Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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De volta à antiga (e nobre) São Paulo

Por Wladir Dupont em 06/11/2007 na edição 458

Raras vezes coincidem fatos em andamento com a publicação de obras sobre os assuntos em pauta. É o que torna oportuno, e valoriza ainda mais, o livro do jornalista Heródoto Barbeiro, Meu Velho Centro – histórias do coração de São Paulo. O livro sai num momento de algumas transformações, ainda tímidas, do centro velho paulistano, incluindo o projeto da prefeitura, o Nova Luz, o reaproveitamento de hotéis decadentes como prédios residenciais, caso pioneiro do Britannia, na avenida São João, ao lado dos Correios, este também em fase final de restauração, além de outras tentativas esparsas – e movimentos do tipo Viva o Centro – da iniciativa privada para dar uma nova cara, mais agradável e segura, sem mutilar ou eliminar características originais, a uma região que já foi bela e nobre e hoje se vê feia e degradada.


É sob esse ponto de vista curioso e inteligente, o das lembranças cotejadas com o presente pouco animador e os desafios complexos de um futuro próximo, que o livro de Heródoto ganha uma dimensão mais profunda, nem por isso menos nostálgica, levando o leitor a visualizar, graças às belas fotos de Ricardo Hirata, como era, ou o que dele resistiu à depredação, o velho centro paulistano ainda hoje evocado com saudades, nos almoços dominicais, por pais, tios e avós.


Visão particular


Uma das razões para escrever o livro, diz o autor, é a de querer contribuir, como paulistano da gema, na recuperação do centro velho da cidade – que, ameaçado pela especulação imobiliária mais desenfreada, vê destruído, de forma impune, seu precioso patrimônio arquitetônico, substituído por modernosos arranha-céus.


‘Vamos acabar com esta cidade e no lugar dela construir outra? E que cidade será essa?’, pergunta um indignado Heródoto. Ele preconiza uma espécie de ‘congelamento’ (seria um tombamento geral?) do centro da cidade, num processo parecido ao de outras capitais, como Buenos Aires, por exemplo.


Sóbria combinação de jornalista e historiador (é da rádio CBN e da TV Cultura, foi professor de História), misturando o olho perspicaz do repórter com a reflexão contextual do estudioso de épocas e costumes, Heródoto Barbeiro, nascido, criado e ainda morador do centro, conduz o leitor a um roteiro sentimental pelos primórdios da história da cidade, desde sua remota fundação pelos jesuítas até os anos 1960, com ênfase em suas próprias vivências de menino e rapaz, morador da Rua Nioca, antiga Travessa do Hospício, paralela à Tabatinguera, em frente ao quartel do Parque Dom Pedro II, pertinho da Praça João Mendes. O garoto preferia, ao contrário da turma, andar e rodar pelo centrão e não pelos lados novos da Avenida Paulista. Bom mesmo, conta, era percorrer ruas e becos bem conhecidos por ele, ex-office-boy da área.


Num texto leve e fluente, sem firulas estílisticas nem pretensões técnicas próprias de urbanistas ou arquitetos, Heródoto narra histórias e recria tipos inesquecíveis da Rua Tabatinguera e arredores, lembra as incursões aos cinemas do Brás e aos sebos do centro, das peladas nos desgramados campinhos de várzea, e sobretudo do parque de diversões Shangai, na Baixada do Glicério, aqui descrito num texto primoroso, tanto em informação como em atmosfera, sobre aquele local que encantou a infância e a primeira juventude de muitos paulistanos – este que escreve incluído, que vinha a pé do vizinho Alto do Pari.


Como se trata de uma visão muito particular, quase íntima daquela São Paulo antiga, embora bastante abrangente, não é justo portanto reclamar de uma ou outra ausência ou omissão do livro, mas nos atrevemos, sim, a retificar um par de coisas, deslizes mínimos de memória.


No escurinho do cinema


Assim, ele menciona o cine Normandie como localizado na Rua Dom José de Barros, quando era na Avenida Rio Branco. Na Dom José estavam o Ópera e o Jussara, este mais novo, especializado em cinema francês, destaque para a nouvelle vague.


Heródoto lembra que para se chegar ao cine Brás Politeama, no Brás, o caminho mais prático era pegar a Rua do Gasômetro e ir até o fim, a Avenida Celso Garcia. Correto, mas nessa mesma Rua do Gasômetro estava outro cinema de bairro dos bons, o Glória. Que, como o Brás Politeama, tinha um enorme pátio interno, cortado ao meio por portinholas de madeira que davam acesso ao interior.


Na famosa Rua Direita, ‘uns 300 metros’, que ligava o centro velho ao mais novo, para além do Viaduto do Chá, o autor lembra de um concorrido footing, aos sábados. Também correto, mas mais concorrido ainda era outro footing, na mesma Rua Direita, ao entardecer dos domingos, exclusivo da comunidade negra mais humilde da cidade – empregadas domésticas, porteiros, serventes, jogadores de futebol, sambistas. Branquelos metidos a raça superior não andavam por aquelas bandas no domingo à noite.


Desde já, conste, este livro é obra de consulta obrigatória para todos os que se preocupam com a preservação do passado ou o que ainda ficou por aí, abandonado, da cidade de São Paulo.

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Jornalista e escritor

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