Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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História e política na criação do escritor

Por Renato Tardivo em 31/01/2012 na edição 679

Edney Silvestre era, até 2009, um jornalista conhecido do grande público pela carreira bem-sucedida em que acumulara, entre outras, a função de repórter, correspondente internacional e, mais recentemente, entrevistador do programa Espaço aberto literatura, da Globonews – atividade na qual se mostrou um leitor atento e sensível. Não é de estranhar, portanto, que este olhar – atento e sensível – se fizesse presente quando de sua estreia na ficção, em 2009, com o romance Se eu fechar os olhos agora (Ed. Record). Embora se tratasse de um livro de estreia, ficou claro que algo novo e significativo acontecia no cenário literário brasileiro. Silvestre, além de jornalista, passa a ser escritor.

Se eu fechar os olhosagorafaturou diversos prêmios, recebeu leituras elogiosas e vem sendo traduzido em diversos países. Recentemente, o autor publicou seu segundo romance – A felicidade é fácil(Ed. Record) – um belo e atraente livro cuja receptividade também tem sido positiva.

Por e-mail, Edney Silvestre concedeu a entrevista que se segue, na qual fala, sem papas na língua, sobre os seus escritos. O escritor rechaça a expressão “entretenimento” para qualificá-los: “Acho ‘entretenimento’ diminuidor”, confessa. E, embora tenha estreado apenas em 2009, Silvestre diz: “Sempre escrevi ficção”. A respeito das funções de jornalista e escritor, dispara: “Depois de um longo período em que nossos escritores pareciam só ver os próprios umbigos, voltamos a usar nosso povo e os acontecimentos reais na ficção brasileira.” O autor nos conta, ainda, que já está trabalhando em um novo livro “de contos e novelas curtas”, cujo título, como ocorre em seus dois primeiros livros, “igualmente deverá ser a frase de uma das personagens: Boa noite a todos”. E mais não conto, para que o leitor tome contato por si mesmo com as respostas desse escritor que tanto tem a dizer.

***

“A proximidade com a realidade não é o único caminho”

O senhor estreou na ficção em 2009 com o romance Se eu fechar os olhos agora. O livro recebeu excelente acolhida de público e da crítica – amealhou prêmios importantes como o São Paulo de Literatura e o Jabuti de melhor romance. Aliás, para muitos, deveria ter recebido também o Jabuti de Melhor Livro do Ano (categoria ficção), discussão que agitou os veículos sobre literatura e cultura na época. Além disso, o livro vem sendo traduzido em outros países. Quais expectativas o senhor alimentava quando de sua estreia na ficção? E quando escrever ficção se transforma em um projeto?

Edney Silvestre– Sempre escrevi ficção. Sempre gostei. Cheguei a publicar aqui e ali. Mas não julgava minhas tentativas de construir romances com qualidade e originalidade suficientes para publicação. E eu não queria publicar apenas por publicar. Eu sabia que tinha o que contar, mas não encontrava o caminho. Tentei muitos. Finalmente, em 2003, me pareceu que o havia encontrado. E fui por ele. Mas levei mais de quatro anos, escrevendo, parando, reescrevendo, editando. Só quando terminei o texto de Se eu fechar os olhos agora, em maio de 2009, é que me pareceu ter, finalmente, encontrado a “minha voz”. A aceitação entusiasmada da Luciana Vilas Boas foi o aval que precisava. E, logo que o livro saiu, recebi uma crítica do Manoel da Costa Pinto, na Folha de S.Paulo, que me empurrou enormemente. Depois vieram os prêmios. Em seguida a acolhida dos editores na França, Alemanha, Sérvia, Portugal, Itália e Holanda. Mas quando isso aconteceu eu já estava escrevendo A felicidade é fácil. Nunca imaginei tanto. Achava que se vendesse uns mil exemplares em uns três anos seria ótimo. Não finjo modéstia, confio na qualidade do que escrevo, mas acho que tive muita, muita sorte.

Tanto em Se eu fechar os olhos agoraquanto no mais recente A felicidade é fácil, o contexto histórico, englobando aspectos políticos, econômicos e culturais, é elemento importante da ambiência ficcional. O senhor diria que o ofício de jornalista é o principal responsável por isso? Como o senhor avalia a interface entre a literatura e o jornalismo? Em que medida eles se aproximam e se afastam? Como manejar os limites entre realidade e ficção em um mesmo texto?

E.S.– Depois de um longo período em que nossos escritores pareciam só ver os próprios umbigos, voltamos a usar nosso povo e os acontecimentos reais na ficção brasileira. Não sou o único, evidentemente. Há outros romancistas usando nossa história como pano de fundo, como é o caso do Luiz Ruffato, do Alberto Mussa, do Ronaldo Wrobel, para ficar em apenas três exemplos. Meu contato com a realidade brasileira talvez seja mais intenso porque diário, no ofício de jornalista. Esse contato é de grande ajuda para situar meus personagens e os acontecimentos à volta deles e pode ser percebido com clareza, por exemplo, na composição minuciosa do personagem do motorista/segurança em A felicidade é fácil. A proximidade com a realidade nossa não é o único caminho, claro, possível à literatura brasileira contemporânea. Mas temos uma realidade tão rica, diversa, complexa, exposta jornalisticamente ou não, que a mim inspira e impulsiona. Em nosso passado temos grandes autores ancorados no jornalismo, como Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues.

“Acho ‘entretenimento’ diminuidor”

Os títulos de seus dois romances são frases – aliás, uma única oração. É interessante que as orações aparecem no texto mesmo do livro – recurso mais comum em crônicas, ensaios etc. Qual a importância do título para um livro? O senhor elege o título em que momento do processo criativo?

E.S.– Nunca tive nenhum outro título para Se eu fechar os olhos agoraque não fosse esse. Surgiu com a fala do personagem, enquanto se recorda do momento em que ele e o amigo encontraram o corpo mutilado de Anita, à beira do lago. O mesmo aconteceu logo no primeiro capítulo de A felicidade é fácil, quando o personagem olha pelo retrovisor, em um momento particularmente problemático de sua vida, vê o menino surdo-mudo, completamente abstraído do mundo à sua volta, a desenhar, e pensa que ali, naquele ato tão simples, estaria o que ele nunca teve: a felicidade. O que deve ser o título do meu próximo livro, de contos e novelas curtas, igualmente deverá ser a frase de uma das personagens: Boa noite a todos. Penso que é bom quando um título dá ao leitor uma ponte para chegar ao que o autor pretende lhe contar. Cito exemplos de títulos que me parecem atingir esse objetivo, em romances que não são meus: Domingos sem Deus(Luiz Ruffato), Relato de um certo oriente(Milton Hatoun), Nove noites(Bernardo Carvalho) e A chave de casa, de Tatiana Salem Levy.

A felicidade é fácilé composto por uma escrita ágil, de leitura fluida, que fisga o leitor – o que não reduz em nada sua qualidade literária. Como o senhor pensa a questão do entretenimento na fruição estética proporcionada pelos seus livros?

E.S.– Acho “entretenimento” diminuidor para qualificar o texto de um romance composto pelas vozes de personagens tão diversificados quanto Mara, Olavo, Barbara, Major, Irene, Emiliano, entrecruzando-se e sendo afetados pela história do Brasil naquele agosto de 1990. A leitura fluida, como você menciona, das mais de duzentas páginas de A felicidade é fácilme tomaram quase dois anos. Sim, claro, penso no leitor. É para quem lê que escrevo meus livros.

“Sutilezas e angústias são difíceis de traduzir em imagens”

Em seus dois romances, há uma aura de mistério envolvendo crimes. Provavelmente, esses elementos participam na captura que as histórias provocam nos leitores – ávidos por descobertas. O senhor, no entanto, além dos elementos históricos já mencionados, mergulha na subjetividade das personagens, tão diversas entre si, com sensibilidade e maestria. Como surgiu a ideia de conciliar esses elementos em sua prosa de ficção?

E.S.– Estamos sempre nos perguntando o que nos leva a cometer os atos que cometemos. A história e a política de nosso país interferem em nossas vidas pessoais. A retenção da poupança, logo no início do governo de Fernando Collor, um dos atos mais absurdos e inaceitáveis daquele governo repleto de absurdos e atos inaceitáveis, destruiu pessoas, famílias, esperanças. A violência contra o cidadão, refletida em nossos altíssimos índices de criminalidade, reflete o descaso que ainda existe no Brasil pela vida. Crianças assassinadas, crianças abandonadas para morrer – não para viver – à própria sorte, mulheres violentadas, são fatos infelizmente corriqueiros em nossa sociedade. Escrever sem atentar para isso só me parece possível para quem vive em Marte. Ou, talvez, na Dinamarca.

A felicidade é fácil, do meu ponto de vista, avizinha-se da linguagem do audiovisual. O que o senhor pensa das adaptações de obras literárias para a televisão ou o cinema? O senhor gostaria que seus livros fossem adaptados? Já recebeu propostas nesse sentido?

E.S.– Tive e tenho recebido várias propostas. Não descarto a possibilidade de que meus romances venham a ser transformados em filmes, mas acho as sutilezas e angústias dos meus personagens dificílimos de traduzir em imagens. Claro que as tramas básicas – assassinato, sequestro, incesto – são fáceis de transformar em imagem. Mas e o que se passa internamente com os dois meninos de Se eu fechar os olhos agora, por exemplo? As recordações de Ubiratan, o velho ex-prisioneiro da ditadura de Vargas, viram um flashbackconvencional? E quando ele faz um panorama da transformação de nossa sociedade agrícola para a industrial na época de JK, como ficará? Você sabia que há um longa-metragem baseado no ótimo livro Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll? Pois então…

“O pessimismo é um luxo a que não me permito”

Em A felicidade é fácil, que se passa em 1990, o tema da formação de compromisso, tão caro ao nosso país, é explorado. Lembra, em certo sentido, a novela Vale Tudo(1988), de Gilberto Braga, reprisada com sucesso em 2010-2011 em um canal de TV por assinatura. Aliás, os próprios títulos do seu livro e o da novela conversam entre si. Qual o papel que a crítica e a denúncia assumem em sua poética?

E.S.– Eu não estava vivendo no Brasil quando a novela foi ao ar e não a vejo agora. Portanto, não tenho a menor ideia da trama e nem como opinar sobre sua qualidade ou os efeitos que tenha causado ou ainda possa causar. Um autor em um país como o nosso é, antes de tudo, um cidadão. Que pode ou não ter empatia com as dificuldades que a maioria da população atravessa. Para mim, é doloroso perceber o imenso enriquecimento de alguns, enquanto há tantos brasileiros vivendo em condições miseráveis. A maioria de nossa elite econômica é indiferente aos brasileiros que a tornam tão rica. Gente como o publicitário Olavo Bettencourt e seus associados, personagens centrais de A felicidade é fácil. Isso é lamentável. E é importantíssimo, para mim, criticar e denunciar essa situação.

A temática da infância – mais ainda, do olhar da infância – comparece nos dois romances. Esses olhos veem desgraça, mas também trazem esperança – redenção. O senhor poderia falar sobre isso?

E.S.– O pessimismo é um luxo a que não me permito. Eu esperava ver um país melhor e mais justo ainda na minha juventude, mas o que minha geração passou foi um período de obscurantismo e repressão. Entretanto, a cada momento a vida nos oferece a possibilidade de reconstruir, até aos mais perversos, ou que assim nos parecem, como é o caso de Emiliano, o sequestrador uruguaio de A felicidade é fácil.Até mesmo a estes é oferecida a possibilidade de redenção. Ubiratan, em Se eu fechar os olhos agora, foi torturado e teve a mulher assassinada pela polícia de Vargas e, mesmo assim, manteve a fé na transformação da humanidade. Eu acredito que isso é possível. Mas há, houve e haverá muita dor, até um dia, no futuro, chegarmos lá.

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[Renato Tardivo é escritor e psicanalista, São Paulo, SP]

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