Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO ONLINE

De dentro para fora

Por José Manuel Paquete de Oliveira em 28/12/2004 na edição 309

Talvez seja difícil admitir que este estudo pudesse ter sido realizado por alguém que não estivesse dentro dos jornais. Dos jornais fabricados tradicionalmente. Afinal, José Pedro Castanheira faz este estudo, escreve esta dissertação, publica este trabalho académico, para provar a convicção que intrinsecamente o domina: a imprensa escrita em papel não morrerá. Veio a rádio, veio a televisão, veio a internet, veio o jornalismo online, mas a escrita em papel de jornal perdurará. Move-o esta paixão extrema. Determina-o esta convicção íntima. E a comprovação ou refutação desta tese obrigam o leitor a ler esta obra.

Assim termina este estudo que percorre o objecto e objectivo de todo o trabalho: ‘A velocidade da net e o directo fornecido pelo audiovisual não dispensam a imprensa escrita…’ …’Essa é uma vantagem dos jornais, a quem cabe, cada vez mais, a informação trabalhada, completa, ponderada, a análise de fundo, a interpretação, a comparação. É esse o seu futuro’ (p. 180).

José Pedro Castanheira (JPC) interroga-se sobre o que de novo traz o jornalismo online, esse ‘quarto tipo de jornalismo’ na expressão de Mark Deuze. E, como jornalista profissional desse ‘monstro’ do jornalismo institucional na imprensa portuguesa, o Expresso, vai à procura de indagar ‘até que ponto o Expresso Online (iniciado em 19/7/1997) é expressão desse novo tipo de jornalismo’.

Para explicar a si próprio, e agora aos leitores, as interpelações que o jornalismo online pode levantar, em problemas técnicos e deontológicos, JPC elege como alvo, em estudo de caso, ‘os comentários dos leitores às notícias sobre a Fundação Jorge Álvares no Expresso Online, em 2000′. Conforme o próprio autor esclarece ‘o objecto de estudo foram as diversas peças jornalísticas publicadas em torno do tema, bem como os comentários dos leitores, tal qual foram emitidos no sítio destinado à sua opinião’ (p. 19).

A Fundação Jorge Álvares – esse último e muito polemizado empreendimento do general Rocha Vieira, ex-governador de Macau, para sinalizar e, de certo modo, prolongar a cooperação multissecular entre Portugal e a China –, é o ‘instrumento’ que fornece os elementos para este estudo, mas não é o epicentro da questão. Esse é fundamentalmente o conjunto dos 730 comentários emitidos pelos leitores ao longo de quinze edições do ano 2000. ‘Esta quantidade, aliada à variedade e à diversidade de características de comentários, levaram–nos’ – precisa o autor – ‘a eleger o assunto como um case study‘.

‘O objecto de estudo centrou-se na forma e no conteúdo dos comentários dos leitores’… e ‘também na forma como o jornal foi acolhendo a participação dos leitores’… ‘na interactividade que se foi (ou não) gerando’ (p. 21). Quer dizer, JPC vai através do online verificar a interactividade provocada nos leitores pelas 32 peças [matérias – N.do E.)] que o Expresso ao longo de 15 edições dedicou a este tema, em notícias, entrevistas, reportagens, crónicas, editoriais ou artigos de opinião. O tema escolhido para case study não o foi directamente pela sua polémica implicação política, mas pelo recorde de comentários conseguido entre todos os outros temas noticiados e tratados pelo Expresso durante o ano de 2000.

Valores a cultuar

A partir deste caso, JPC constrói, com inteligência e mérito, uma situação concreta para encetar uma profunda reflexibilidade sobre jornalismo online, as novidades que este suscita, as novas problemáticas que este acarreta. Dir-se-á que o autor aproveitou do melhor modo a disponibilidade que arranjou para freqüentar, durante o ano lectivo 2000-2001, o curso de pós-graduação de extensão universitária em Jornalismo, ministrado pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em parceria com a Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) do Instituto Politécnico de Lisboa.

O trabalho de JPC reflecte um exemplo paradigmático dos objectivos deste curso que não tem por finalidade ensinar jornalismo, mas criar condições e oportunidade, para o exercício de reflexão e estudo, entre a universidade e experiencialidade profissional, sobre uma actividade de enorme repercussão política, social e cultural na vida e no mundo contemporâneos.

JPC explora a oportunidade e atinge com brilho os resultados, oferecendo um trabalho final que é uma abordagem crítica das principais questões e desafios, de carácter técnico e deontológico, suscitados por este novo suporte do jornalismo, o online. Ao reflectir, e fazer reflectir, sobre alguns dos ‘problemas técnicos e deontológicos’ que se levantam ao jornalismo online, analisa outras tantas questões que se inscrevem no jornalismo de todos os tempos, num ‘eterno retorno’ que fazem deste acto simples, mas complexo, de escrever em papel tão volátil, ‘esta estranha forma de vida’ que é ser jornalista.

Ao longo de dezasseis capítulos, desenvolvidos em estilo cuidado e documentado, com centenas de citações de autores que sedimentam uma vasta e apropriada bibliografia, JPC, numa análise sistemática dos 730 comentários, constrói a tese que sustenta. Mas sem nunca perder aquela escrita incisiva e expressiva de que aliás é um habitual cultor.

Este estudo, sem esconder todas as potencialidades que a utilização do online traz ao jornalismo, sobretudo pela riqueza da interactividade que favorece entre jornalistas e leitores ou opinião pública em geral, não deixa de escalpelizar as fragilidades deste suporte. Assim, JPC extrai da sua análise outros processos e procedimentos que este jornalismo potencia, tais como o cultivado esconderijo do anonimato dos interlocutores, ou o conseqüente espectro da difamação à solta, num ‘fórum cívico’ que a ‘democracia do teclado’ (como a apelida, Lawrence Grossman) alarga, mas nem por isso mais protege ou responsabiliza o cidadão. Aliás, citando outro jornalista, também estudioso do novo jornalismo online, Helder Bastos, JPC pela investigação que fez sobre o tratamento deste caso, confere a versão de que ‘rumores e teorias conspirativas encontram na internet terreno fértil para se propagarem’ (p. 164).

Longe dos profetas como Christopher Harper que prevê que ‘os papéis do repórter e do editor do jornal serão limitados (pelo novo jornalismo online), se não mesmo eliminados de todo’, JPC a partir dos dados a que chegou pela análise deste case study, prefere concluir que a era do digital só virá consolidar a importância do papel do jornalista que trabalhe ‘uma informação fiável e útil sobre a qual os cidadãos podem agir’.

Sem o culto dos valores do jornalismo tradicional, do jornalismo de sempre, ‘a credibilidade, o respeito pela veracidade, a confirmação, a exactidão, a contextualização dos factos’, o jornalismo online servir-se-á de uma nova e potente tecnologia, mas não escreverá história.

A tese desta tese é escrita de dentro para fora. Isto é: é escrita por um jornalista do ‘jornalismo tradicional’. Resta saber como podem refutar ou confirmar esta tese aqueles que, numa prática exclusiva de ‘jornalismo online’, encontram, neste suporte, todas as virtualidades para a construção de um outro jornalismo.

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Docente e investigador do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Lisboa

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