'Decifra-me ou te devoro' | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ARMAZéM LITERáRIO > CUSTO DE VIDA

‘Decifra-me ou te devoro’

Por Carlos Alberto M. Tourinho em 10/11/2009 na edição 563

Alguns grandes escritores costumam dizer que as melhores histórias estão escritas nas ruas e que basta observar para, depois, contá-las ao mundo. Estas histórias surgem do nada, da rotina, da vida comum.

Em meio ao noticiário das chuvas e enchentes no Espírito Santo, uma notícia tornou-se destaque nos telejornais do dia. Foi a confusão que aconteceu em uma das maiores lojas de eletrodomésticos no estado. Milhares de pessoas protestavam e até polícia havia para evitar quebra-quebra. Uma propaganda na véspera prometera vender uma panela de pressão que custa R$ 29,99 por R$ 9,99. Antes de a loja abrir, já havia gente à espera e bastou pouco tempo para que o estoque fosse todo vendido. A panela acabara, mas não a fila. Muitos ficaram revoltados e, acredite, uma consumidora até chorou por causa da panela de pressão!

O repórter, que lida frequentemente com as carências e aflições populares, ficou surpreso. Não via justificativa para tanta confusão: ‘O estado debaixo d´água e estas pessoas brigando por uma panela?’

O gerente da loja que trata diariamente com a freguesia – e tem interesse em vender – fez uma declaração assustada e ao mesmo tempo sincera: ‘Pensamos que oitenta panelas, por loja, para uma promoção de apenas um dia, fossem mais do que o suficiente’.

Esta é a história. Ninguém entendia por que uma promoção de panela de pressão levaria um volume tão grande de donas de casa a sair de sua rotina no início da manhã para chorar na frente de uma loja e ali permanecer por horas. E que muitos homens deixariam de trabalhar para insistir na compra de um produto que já não havia. O que movia estas pessoas? Que lições se podem tirar desta história de rua?

A verdadeira panela de pressão

1. O jornalismo precisa se aproximar cada vez mais das diversas camadas sociais da população e entendê-las melhor. Seus problemas e projetos de vida. Agonias e fantasias. Agindo assim, poderá encontrar respostas para o seu futuro formato e o formato de seu futuro. Precisa conhecer a sua audiência – seja em que plataforma for – e o que ela deseja e precisa.

2. O comércio deve entender melhor seu cliente e evitar a evasão dos que desejam qualidade de produto associada à inteligência de atendimento. A concorrência digital já seduz volume significativo de consumidores que optam por comprar pela internet, deixando de se expor aos riscos das ruas e das frustradas promoções.

3. Saberão os políticos por que se mora numa encosta sob risco de desabamento? Por que muitos trabalhadores substituíram o ônibus por deslocamentos a pé ou de bicicleta? Por que muitas crianças estão sendo usadas pelo tráfico de drogas? Por que a violência não pára de crescer? Saberão eles por que se deseja tanto uma panela de pressão?

É oportuno lembrar a esfinge grega que estabelece a sentença para quem não responder o enigma: ‘Decifra-me ou te devoro’. Ano que vem tem eleição. É esta a verdadeira panela de pressão em que estamos todos.

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Jornalista

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