Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA & COMUNIDADE

Desconfiança infundada

Por Gianni Vattimo em 10/02/2004 na edição 263

Devemos continuar desconfiando da noção de comunidade? A sociologia do século dezenove agarrou-se a esta desconfiança, lendo a distinção entre Gemeinschaft e Gesellschaft, de Toennies; e depois teve de assistir aos horrores dos racismos – Blut und Volk (Sangue e Povo), Blut und Erde (Sangue e Terra) – que mascaravam e mascaram ainda hoje o seu tosco biologismo com o apelo às raízes comunitárias deste ou daquele grupo social. Daí, a legimitidade duvidosa e a impopularidade generalizada no pensamento social ‘iluminado’ (podemos dizer de esquerda?) da comunidade. Tanto mais justificadas quanto mais – mesmo aí onde não subsistem riscos imediatos de retorno do racismo em sentido literal – se apela freqüentemente à comunidade para desonerar o Estado e as instituições públicas de seus deveres fundamentais, por exemplo no campo da assistência.

E termina se fazendo disto um argumento para reforçar o familialismo mais tradicionalista e carola. Velhice e doença são condições que podem, e segundo essas posições devem, ser antes de tudo o campo da intervenção da família, na qual, naturalmente, cabe à mulher manter o seu papel de esposa e mãe, de anjo do lar, guardiã como Antígona, mas sem qualquer rebelião revolucionária contra o poder constituído (este também legitimado como o paterno: omne paternitas a Deo, logo sacralizado), dos lares e da moral familiar. Não só da moral própria de uma determinada família, mas da moral ‘da família’ em geral, em que família é o valor central.

Nesta ligação da idéia de comunidade e idéia de família (monogâmica, heterossexual, indissolúvel, possivelmente proprietária e por isto mesmo também fechada para o exterior…), estão quase todas as razões, justas, para repudiar a noção de comunidade ou, pelo menos, para considerar a forma de socialidade a que ela alude como uma fase provisória da experiência social, uma espécie de infância ou adolescência à qual não se pode ficar aferrado, sob pena de fracasso de todo esforço de amadurecimento.

Mas, por um lado, nada obriga a comunidade a ser deveras modelada pela família patriarcal da nossa tradição católica e ocidental. Por outro, não obstante a devida desconfiança para com todo laço orgânico, imediato e para com os pertencimentos instintivos que não fornecem razões explícitas para a sua validade, na sociedade contemporânea – que tende a uma globalização cada vez mais acentuada e à afirmação de laços ‘mecânicos’, contratuais e racionais no sentido da pura racionalidade funcional – é a própria exigência de liberdade que compele a uma reconsideração positiva da comunidade e do espírito comum, a que se dedica esta pesquisa de Raquel Paiva.

Quanto a este último aspecto do problema, é por demais evidente que o fim da comunidade – familiar, de bairro, de paróquia, de região, etc. – tem significado também da dissolução daquele pano de fundo de valores comumente aceitos que garantiam uma certa ordem social sem a presença de um policial em cada esquina da rua. Uma manifestação macroscópica disto é hoje o problema (com freqüência artificialmente enfatizado, como nos Estados Unidos, para fins de intensificação do domínio social) do terrorismo, que ameaça as sociedades altamente integradas, mas apenas no sentido mecânico e convencional, como as nossas. Se não podemos contar com controles poderosos de superego, com a disciplina internalizada que os indivíduos levavam inscrita em seu íntimo nas sociedades tradicionais (a moral do rebanho, segundo a expressão de Nietzsche), então não resta senão recorrer a um controle externo cada vez mais capilar.

As sociedades moderna e tardo-moderna em que vivemos arriscam-se (mas agora é muito mais do que um risco) ao autoritarismo, precisamente por causa do ‘liberalismo’ que tentaram realizar. Daí a invocação, que ouvimos repetida em tantos sermões, metafóricos ou reais, em favor de um retorno à sacralidade da vida, aos valores da família, ao respeito das raízes do espírito de comunidade. Mas, exatamente: é de comunidades modeladas por esse familialismo beato que precisamos? Como italiano, permito-me recordar que um sistema de regras patriarcais e uma terminologia estritamente familialista são justamente aqueles que vigoram na máfia. Nem este mau exemplo da máfia, nem contudo a nostalgia beata da comunidade fechada de cidadezinha e de paróquia, com todos os seus pretensos valores e os inevitáveis exageros de hipocrisia (o ‘sale petit secret’, de que falava Deleuze a propósito da família), bastam para fazer esquecer as (boas) razões que temos (e que a autora deste livro repensou com rigor) para desejar uma redescoberta da comunidade que não coincida com o puro e simples repúdio da nossa herança moderna e da própria noção de razão.

Como é fácil de entender, repropor o problema do espírito comum – de resto, em analogia com a revalorização do ‘senso comum’ em Gadamer e na hermenêutica, como é bem visível no trabalho de Raquel Paiva – é só um modo, não tanto marginal e periférico, de refletir sobre a modernidade e o próprio conceito de razão. A hermenêutica e com ela também em muitos sentidos uma teoria, como a habermasiana, do agir comunicativo e em geral os avanços neopragmatistas da filosofia pós-analítica anglo-saxônica têm mostrado que a razão moderna e as ciências experimentais da natureza, com as suas cada vez mais assombrosas implicações técnicas, não podem prescindir de um enraizamento histórico-cultural, que é exatamente algo muito mais parecido com a comunidade do que com a sociedade fundada em suas estipulações explícitas. Mas, como se vê – quando se reflete sobre o sentido absolutamente não ‘reacionário’ que o espírito comum assume em teorias filosóficas como essas, nas quais funciona, se for o caso, como um choque salutar que manda pelos ares muitas certezas e a própria idéia de objetividade, na qual se fundaram tantas pretensões de classes e hierarquias dominantes – é bem possível que a comunidade e o espírito comum não funcionem exclusivamente como forças de conservação, nem como legitimações de formas de autoritarismo.

Será ‘espírito comum’ aquilo que se exprime no carnaval do Rio (podemos assumir que Raquel Paiva tenha em mente também isto?). E de resto também o espírito do carnaval brasileiro não nasce do nada, provém da feliz contaminação da tradição ocidental com formas de cultura diferentes, que talvez tenham conservado um espírito de comunidade mais autêntico precisamente porque não fizeram dele um princípio explícito de legitimidade autoritária.

É um pouco como o nosso sentirmo-nos espontaneamente italianos, brasileiros, europeus, africanos; quando escolhemos um alimento ou quando joga a seleção nacional de futebol, ‘sentimos’ uma participação que não saberemos justificar racionalmente e, nesta medida, sempre nos envergonhamos um pouco disto. Mas nos envergonhamos sobretudo quando alguém, em nome desse sentimento, também sempre um pouco jocoso, como as piadas dialetais que contamos entre conterrâneos, nos pede para ir à guerra, golpear o inimigo, o estrangeiro, o outro de cor, de religião, de origem. Então talvez façamos bem lembrarmo-nos do carnaval e começarmos a cantar, dançar ou rir.

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