Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Crise atinge o SBT

Por Valério Cruz Brittos e Andres Kalikoske em 30/11/2010 na edição 618

Silvio Santos voltou a estar em evidência desde a segunda semana de novembro, quando o Banco Central anunciou que o PanAmericano, instituição financeira até então cotada como a mais rentável das suas 35 empresas, contabilizou entre seus ativos carteiras de crédito que já haviam sido vendidas a outros estabelecimentos bancários. Para cobrir o déficit de R$ 2,073 bilhões, o Grupo Silvio Santos (GSS) solicitou ao Fundo Garantidor de Crédito, entidade privada, um empréstimo no valor de R$ 2,5 bilhões, oferecendo como garantia o patrimônio de seu sócio majoritário, que soma R$ 1,5 bilhão.

Mesmo com poucas alternativas, Silvio Santos (SS) assumiu, aos 79 anos, a dívida ocasionada pelos maus administradores de seu banco, colocando sua própria imagem em contrapartida. Uma decisão importante para o mercado financeiro e para o país. Se decretada, a falência do PanAmericano seria a mais longa novela produzida pelo empresário (a exemplo do caso Manchete, da família Bloch). Não obstante, uma liquidação ou intervenção representaria um novo trauma para os brasileiros, com perda de confiabilidade no sistema financeiro e externalidades negativas junto aos investidores internacionais.

Grupo buscava incrementar negócios

Com alicerce forte e em plena expansão, o GSS registra, entre seus recentes movimentos, uma união com a Caixa Econômica Federal, que adquiriu, ao valor de R$ 739 milhões, participação de 49% no banco PanAmericano, em dezembro de 2009. Ante a crise desta instituição, a Caixa deve intimar, em interpelação extrajudicial, as empresas de auditoria Deloitte, KPMG e Banco Fator, as quais não identificaram os indícios de irregularidade nos balanços do PanAmericano. A Deloitte, por exemplo, recebeu mais de R$ 1 milhão pelos serviços prestados. Na imprensa, já se comenta sobre a venda do PanAmericano em curto prazo. Inclusive, com cinco bancos interessados na compra da instituição.

O GSS declarou em 2009 um faturamento de R$ 4,7 bilhões. Seus serviços, em grande parte, estão direcionados para as classes D e E, seguindo a vocação do próprio SBT. Mas o Grupo também possui empreendimentos sofisticados, como o Hotel Sofitel Jequitimar, no litoral paulista, e a Sisan, que atua fortemente no ramo imobiliário paulista. Historicamente, o Grupo tem sido exemplo de uma organização empresarial exitosa, a partir daí merecendo a confiança dos brasileiros, em grande parte pelo próprio carisma e trajetória ascendente de SS.

Classificado como um banco de porte médio, o PanAmericano tem como sua principal atividade a concessão de crédito às classes concentradas na parte inferior da pirâmide social. Oferece produtos e serviços, como financiamentos (veículos leves e pesados, móveis, eletrodomésticos, materiais de construção e turismo), operações de cartões de crédito, leasing, seguros (acidentes pessoais, prestamistas, vida em grupo, desemprego e danos pessoais) e consórcios (imóveis, automóveis, motocicletas e microcomputadores). Apesar do reposicionamento descendente do SBT no mercado televisivo, o GSS buscava incrementar seus negócios. Visando ao crescimento das Lojas do Baú, recentemente adquiriu a Braspag, empresa líder no mercado brasileiro de processamento de transações online.

Não é a primeira crise

Desde que as primeiras notícias sobre a crise foram divulgadas, a mídia destacou todos os movimentos da família Abravanel. O apresentador não cancelou as gravações de seu programa dominical, e sua esposa, a hoje novelista Íris Abravanel, manteve o lançamento de seu livro Recados Disfarçados, uma coletânea de crônicas. Enquanto isso, crescem as especulações sobre uma possível venda, total ou parcial, do próprio SBT, enquanto pastores tentam aproveitar o momento em que SS precisa de recursos para fazer uma nova investida de compra da programação da madrugada na emissora, na atualidade dedicado a séries norte-americanas, com ótimos resultados de audiência, mas num horário de baixo faturamento.

Especialistas acreditam que a imagem de Silvio Santos é suficientemente forte para acalmar os ânimos em suas empresas. Mas, no caso do SBT, a crise não poderia chegar em pior momento. Prestes a completar seu trigésimo aniversário, a rede encerra o ano de 2010 ainda mais fragilizada. Por um lado, segue tendo que lidar com o crescimento da Record, emissora ligada ao empresário Edir Macedo que conta com o aporte financeiro da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Por outro, este é o período em que os anunciantes definem seus investimentos para o próximo ano e talvez não queiram comprometer suas verbas por um longo período no SBT, mas sim, trabalhem com a modalidade de compra mensal, conforme noticiou a Folha.com (14/11). Para complicar ainda mais a vida de Silvio Santos, a Band – que sonha com a terceira colocação –, publicou nos principais jornais do país um anúncio com a frase ‘confiança é tudo’ e ‘o mercado está de olho na Band’.

O SBT já vem operando com uma das menores receitas de sua história. Em sua programação, os horários antes reservados a co-produções com a Televisa ou blockbusters norte-americanos de estúdios como Disney ou Warner hoje exibem reprises de produções do próprio canal e da Manchete (como A História de Ana Raio e Zé Trovão). Seus artistas também sentiram o baque: Hebe teve seu contrato renovado por um valor muito menor do que recebia, enquanto Ratinho deixou de ser contratado para se tornar parceiro da emissora, passando a embolsar parte do que arrecada com anúncios em seu programa (o mesmo havia ocorrido com Gugu, que, desgostoso, acabou deixando o SBT, migrando para a Record).

Esta não é a primeira vez que Silvio Santos depara com uma crise em suas empresas. Em 1987, quando a audiência do SBT oscilava entre 22 e 23 pontos, chegando a atingir de 25 a 35 aos domingos, seu faturamento equiparava-se ao de uma operadora televisual que detinha pouco mais de 13 pontos de audiência, o que levou a uma reformulação na sua grade de conteúdos, buscando um público com maior poder de consumo. Enquanto o lucro anual do SBT, em julho daquele ano, era de R$ 250 milhões, a Globo reinava no Ibope e registrava um faturamento líquido de R$ 2 bilhões. Até hoje a distância entre Globo e SBT é enorme, com o agravante de que agora há a Record entre ambas.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e doutorando em Ciências da Comunicação na mesma instituição

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