Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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ARMAZéM LITERáRIO >

Declaração de amor aos livros

Por Marcello Rollemberg em 18/04/2005 na edição 325

Para Aníbal Bragança

Este livro que o leitor tem em mãos é uma peça histórica – pelo menos para aqueles que cultivam o amor pela palavra impressa e encadernada. Trata-se do que pode ser considerada a primeira publicação – desde que os sumérios escreveram os cuneiformes nas ancestrais tabuinhas de argila – a abordar exclusivamente a paixão pelos livros. Escrito em 1344 pelo reverendo Richard de Bury – que havia sido bispo de Durhan, chanceler do rei inglês Eduardo III e que morreria apenas um ano após ver sua obra publicada, aos 56 anos –, este volume fala sem cerimônia daquilo que mais tarde ficaria conhecido como ‘bibliofilia’, do qual o philobiblon do título é um anagrama e a expressão inicial no grego que tanto agradava a de Bury.

Tanto uma expressão quanto outra tratam exatamente da mesmíssima coisa: o amor pelos livros acima de tudo, que vem dominando corações e mentes há um bom número de séculos, desde o próprio bispo de Durhan e Erasmo de Roterdam – que cem anos depois de Richard de Bury ao escrever seu tratado afirmou que ‘quando tenho um pouco de dinheiro, compro livros e, se me sobrar algum, compro comida e roupas’ – até nomes atuais como José Mindlin.

Os vinte capítulos escritos por de Bury, contudo, precisam ser lidos de duas formas, para que não haja algum mal-entendido. Primeiro, dentro de um contexto histórico. Realizado em plena Idade Média, quando a leitura, os livros e o estudo universitário eram patrimônio praticamente exclusivo da Igreja, o autor muitas vezes relaciona livros seculares com os textos sagrados da Bíblia, como se fossem quase a mesma coisa – e, para ele, o eram de fato, jáque para de Bury todo livro era ‘uma mostra da palavra Divina’. Por isso, em alguns momentos pode-se parecer que ele está tratando apenas da Bíblia quando fala em livros, mas não é isso. Uma prova é a quantidade de vezes que ele cita Aristóteles – ‘o príncipe dos filósofos’ – e autores medievais, como Boécio e Averróis, que hoje caíram no esquecimento.

Quando fala aos estudantes, entenda-se também que ele está conversando com alunos oriundos de famílias abastadas e de parentes de clérigos, o público essencial das universidades da época, e que iriam na maior parte das vezes seguir a carreira eclesiástica. Então, em muitas oportunidades Richard de Bury está falando com prelados ou futuros prelados – que tinham uma cultura acima da média naqueles tempos –, daí o tom um tanto ‘religioso’ em demasia para esses tempos cada vez mais seculares de início de século XXI. Nada que obstaculize a leitura, é bom que se explique, mas que merece ser esclarecido. Como já se disse, quem não possui uma visão histórica dos fatos pode acabar tendo uma visão histérica deles, e isso seria a última coisa que o bom Richard de Bury desejaria para o seu ‘mui interessante tratado sobre o amor aos livros’.

Bons títulos

Por outro lado, e ainda nos apegando à época de sua realização, não podemos deixar de mencionar o estilo no qual foi escrito o Philobiblon e de como foi feita sua tradução. Como era de praxe naqueles tempos, o livro foi escrito em latim. Sua primeira tradução em inglês só veio à luz no século XIX, e uma das primeiras em espanhol, nas décadas iniciais do século XX. Foi nas versões em inglês e em espanhol – muito boas, por sinal, elaboradas por bibliófilos que, como de Bury, nutriam uma autêntica paixão pelos livros em geral e uma específica pelo tratado do ex-prelado de Durham – que se baseou essa tradução. Mesmo assim, a fidelidade da fala do autor procurou ser mantida, e essa fala por vezes pode soar um tanto estranha para ouvidos pouco acostumados ao sotaque medieval.

Em algumas situações talvez pareça rebarbativa, solene demais, ou mesmo elíptica. Por isso, talvez o termo ‘tratado’ seja muito forte para ele, já que, formalmente, carece do método, do planejamento e da realização complexa que um tratado filosófico ou científico exigem. Mas isso em nada interfere na sua compreensão ou no seu valor tanto histórico quanto bibliográfico. Afinal, esse foi um livro criado à luz da paixão – pelos livros – e não pela da razão, por mais que seu autor tentasse, em alguns momentos, dar a seus escritos um ar mais erudito. Não se procurou atenuar esse tom geral pois, de outra forma, não estaria se fazendo uma tradução, mas sim uma dublagem. Procurou-se, sim, atenuar algumas elipses, deixar mais claras algumas sentenças e linhas de raciocínio sem que isso, contudo, interferisse na forma que Richard de Dury escolheu para falar sobre os livros.

E ele fala coisas bem interessantes e dá conselhos que até hoje, quase sete séculos depois, ainda são extremamente úteis. Como quando trata dos cuidados que se devem dispensar aos livros e de como se deve manuseá-los, procurando manter as mãos limpas e não dobrar páginas nem rasgá-las. Infelizmente, ainda há hoje muitos leitores que precisam ler este capítulo, o XVII. Da mesma forma, no capítulo XIX, ele talvez tenha criado o primeiro regulamento de normatização do empréstimo de livros em bibliotecas. O tal regulamento é um tanto draconiano de uma forma geral, mas pode-se ver, em muitos pontos, semelhanças com o que nos defrontamos corriqueiramente cada vez que pretendemos retirar um livro de uma biblioteca. Os cuidados de uma bibliotecária de hoje não são menores do que aqueles preconizados inicialmente por de Bury.

De qualquer forma, o que importa de fato neste livro é o que ele encerra de paixão, de enorme prazer pelos livros. Um prazer que o levou a recusar todas as regalias seculares, financeiras e políticas que seu cargo poderia lhe dar para trocá-las por mais livros. Se alguém quisesse agradar ao chanceler de Eduardo, que não lhe adulasse ou lhe presenteasse com jóias, dinheiro ou possibilidade de riquezas, mas que lhe desse volumes e mais volumes, pergaminhos e manuscritos. Para ele, esse era o reino de Deus na Terra. Em um momento como o que vivemos, quando se discute – por mais absurdo que possa ser – o futuro do livro e até de sua validade como objeto, e que tantos se empenham (ainda) para fazer da leitura algo realmente prazeroso, antes de ser uma obrigação, essa obra de Richard de Bury se reveste de uma importância adicional. O bom e velho prelado, que dedicou sua vida a lotar estantes com bons títulos, ainda tem muito a dizer.

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