Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > PLATAFORMA ELEITORAL

Dia do Professor em época de eleição

Por Gabriel Perissé em 19/10/2010 na edição 612

O Dia do Professor deste ano coincidiu com a disputa em segundo turno pela Presidência da República. Sem esta circunstância em jogo, os candidatos Dilma e Serra não se sentiriam chamados a se manifestar, pelo menos em tenso clima de campanha, sobre a realidade e o futuro da educação. A duas semanas da decisiva votação, como pretendem nos convencer de que é possível uma educação de qualidade no Brasil? E como vão conquistar os professores brasileiros, uma das categorias mais (romanticamente) louvadas em sua data comemorativa e tão desvalorizada ao longo das últimas décadas, do ponto de vista profissional e salarial?


Entre as grandes contribuições de José Serra para as escolas de São Paulo aponta-se a ideia de que haja ‘duas professoras’ nas salas da 1ª série do ensino fundamental. Não se esclarece, porém, o que em outros momentos Serra admite. Que se trata, não de uma segunda professora, mas de uma estudante universitária que recebe uma ‘espécie de bolsa’ (cf. entrevista para o programa Roda Viva, em 21/06/2010). Uma ‘auxiliar’ sem experiência, em situação tão ou mais precária do que a dos milhares de professores temporários na rede de ensino estadual de São Paulo (ver, neste Observatório, meu artigo ‘O temporário e o precário‘).


O programa do PSDB no dia 15 de outubro, veiculado no rádio, quis descolar Dilma da performance petista: ‘Não consegui lembrar nada que a Dilma tenha feito pela educação’, disse um dos locutores. E a outra respondeu: ‘É que ela mesma realmente não tem mesmo nada pra mostrar.’


Condições de trabalho


No mesmo dia 15, na TV, a propaganda de Dilma mencionou, com relação à educação, que a futura presidenta pretende construir muitas creches e escolas, além de criar mais escolas técnicas. No rádio, a mensagem de Dilma foi objetiva e sóbria: ‘Não basta celebrar o mestre, mas sim, valorizar de fato o seu trabalho, garantindo formação continuada e remuneração digna.’ E sobre isso insistiu, quase com as mesmas palavras, ao despedir-se no debate do dia 17 de outubro, pela Rede TV.


José Serra proclama ter ‘carinho pela educação’, coisa que os docentes desmentem, em especial os que trabalham em São Paulo e experimentam há quase duas décadas o ‘carinho’ do PSDB, incluindo os cassetetes dos policiais. Um crescente número de professores universitários, de instituições públicas e privadas, acaba de lançar um manifesto, cujo texto começa assim:




‘Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.’


A Folha de S.Paulo, que apoia as medidas do governo do PSDB na área educacional, mostrou-se preocupada no principal editorial deste domingo (17/10), ‘Estresse na escola’:




‘A última sexta-feira, Dia do Professor, não foi data para muita comemoração. A educação no Brasil vai mal, já se aprendeu. Mas nem todos sabem, ou querem saber, que os docentes também participam dessa tragédia nacional como vítimas.


‘[…] A deterioração dos relacionamentos em classe tem como sintoma mais visível o estresse dos professores – alguns deles submetidos a situações extremas, como ameaças de morte.


‘Por mais que se imagine a ocorrência de abusos na concessão de licenças médicas por problemas emocionais, os números chamam a atenção. De janeiro a julho deste ano elas chegaram a 19.500 na rede estadual de São Paulo.


‘[…] O governo estadual precisa fazer algo a respeito, mas o alcance de sua ação é limitado. Seria um bom começo melhorar as condições gerais de trabalho, aprofundando as políticas de reduzir a um mínimo as vagas de professor temporário e de valorizar a função, por meio de aumentos na remuneração básica ou de prêmios por desempenho e requalificações.’


Mais empenho com trabalho de Haddad


Se depender do ‘carinho’ do PSDB pela educação, esse estresse aumentará, com a volta de Geraldo Alckmin, agora sem a ajuda de quem foi outrora seu afilhado político, o ex-secretário da Educação Gabriel Chalita, que contrabalançava, com a visão de mundo ‘cançãonovista’, a truculência típica da direta ‘católica’.


Na hipótese de Serra vencer, o modelo paulista será transplantado para todo o país. O MEC voltará para as mãos de Paulo Renato Souza. O bônus (ver meu artigo ‘Mais ônus do que bônus‘, neste OI) e a auxiliar na sala de aula, medidas tacanhas e insuficientes, serão implantadas Brasil afora. Teremos na educação um triste passado pela frente!


Por seu lado, Dilma tem a seu favor as realizações do MEC, à frente do qual Fernando Haddad está entre os ministros que mais contribuíram para a boa avaliação da gestão Lula. A luta pelo piso salarial mínimo do professor, o ProUni e a criação e expansão das universidades federais são algumas das muitas iniciativas que a candidata do PT deveria divulgar com mais ênfase, reações positivas à queda de qualidade do ensino a que assistimos desde a década de 1980.


Dilma teria de apropriar-se com mais empenho do trabalho de Haddad. Sua assessoria considera essa questão menos relevante? Se eleita, terá de confiar em alguém à altura do que o atual titular da pasta realizou desde 2005. Esse trabalho de cinco anos ainda trará boas notícias até o final de 2010, como a oficialização do esperado Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/10/2010 Cristina Borges

    Como professora me impressionou este ano que nem as tradicionais instituições que celebram o professor se manifestaram este ano: MEC, Editoras em geral, Universidade, escolas. Salvo uma outra propaganda alusiva à data, não vi mais que isso. Sendo a mais presente a campanha da Editora Moderna que está na TV. Sinal dos tempos ou da deterioração da educação? Dos dois pois apesar das realizações do sr. Haddad, a educação simplesmente não é prioridade no país. Se a educação superior avançou, isso é bom, mas a educação de base e especialmente a educação do ensino médio está um desastre! Fora isso, ser professor é uma profissão sem futuro e por isso que valor se pode dar àquele profissional muitas vezes cansado/impaciente que está na sua frente? Sim, existem ainda os que fazem a diferença, mas não podemos depender deles somente. A escola tem que ser modificada não com computadores, mas uma gestão que implemente mudanças administrativas e educacionais. Menos alunos em sala, programas de formação, opção de ensino técnico, esporte integrado, segurança, funcionários administrativos, enfim. No dia em que o Brasil quiser investir na escola não falta idéias, falta visão de futuro, falta honestidade.

  2. Comentou em 24/10/2010 Aline da Cruz

    Caro Professor Perissé,
    Obrigada por colocar a Educação em pauta, de maneira séria aqui neste OI. Vale lembrar que os estados de São Paulo e Minas Gerais, embora estejam entre os estados mais ricos do Brasil, pagam aos professores menos que outros estados bem mais pobres como Alagoas, Maranhão, Acre, Amazonas. Não entendo porque Dilma não aborda esse tema nos programas com mais ênfase. Perdemos muito tempo falando de bolinha e pouco do que interessa ao Brasil.

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