Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > BALZAC ATUAL

Divina comédia humana

Por Maria Fernanda Conti em 01/02/2005 na edição 314

‘O livro As ilusões perdidas é, todo ele, uma tremenda bobagem. Balzac é um escritor medíocre e amargo que, muito provavelmente, cairá no mais obscuro esquecimento. Será mais um daqueles nomes débeis, sobre o qual daqui a alguns anos ninguém terá ouvido falar.’

Fosse o mundo jornalístico tão inevitavelmente aniquilador de seus inimigos – como o descrito por Honoré de Balzac (1799-1850) em sua obra –, comentários como o hipoteticamente descrito acima teriam jogado o escritor no ostracismo e no fracasso. Afinal, a crítica balzaquiana volta-se mordaz para o que considera verdadeira chaga, câncer da sociedade, hipócrita tirania: o jornalismo.

Ainda que a obra deixe transparecer que o famoso escritor não morria de amores pelos jornalistas, é simplista a atitude de resumir o livro de Balzac a uma crítica biográfica à imprensa. O autor tem a genialidade de fundir realidade social a sentimentos abstratos maiores, de construir personagens complexos como são as próprias relações humanas.

As personagens balzaquianas personificam as contradições de caráter, os idealismos, as perfídias, contrastes de sentimentos.

David Séchard e Daniel d’Arthez figurativizam a virtude, a nobreza de atitudes, a utopia. Lucien de Rubempré encerra, na transitoriedade de suas convicções, o sentimento típico do homem moderno, de desencanto e desamparo frente ao mundo. Sua trajetória de meteórica ascensão e queda fá-lo descobrir que não tem liberdade para dizer o que pensa.

Sátira violenta

O quadro pintado pelo autor, dos provincianismos e embates patéticos de uma elite decadente com a pequena burguesia, é constrangedoramente atual.

Também é impiedosamente atual o pessimismo com que trata da questão jornalística, o seu comprometimento com o poder e com a manutenção da ordem estabelecida. Ainda hoje os vícios do jornalismo despertam controvérsias, que em muito fazem lembrar as nebulosas ligações descritas pelo universo balzaquiano. O comprometimento político-partidário, o envolvimento com o mercado editorial e teatral e a crítica literária acabam por extrapolar limites, até recaírem na mais pura chantagem. A inexistência, na época, da publicidade não impediu o escritor de antever a que ponto chegaria essa simbiose entre capital e empresa jornalística.

Vinganças, rixas pessoais, calúnias, amizades convenientes, trocas de favores de toda espécie estão presentes no jornalismo balzaquiano do século 19, como no atual, de grandes conglomerados empresariais.

Ao retratar com maestria a estrutura típica da sociedade em vigor – fruto do processo de consolidação do capitalismo industrial como sistema –, Balzac pinta a imprensa com as cores de sátira violenta.

Contradições humanas

Mas o jornalismo, em todas as épocas, nada mais é que um microcosmo da sociedade na qual se insere. Encerra todas as mazelas e contradições típicas do período e da própria estrutura produtiva que o envolve. Os mecanismos torpes de ascensão individual, a avareza, a avidez pelo lucro, a competição e a conspiração da sociedade contra o indivíduo, bem como o acirramento das rivalidades políticas, são herança do próprio século 19 e da Era Moderna. A imprensa, como instituição social, apenas carrega os vícios de um tempo em que se redesenhavam os quadros de poder e influência.

Balzac via no jornal instrumento de vinganças pessoais, adulações, amizades e ódios efêmeros. Tinha-o por inimigo da literatura, portador de todo o mal. São páginas amargas, belíssimas. A atualidade da obra é surpreendente, como ocorre com toda obra-prima.

O pessimismo de Balzac nos cai na alma, convence. Mas o que fazer?

Se o jornalismo é o microcosmo de nossa sociedade, se estamos dentro dela inevitavelmente, se alimentamos seus vícios e virtudes… As ilusões perdidas nos joga na face nossas próprias contradições, nós, tão humanos quanto julgamos conveniente. Afinal, parafraseando o personagem Lucien, é difícil ter ilusões onde quer que seja. Em Paris ou em qualquer outro lugar do planeta.

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Jornalista formada pela Unesp; com dois colegas, coordena projeto de comunicação inédito com internos de presídio masculino de Bauru, SP

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