiobrás, a Agência Brasil, ‘o que menos entra é o Estado e menos ainda o governo’.

‘A nova equipe acabou criou uma falsa discussão – essa que tanto agrada a grande imprensa – entre caráter público da informação e o noticiário dos atos e decisões de governo, como se o governo não fosse parte da esfera pública – quando na verdade um governo democraticamente eleito e um Estado democraticamente construído são o que há de mais público na sociedade’, escreveu Kucinski. ‘Com medo de ser chamada ‘chapa-branca’ e apesar de conseguir um grande aumento no seu orçamento, a Radiobrás não conseguiu criar uma narrativa própria do governo Lula’.

O jornalista afirmou que a política editorial da Radiobrás nunca foi analisada publicamente, e que isso só ocorreu agora devido à acusação de que o governo Lula queria aparelhar a Eletrobrás. Para Kucinski, esta análise não foi feita porque a comunicação nunca foi colocada no plano estratégico do governo e que faltou unidade no comando da comunicação, dividido entre a Secretaria de Imprensa da Presidência e a Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom).

Kucinski conclui com sugestões para o novo mandato. ‘Um dos caminhos consiste em transformar parte do sistema Radiobrás no embrião de uma rede pública nacional de jornalismo, associando-se a outros sistemas educacionais e públicos. A outra parte permaneceria como um sistema estatal. Isso acabaria com as ambigüidades’, sugere.’



TELEVISÃO
Antonio Brasil

Festival internacional discute o futuro da TV brasileira, 27/11/06

‘Gostar de televisão é como gostar de uma pessoa. A gente descobre as qualidades, aceita os defeitos e até acredita nas suas mentiras. Há muitos anos vivemos a ilusão de que a televisão brasileira é excelente, uma das melhores do mundo. Não é verdade. Trata-se de mais uma dessas mentiras convenientes que adoramos acreditar. Quem tem a oportunidade de pesquisar, ver bons programas produzidos por diversas TVs do mundo, sabe que a nossa televisão é muito limitada. Em geral, estamos entorpecidos pelas mentiras oficiais e por uma programação medíocre que insiste em mesmices e baixarias.

Estamos preocupados com o destino mais do que previsível e anunciado da Ana Paula Padrão e testemunhando outra série de trapalhadas de ministro das comunicações em defesa dos monopólios televisivos (ver aqui Costa tentará barrar projeto de TV da empresa ). Em verdade, pouco ou quase nada fazemos para exigir qualidade e diversidade no nosso principal meio de comunicação.

Nem sequer sabemos muito bem o que é qualidade na TV. Defendemos a produção televisiva brasileira porque o meio hegemônico de comunicação se encarrega de nos convencer dessa mentira televisiva: a melhor TV do mundo. Muitas vezes, importamos o pior da produção mundial para reafirmar a nossa primazia de qualidade. Ademais, uma das principais razoes que sustentam essa ilusão televisiva é porque não temos acesso regular aos bons programas internacionais. O monopólio da televisão brasileira odeia competição.

Festival dos Festivais

Para tentar remediar esse cenário, profissionais, pensadores de televisão brasileiros e internacionais, além de um bom público de estudantes e telespectadores insatisfeitos se reuniram no Rio de Janeiro na semana passada para pensar uma nova TV e assistir a mais de 200 programas de cerca de 40 países. O Festival Internacional de TV, encontro promovido pelo Instituto de Estudos de TV do jornalista Nelson Hoineff foi uma ótima oportunidade para buscarmos novos caminhos e constatarmos como a nossa televisão é ruim.

Um dos módulos mais importantes da mostra é o Festival dos Festivais que apresenta os melhores programas premiados nos principais festivais internacionais de TV como o Banff do Canadá, Shanghai na China e FIPA na França. Dentre os selecionados e premiados para a mostra não constava nenhum programa brasileiro. Faz sentido.

Nossa produção televisiva reflete a situação econômica e cultural do país. Ainda estamos em estado de choque, inertes com as nossas próprias mazelas. Preferimos formar alianças para não mudar nada.

As únicas novidades nas nossas grades de programação televisiva – tanto nas TVs abertas como por assinatura – são as baixarias dos pastores ou os leilões de tapetes, bois e anéis. No mais, é sempre a repetição de fórmulas falidas com estrelas decadentes. Insistimos nas péssimas novelas de sempre porque é sempre mais cômodo e lucrativo apostar na inércia do público.

Em outros países é diferente. O público insatisfeito exige bons programas, mas está disposto a pagar de alguma forma por eles.

Aproveito para destacar um dos melhores programas do festival, a série 21 Up América.

Baseado em uma série Britânica de muito sucesso, 21 Up América é a terceira de uma série de viagens pelos EUA retratando a vida de jovens que foram inicialmente filmados aos 7 anos de idade. O diretor de filmes Michael Apted começou a série 7UP no Reino Unido durante a década de 60.

Em 1991, a Granada acreditou nos riscos de um projeto a longo prazo e investiu pesado na série. Os produtores filmaram crianças de 7 anos de idade de diversas raças, culturas e classes econômicas. A série faz um retrato dos EUA através do olhar crítico de suas crianças. Os mesmos produtores retornaram 7 anos mais tarde para 14UP, e em 2005, filmaram a terceira parte.

21UPAmérica é um programa de TV sério, instigante e bem-humorado. Em vez de fazer as mesmas novelas de sempre, produtores independentes procuraram revelar os dramas do dia-a-dia de jovens diante dos desafios da adolescência e da vida adulta. A série tenta desvendar o que a vida aguarda para essas crianças agora que tem 21 anos. A maioria já teve grandes experiências de vida. Um teve colapso nervosa, outro um bebê, dois estão prestes a casar, e um deles está na prisão.

Suas mudanças, suas vidas, ansiedades e frustrações refletem melhor do que muitas reportagens ou pesquisas acadêmicas, a verdadeira situação dos EUA nos últimos anos. Trata-se de um bom exemplo de televisão levada a sério.

Algo parecido no Brasil seria genial, mas impensável. Preferimos investir nas certezas do próximo Big Brother Bial.

Novas Plataformas

Durante um dos módulos do Festival, o V Encontro Internacional de TV, participei da mesa sobre novas plataformas com o jornalista e diretor da AllTV Alberto Luchetti. Creio que fizemos uma boa dupla. Falamos das novidades e oportunidades criadas pelas TVs na Internet.

Procurei concentrar a minha apresentação nas inovações e desafios dos novos sites de conteúdo de vídeos como o YouTube ou MySpace. Uma parte considerável do público se rebela contra o ‘emburrecimento’ diante da TV e migra para a Internet. Eles não aceitam ser mera audiência e querem produzir conteúdo. ‘Se a TV tradicional não reagir, não sobrevive os próximos 10 anos’, declara o pensador italiano Umberto Eco. A televisão do futuro deve se tornar um portal de opções que valorize a escolha do público. É preciso investir em novas linguagens e conteúdos. Se continuar insistindo na produção de baixarias, mesmices, acreditando no poder divino da comunicação de massa, vai se tornar meio obsoleto ou curiosidade saudosista restrita a alguns velhos acomodados. Aqueles que adoram ver as mesmas novelas de sempre.

Para Nelson Hoineff, idealizador do festival, ‘o reconhecimento da capacidade de inovar está na base da construção de uma televisão mais nobre e arrojada. O objetivo do Festival é extrair da televisão o que ela pode ter de grandiosa’.

Nossa televisão está no fundo do poço, mas ainda conta com bons recursos e excelentes profissionais. Precisa ter o direito de ousar e errar. Talvez o slogan do Festival Internacional de Televisão 2006 indique esperança ou ameaça: ‘Você vai se surpreender com o que a televisão é capaz de fazer’.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’ e ‘O Poder das Imagens’. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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