Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ARMAZéM LITERáRIO >

Correspondência de Marina e Júlio de Mesquita Filho

Por Ruy Mesquita Filho em 04/07/2006 na edição 388

Meu avô Julio de Mesquita Filho foi exilado duas vezes. Na primeira, partiu de navio para Portugal com outros presos do movimento constitucionalista de 1932, e lá morou com sua família de 1932 a 1933. Na segunda, em 1938, em seguida ao golpe do Estado Novo, partiu para a França com um grupo de correligionários e de lá para os Estados Unidos, onde buscou apoio para a luta contra Getúlio Vargas; e depois para Buenos Aires, onde morou até 1943 e de onde enfrentou todo o processo de desapropriação do jornal O Estado de S.Paulo, pertencente à sua família e do qual era diretor.

Este livro traz as cartas trocadas entre meu avô e minha avó, Marina, nos períodos em que ela viajou para visitar a família e os amigos no Brasil, em especial durante o segundo exílio, quando os filhos aqui ficaram. Além das cartas, o livro traz artigos que Julio escreveu para O Estado de S.Paulo, antes de o jornal ser confiscado pela ditadura, em 1940; para publicações francesas, como L’Esprit; e argentinas, como o jornal La Prensa.

Sua correspondência tratava principalmente da conjuntura mundial e, em particular, do Brasil, deixando em segundo plano os problemas familiares. As cartas de minha avó, por seu lado, falavam da família e dos amigos para o marido distante e o informavam sobre o cenário político do país. É dela o contraponto indispensável da emoção, do cuidado com os filhos, da devoção aos princípios familiares, os quais, afinal, deram ao meu avô a força necessária para sobreviver a tantos reveses. Sem Marina não haveria Julio.

Alma e caráter

Essas cartas pertencem ao arquivo pessoal de Julio de Mesquita Filho e me foram entregues por minha avó nos anos 1970, com a promessa de que ela seria enterrada com os originais, o que ocorreu em fevereiro de 1975.

Julio aprendera a amar o Brasil com seu pai, Julio Mesquita, e ao voltar para cá para cursar a Faculdade de Direito, depois de estudar na Escola Acadêmica em Lisboa e no Colégio de La Chatelaine em Lausanne, sentiu o terrível contraste entre as condições socioeconômicas e culturais do Brasil daquela época e o mundo de onde vinha, centro da civilização. Sua luta pela transformação do país em uma nação moderna incluiu a criação da Universidade de São Paulo, sonho de juventude, que concretizou na volta do primeiro exílio, ao lado de idealistas como Teodoro Ramos e Fernando de Azevedo, quando seu cunhado Armando de Salles Oliveira era interventor de São Paulo.

Julio de Mesquita Filho jamais se curvou aos poderosos do momento. Homem de princípios firmes, perdeu o jornal e os bens em nome de seus ideais. Certa vez, em 1964, ao lhe perguntarem se estava de acordo com a reforma da lei de imprensa que fortalecia a liberdade com responsabilidade e combatia a licenciosidade, respondeu:




"Sou tão objetivo na minha maneira de encarar o papel da imprensa que não hesito em atribuir-lhe boa parte das desgraças que têm desabado sobre o nosso país, como em todo o mundo. Lembra-se do que foi o papel da imprensa francesa nos últimos anos da Terceira República, quando toda ela estava a serviço da Alemanha? Hitler determinava os artigos que jornais como Le Temps, Le Petit Parisien, Le Matin, Le Journal e L’Illustration deviam publicar, como campanha preparatória à invasão que pretendia levar a cabo contra a França. Digo mais: sabe qual é meu juízo? É que, quando a imprensa não é conduzida com a dignidade necessária, ela se transforma em um mal muito mais profundo do que o comércio de tóxicos. Este é menos nocivo aos grupos sociais do que a imprensa, quando é dirigida com capciosidade e como instrumento para satisfação dos instintos de quem a maneje e dos grupos que a dirigem".

Foi essa a herança que meu avô recebeu e passou para meu pai, que por sua vez a repassou aos seus filhos. Não acredito em jornal sem alma, sem caráter. Foi por essa razão que resolvi publicar este livro.

Agradeço ao Banco Cacique, que possibilitou sua realização com o apoio da Lei Rouanet de incentivo cultural.

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Jornalista

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