Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / GUILHERME BRYAN

Cultura pop dos anos 80 ganha livro-reportagem

Por Rodney Brocanelli em 18/01/2005 na edição 312

O fascínio pela cultura pop produzida nos anos 80 vem ganhando cada vez mais corpo neste início de século 21. Na verdade, nem se trata de uma novidade. O Brasil sempre viveu inebriado pela nostalgia de décadas passadas. Na década de 80, era comum a retrospectiva dos anos 50 e, principalmente, 60. Hoje, a situação é diferente. Os anos 80 são objeto de diversos tributos prestados nos mais variados meios.

O mercado editorial vem despejando livros e mais livros dedicados à cultura dos 80. Uma das obras mais recentes a chegar às livrarias é Quem tem um sonho não dança – Cultura jovem brasileira nos anos 80 (Record), livro-reportagem do jornalista Guilherme Bryan. Em vez de se prender apenas a um tipo de manifestação cultural, Bryan resolveu traçar um amplo painel da cultura pop produzida no período, interligando música, cinema, teatro, televisão, dança, grafite e artes plásticas.

Quem tem um sonho não dança nasceu primeiramente como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Guilherme Bryan cursava Jornalismo na Cásper Líbero e decidiu usar os anos 80 como tema. Graças ao incentivo de um de seus professores, o também jornalista Marcelo Coelho, resolveu aprofundar a pesquisa e transformá-la em livro. ‘Fiz tudo sozinho e sem financiamento’, diz. ‘Tive apoio da minha família, em especial o da minha mãe, pois sem ela não haveria livro’.

Uma de suas principais dificuldades foi conseguir espaço na agenda de seus entrevistados. ‘As entrevistas levavam muito tempo para serem feitas’, diz. O esforço pelos contatos acabou valendo a pena. Bryan conseguiu 179 entrevistados. ‘Uma iniciativa que eu tive e deu muito certo foi pedir que meus entrevistados indicassem outros para falar’, conta.

Nessa entrevista, Bryan, que nasceu em 1975, fala sobre a comparação com outros livros dedicados a analisar a década, em outros aspectos, como o rock nacional, por exemplo. ‘Eu vou citar três livros: o Brock – O rock brasileiro dos anos 80, do Arthur Dapieve, o livro do Ricardo Alexandre e o meu. São diferentes uns dos outros, mas, sem querer ser modesto, são complementares’, diz.

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A que você atribui esse interesse pelos anos 80?

Guilherme Bryan – Havia uma geração, vinda das décadas anteriores, que atuava nos anos 80. Ela pegava muito no pé da cultura jovem produzida neste período. Diziam que se tratava de uma arte alienada, que era tudo uma festa, coisa de verão. Por outro lado, teve uma geração formada nos anos 80 que hoje está na casa dos 30 anos. Essa geração já tem as condições, os meios e o distanciamento necessário temporal para mostar o quanto tudo aquilo foi importante para o que veio depois, para a cultura brasileira como um todo. Esse revival é explicado pela visão dessas duas gerações.

Foi isso que te motivou a escrever o livro?

G. B. – Me incomodava demais a idéia de que a década de 80 foi perdida. Eu recebi um e-mail do Deni, que foi produtor de bandas como Kid Abelha, Biquini Cavdão, e ele me disse que as pessoas do Rio acharam muito bacana o livro ter começado com a peça Trate-me Leão, do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Ela foi muito importante não apenas para o Rio, mas teve um reflexo em todo o Brasil. É um divisor de águas. Sai de cena o retrato do operário, do migrante nordestino e passa a ser o retrato do jovem urbano de classe média do país, que não tinha retrato em lugar nenhum. Essa temática da peça, ligada ao lema punk ‘do it yourself’, fez com que a década de 80 fosse o que foi na minha opinião. Isso para mim é ‘anos 80’, o jovem se retratando de maneira direta, clara e da maneira como ele podia, sem ter de ficar anos e anos num conservatório ou numa academia para fazer isso.

Quantas pessoas você entrevistou?

G. B. – Foram no total 179 entrevistados. Algumas entrevistas tiveram de ser refeitas. Quando se faz as primeiras 10 entrevistas, elas são como se fosse um garimpo, sem saber a direção a tomar. Depois, é uma coisa que vai amadurecendo. No fim, é natural a retomada de entrevistas iniciais para aprofundá-las. Eu me encontrei com a grande maioria das pessoas e outras conversas se deram pelo telefone.

Houve algum tipo de dificuldade por ocasião da pesquisa?

G. B. – Eu estava sem dinheiro e trabalhava como free-lance. Tinha de ficar muito tempo no Rio de Janeiro, até porque a maioria das pessoas com quem falei mora lá. Ficava quatro meses em São Paulo trabalhando, guardava uma grana e ia para o Rio. Para conseguir conciliar a minha disponibilidade com a das outras pessoas era complicado. Por problemas de agenda, as entrevistas levavam muito tempo para serem feitas. Mas na hora em que elas aconteciam, era sempre legal. Uma iniciativa minha que deu muito certo foi pedir que meus entrevistados indicassem outros para falar. A maneira como meu livro é construída se deve a isso. O Dinho Ouro Preto, por exemplo, me indicava o Marcelo Rubens Paiva, o Alvin L., alguém das artes plásticas e a Fernanda Villa Lobos, que nessa época mantinha um fanzine. Percebi então a ligação dessas pessoas. Eu ia até o Marcelo Paiva e ele me indicava um cara que fazia grafitagem nas paredes das ruas da Vila Madalena, em São Paulo. De uma certa forma, todas as pessoas se conheciam e descobri coisas curiosas por causa disso.

Uma coisa interessante do seu livro é o prefácio escrito pelo jornalista Marcelo Coelho, que é ligado a um tipo de cultura, digamos, erudita.

G. B. – Eu fui aluno do Marcelo Coelho na faculdade, mas era um aluno muito relapso. Ficava muito tempo no Rio de Janeiro e faltava muito às aulas dele. Mesmo não tendo um relacionamento muito grande, ele me indicou alguns livros, mas ficou só nisso. Quando fui apresentar o meu TCC o convidei para ser da banca. Ele leu o esboço, ficou encantado com a quantidade de material coletado, me deu nota máxima e resolveu apoiar a publicação do meu trabalho em forma de livro.

Em qual momento você sentiu que tinha um livro nas mãos?

G. B. – Eu não tinha dimensão de quanto tempo é necessário para fazer um livro. Não queria fazer qualquer coisa. O livro já estava na minha cabeça. Já tinha um rascunho pronto, que era meu TCC. Só precisava transcrever todas as entrevistas, o que dá um grande trabalho. Depois, era só sentar e editar. Fiz tudo sozinho e sem financiamento. Tive apoio da minha família, em especial o da minha mãe, pois sem ela não haveria livro.

Um de seus entrevistas foi Fausto Silva. Ele é uma pessoa que não costuma falar com jornalistas. Como se deu o contato com ele?

G. B. – O Faustão tem uma agenda muito complicada, pois tem uma série de compromissos e vive viajando. Eu tentava periodicamente contatos, até que uma hora deu certo e nos encontramos numa cantina nos Jardins. Ele foi extremamente receptivo, uma das pessoas mais carinhosas com o projeto e deixou bem claro que poderíamos conversar o tempo que fosse necessário. Contou várias histórias engraçadas e lembrava com saudades dos tempos de Balancê e Perdidos na noite. Outro entrevistado que acho legal citar é o Fernando Meirelles. Quando eu comecei a manter contato com ele, não existia ainda ‘Cidade de Deus’. Ficamos amigos e ele me relatou muitas histórias também engraçadas sobre o Faustão, da produtora Olha Eletrônico, das gravações que fazia com o Marcelo Tas, que na época interpretava o repórter Ernesto Varela. Tudo isso deu um molho muito interessante ao livro.

Como você encara as comparações com Dias de luta, livro-reportagem do também jornalista Ricardo Alexandre sobre a história do rock brasileiro dos anos 80?

G. B. – Eu vou citar três livros. O Brock – O rock brasileiro dos Anos 80, do Arthur Dapieve, o livro do Ricardo Alexandre e o meu. São diferentes uns dos outros, mas, sem querer ser modesto, são complementares. O livro do Dapieve retrata as principais bandas dos anos 80 de uma maneira segmentada, dando espaço para cada uma. O livro do Ricardo se aprofunda bastante na questão musical. O meu pega essa questão musical e mostra a sua relação com outras áreas. Acho que esse tipo de comparação é como se quisessem amputar meu livro. Ele trata de assuntos tão diversos que se alguém pegar apenas a parte musical é como se o estivessem destruindo. Tem alguns depoimentos no meu livro que coincidem com Dias de luta. Outros não. Por exemplo, o Guel Arraes conta como foi a participação do Ultraje a Rigor no seriado Armação Ilimitada. Tem uma letra inédita da Blitz, que só saiu no jornalzinho interno do Circo Voador. Tem textos do Renato Russo que só estão no meu livro.

O fato de você utilizar como título o verso ‘Quem tem um sonho não dança’, que faz parte de uma música do Barão Vermelho, e o Ricardo Alexandre ter escolhido ‘Dias de luta’, que é título de uma canção do Ira!, gera esse tipo de comparação?

G. B. – O título tinha de juntar ao menos duas formas de arte diferentes. Essa canção, que se chama Bete Balanço, foi trilha sonora do filme de mesmo título. Além de muito simbólico, mostra a questão do sonho, que foi muito presente nos anos 60. No anos 70, o John Lennon declarou que o sonho acabou. Mas ele ganhou outra dimensão nos anos 80, quando o Cazuza cantava ‘quem tem um sonho não dança’. Dias de Luta é o nome de uma música e pronto. Não está relacionada a outro tipo de manifestação artística. Aí, já faz a diferença. O Ricardo Alexandre fez um bom livro. É gostoso de ler. Sou uma pessoa que gosta dos anos 80, então vou ler tudo o que se escrever a respeito. Só acho engraçado que todos se lembrem do livro do Ricardo, mas não do livro do Dapieve, que foi pioneiro.

Você classificaria Quem tem um sonho não dança como livro-reportagem?

G. B. – Eu não sei diferenciar quando é um livro-reportagem ou um livro histórico. Acho que ele é um livro-reportagem histórico. É uma reportagem histórica, não factual. Nem tudo o que está contado foi exatamente como aconteceu. Faz parte da memória das pessoas. Tenho três versões sobre os bastidores da gravação de um disco e coloco no livro todas elas. Nem tudo é o ‘foi assim’. ‘Foi assim’ na visão de alguém. Uma crítica que se faz ao meu livro é o fato de não ser analítico. Minha idéia era fazer um grande painel e deixar que o leitor tire as conclusões que quiser, simpatize com o que ele gostar mais. O meu livro é bem descritivo.

Como foi não contar com os depoimentos de Cazuza e Renato Russo, dois nomes fundamentais para aquela cultura pop dos anos 80?

G. B. – Era difícil fazer o livro, sem uma série de outras pessoas que já tinham morrido. Gostaria de ter contado com Julio Barroso, Caio Fernando Abreu, Felipe Pinheiro e Lauro Corona. A maneira mais prática de retratar o Renato Russo era entrevistando Fê Lemos, Dinho Ouro Preto, Dado Villa Lobos e sua mulher, a Fernanda. Tive a sorte de encontrar panfletos e textos de jornal escritos por ele que me deram a noção exata de sua importância. Já com relação ao Cazuza, o Ezequiel Neves e o Frejat são mais que suficientes para mostrar quem ele era.

Como você avalia a cobertura cultural daquele período?

G. B. – Foi a época em que os jornais começaram a dar espaço à cultura. O Estadão tinha duas páginas de cultura no primeiro caderno, meio perdidas, junto com o esporte. Em 1986, o jornal lançou o Caderno 2. A Ilustrada mudou de cara nos anos 80 com a entrada do Matinas Suzuki Jr., o Pepe Escobar. O Caderno B, do JB, e o Segundo Caderno, do Globo, também mudam nesta época. O Globo lançou o Rio Fanzine. Foi uma época muito importante para a consolidação dos cadernos de cultura nos jornais. Eram tocados por jornalistas jovens e eles retrataram essa cultura jovem. Outra iniciativa pouco lembrada é a do Maurício Kubrusly, com a revista Somtrês, que foi desbravadora e veio a dar na Bizz. É uma época também em que surgiu a polêmica dos críticos-músicos, que tinham bandas ou projetos musicais, como Alex Antunes e Thomas Pappon, da redação da Bizz. Só lembramos deles, mas deixamos de lado que Paulo Ricardo escrevia como jornalista. Lulu Santos escreveu para a Somtrês. O Julio Barroso colaborou com a Veja. O Arnaldo Antunes adorava escrever naquela época, sempre colaborava cm jornais. Nós esquecemos que esses grandes nomes da música também atuaram como jornalistas. Então eles fazem parte daquela panelinha de críticos-músicos. Já que se fala da ‘panelinha da Bizz‘, temos que abrir um pouco e incluir esses ícones pop também.

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Colaborador dos sítios Laboratório Pop, Bacana, Papo de Bola e Rádio Brasil 2000 FM-SP; blog pessoal: http://onzenet.blogspot.com

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/12/2006 iris cunha

    E bom saber que ainda a alguma coisa sobre os tempos antigos achei que estava muito bem organizado o site espero que continuem a fazer sites assim por ainda a muita gente pora e com curisidade de saber coisas desse tempo tao faxinante que foram os anos 80 e se poderem escreveam artigos de pessoas que passaram por essas epocas e que dava muito jeito por exemplo eu to fazer um trabalho para historia e nao encontonada a sesca desta materia. OBRIGADO pela vossa atensao e espero que continuem a fazer sites destes tipos

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