Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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ARMAZéM LITERáRIO >

Dispois que nóis vai, dispois que nóis vorta

Por Alberto Helena Jr. em 08/06/2004 na edição 280

Seu busto deveria estar na praça Don Orione, no coração do Bexiga, bairro que o adotou e por ele foi adotado. Mas, numa certa madrugada mágica, a estátua desmaterializou-se para, dizem, reaparecer nos jardins do parque São Jorge, sede do Corinthians, paixão de toda a sua vida e, como ele, um dos mais poderosos ícones de São Paulo, num desses lances plenos de simbologia das idas e vindas do nosso personagem pela cidade, sob seus mais variados disfarces, nomes e pseudônimo – embora a imagem definitiva tenha sido esculpida na memória de todos por trás do bigodinho fino e finório, do chapéu à la Walter Huston em Tesouro de Sierra Madre, da gravatinha borboleta e do sorriso mediterrâneo faiscando mais nos olhos pequenos e agudos do que nos lábios embutidos.

Contudo, o monumento que o define melhor e sobre o qual seu espírito paira até hoje é a praça da Sé, centro histórico da cidade que ele interpretou e cantou por mais de meio século. Pois a Sé, ainda que várias vezes remodelada, é o centro nervoso de São Paulo, de onde se irradiam e para onde convergem todas as vertentes e tendências de uma cidade que não se cansa de trocar de identidade – tal qual nosso herói, nascido João Rubinato e imortalizado como Adoniran Barbosa, ora cantor, ora compositor; ora ator dramático, ora escrachado humorista; ora malandro, ora otário e assim vai.

Assim como a praça que lhe mereceu versos eternos, Adoniran foi a confluência das mais variadas culturas que compuseram essa metrópole em permanente mutação e dos mais significativos tipos que por ela transitaram, dos anos 1930 aos 1980: os imigrantes italianos, espanhóis e portugueses do Brás e do Bixiga, o judeu da José Paulino, o turco da 25 de Março (que nunca foi turco, mas sírio ou libanês), o crioulo da rua Direita, da Barra Funda, da Casa Verde ou da Vila Ré, o caipira, o nordestino e o japonês da Liberdade, enfim, esse caleidoscópio de etnias, culturas, falas e jeitos que constróem e reconstróem a cidade sem parar.

Único como artista e pessoa, Adoniran, porém, é uma obra coletiva – a personificação de todos esses tipos, filtrados pela sensibilidade de ilustres companheiros que com ele conviveram ao longo de sua vida.

E é esta busca pelos caminhos e gentes que confluem e se irradiam do artista o truque essencial deste livro indispensável: Adoniran – Uma Biografia. Uma biografia que Celso de Campos Jr. fragmenta em tantas outras dos amigos, colegas, emissoras de rádio e TV por onde passou Adoniran, a partir do minucioso relato da emblemática vinda por mar da família Rubinato ao Brasil, saga que se confunde com a de todos os imigrantes que para cá vieram no final do século XIX. (Lendo-o, era como se estivesse ouvindo tio Chico contando as peripécias dos meus avós, que sempre terminava numa galhofa típica: Maledetta la nave che m’a portato in Brasile!)

Já na terra onde se encontrava ouro nas ruas repletas de cobras, como grifava o imaginário do imigrante, a dura realidade, o périplo pelo interior paulista, o nascimento do menino João, em 1910, e sua busca por um lugar ao sol. Ou melhor: sob os holofotes que, já adulto, o atraíam para os palcos da vida.

Tentou, em vão, ser cantor; em vão, tentou ser compositor. Virou humorista, mas a luz só se fez mesmo quando por seu caminho cruzou a iluminada figura de Osvaldo Moles, um homem da renascença moderna, com traços de enciclopedista – pioneiro da publicidade eletrônica, radialista, poeta, roteirista de cinema e cronista maior da cidade, legítimo herdeiro de Mário de Andrade, Alcântara Machado e Juó Bananere.

Relíquias do velho bairro

Moles, como me contava Raul Duarte, outro gênio da radiofonia paulista, mantinha em sua mesa de trabalho na antiga Rádio Record três máquinas de escrever, devidamente municiadas de papel. E, ao mesmo tempo, se utilizava das três para, num vertiginoso e hipnótico batuque, produzir dois ou três programas que, minutos depois, entrariam no ar. Era um prodígio.

Mas prodígio maior do que sua habilidade nos teclados era seu olhar sobre a cidade, vasculhando tipos e situações que transformaria em programas de rádio, crônicas de jornal ou peças publicitárias. As poucas horas de folga Moles passava ali no Bar Viaduto, ouvidos antenados nas conversas dos transeuntes da rua Direita, de cuja fala ia colhendo verdadeiras pérolas de sabedoria e graça, com as quais foi construindo um novo idioma, mistura rica e jocosa do linguajar dos italianos, dos espanhóis, dos crioulos, dos caipiras, enfim, esse ‘paulistês’, que Adoniran cristalizou e difundiu por meio de seus personagens famosos, como o eterno Charutinho, e de seus sambas memoráveis.

Porém, talvez por ser paulistão e ter se dedicado a um veículo considerado menor pelos acadêmicos em geral, Moles jamais mereceu as honrarias que a cidade e os intelectuais continuam a dever-lhe, embora, por tabela, ao honrar Adoniran com seu texto primoroso, na contracapa de um disco produzido pelo Pelão, mestre Antonio Candido o reverenciasse também. Pois Celso de Campos Jr., neste precioso livro, não só resgata a figura de Moles como lhe dá a dimensão de grandeza que foi sua obra, ceifada tragicamente em 1967, quando, de saco cheio, deu um tiro na cabeça.

E segue, página a página, o desfile de figuras, fatos e cenários que constituíram esse mundo singular e ao mesmo tempo tão trivial de Adoniran, com a exumação de textos de programas que julgavam-se perdidos para sempre.

De todos, porém, os que mais se confundiram com nosso personagem foram os Demônios da Garoa, que, com sua verve musical, acrescentaram tempero ainda mais saboroso aos sambas do mestre. Foi uma via de mão dupla, fechada, num determinado momento, por um mal-entendido entre o conjunto e Adoniran.

Aliás, Adoniran também tinha lá seus rompantes. E, quando se desagradava de alguém, ao vê-lo aproximar-se não virava a cara, nem saía de banda. Ficava ali sentado, soltando um assobio que quem não o conhecesse julgaria ser mais um samba em gestação. Não falava nada, nem respondia. Só ficava soltando o silvo desconexo até que o sujeito fosse embora.

Certa vez, o produtor Walter Guerreiro, que havia montado uma das primeiras produtoras independentes de rádio e TV por aqui, me ligou dizendo que queria fazer um programa com Adoniran e que o velho só fez uma exigência: quem deveria entrevistá-lo deveria ser eu.

Topei, na hora. E, numa tarde cinzenta, parti para o estúdio, que ficava na rua Groenlândia, nos Jardins. Enquanto procurava o número certo da casa, deparo com uma antiga e mal resolvida paixão. Conversa vai, conversa vem, acabamos vendo o sol se pôr no parque do Ibirapuera. No dia seguinte, Walter Guerreiro voltou a me ligar: Adoniran me esperara a tarde inteira, até de noitinha, não fez o programa e partiu amargurado pela falseta do amigo.

Dias depois, encontro-o ao lado do Carlinhos Vergueiro, num banco da TV Bandeirantes. Sento-me ao lado dele e, pronto!, lá vem o assobiozinho sinistro.

– Posso falar, posso? – emendei, numa falsa imitação do mestre.

Entendi o interregno do assobio como um sim. E lasquei:

– Foi muié, Adoniran, muié, tá?

Seus olhinhos se acenderam. A resposta foi a mais safada absolvição:

– Ah, então tá!

Com o tempo, nossos encontros foram se espaçando, e os últimos se deram com Matilde, ali no Bar do Museu do Bexiga, onde ele se deliciava com as histórias contadas pelo saudoso Armandinho Puglisi, o Armandinho do Bexiga, o Adoniran das relíquias do velho bairro.

Como aquela, do funeral do irmão rico do Armandinho, perneta, que ia ser enterrado com um sapato de cromo alemão legítimo, quando se estabeleceu a confusão.

Mas essa fica pra outra, pois, dispois que nóis vai, dispois que nóis vorta, né véio?



Retrato da alma paulistana

[do release da editora]

Adoniran Barbosa, um dos mais celebrados personagens paulistanos, é o tema da pesquisa desenvolvida pelo jornalista Celso de Campos Jr., que está sendo lançada em livro pela Editora Globo. Trata-se da primeira biografia que apresenta com profundidade todos os perfis artísticos do autor de Saudosa Maloca. A necessidade de preencher uma lacuna na trajetória conhecida de Adoniran – sua atuação junto ao rádio, TV e cinema – motivou o trabalho, que consumiu três anos de pesquisa.

Autor e intérprete singular, Adoniran Barbosa (1910-1982) ocupa lugar decisivo junto aos ‘grandes’ da música brasileira. Seu português claudicante e suas canções memoráveis marcaram época e hoje integram o imaginário do brasileiro.

Muito além do campo musical, sua carreira confunde-se com a história do rádio, do cinema, da TV. No rádio, fez sucesso como intérprete e comediante, especialmente na Record de São Paulo, onde criou tipos inesquecíveis como Barbosinha, Charutinho e muitos outros.

No cinema, integrou o cast da Cinédia e da Vera Cruz, destacando-se como o ‘Homem-Arsenal’, personagem de O Cangaceiro, filme de Lima Barreto. Na televisão, além de programas de auditório, atuou em novelas, incluindo Mulheres de areia, de Ivani Ribeiro, na TV Tupi.

A biografia

Um personagem que viveu o século 20 e acompanhou a transformação da pequena São Paulo em metrópole. É assim que Adoniran – uma biografia compreende desde a epopéia da vinda dos pais do compositor, imigrantes italianos, até os acontecimentos em torno de sua morte, na década de 1980. Muito além da narrativa factual, todos os eventos relativos ao artista são inseridos no contexto sócio-político-cultural do Brasil e do mundo – ‘uma panorâmica de fatos históricos’, nas palavras do autor. Portanto, são tratados o fenômeno da imigração italiana, a Revolução de 1932, a época de ouro do rádio paulistano, o ciclo da Vera Cruz no cinema brasileiro, o advento da televisão, a explosão populacional de São Paulo, com a migração nordestina, a chegada do metrô, as expansão das periferias. Assim como os acontecimentos históricos, outros personagens próximos ao biografado são revelados nos bastidores de estações de rádio, emissoras de televisão e estúdios de cinema.

Contudo, apesar do volume de informações, ‘a narrativa se pretende leve e divertida, usando a mesma pitada de ironia com a qual Adoniran temperava sua trajetória artística’, diz Celso de Campos Jr.

Da pesquisa

O primeiro dos três anos de trabalho foi voltado às fontes primárias, levantadas em documentos arquivados no Museu Adoniran Barbosa, no Memorial do Imigrante, no Arquivo do Estado de São Paulo, em jornais e periódicos diversos, e em coleções particulares, como a da família Osvaldo Moles.

Na seqüência, foram realizadas 81 entrevistas com pessoas que conviveram com Adoniran em seus mais distintos campos de atuação. Para citar alguns, o ator e diretor de cinema Anselmo Duarte, o produtor musical Pelão, o parceiro de juventude de Adoniran, Hélio Sindô (hoje aos 90 anos), e o compositor e zoólogo Paulo Vanzolini. Além dos radialistas Randal Juliano e Paulo Machado de Carvalho Filho, o ator Carlos Zara e o desenhista Mauricio de Sousa. Vale destacar ainda a contribuição decisiva da família do biografado, em especial sua filha, Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, e seu sobrinho, Sérgio Rubinato.

Centro e trinta e quatro imagens completam o texto. São fotografias tiradas do álbum de família, stills cinematográficos, cenas de bastidores do rádio, cartazes, documentos, partituras, capas de discos, entre outras. Uma das imagens mais raras é Adoniran caracterizado como o beato Antônio Conselheiro, foto garimpada na Cinemateca Brasileira.

A leitura se torna ainda mais agradável com excertos de roteiros radiofônicos: diálogos de personagens e tipos vividos por Adoniran na Record ¾documentos inéditos recuperados pelo autor e que preservam a memória do rádio brasileiro.

Entre as canções, estão presentes as principais letras e algumas desconhecidas, como ‘Dona Boa’, a primeira música gravada, e ‘Asa Negra’, que faz referência à sua primeira esposa.

O autor

Celso de Campos Jr. nasceu em São Paulo (SP) em 1978. É jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e conclui o curso de história na USP. Foi repórter da Revista Já, do Diário Popular e colaborou esporadicamente com a Folha de S. Paulo, Correio Braziliense e Valor Econômico. Estreou nos livros em 2001, como co-autor de Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. Desde 2002, é correspondente no Brasil da revista inglesa FourFourTwo, especializada em futebol. É colaborador das revistas Soccer America (Estados Unidos) e Champions – The Official Magazine of UEFA Champions League (Inglaterra, França e Alemanha).

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