Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > PLANETA GOOGLE

Esmiuçando os lucros do Google

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 07/02/2012 na edição 680

A Googlelização de Tudo, de Siva Vaidhyanathan, ed. Cultrix, São Paulo, 2011

O Google gosta de dizer que é uma companhia do bem, mas de fato é apenas mais uma companhia que visa ao lucro.

“…o Google é o vencedor da corrida ‘tudo ao vencedor’ pelo título de maior empresa de serviços da rede. Em 2010, no meio de uma violenta retração econômica de dois anos que prejudicou todos os setores da economia global e acabou com alguns deles, o Google foi avaliado em US$ 120 bilhões [mais ou menos 204 bilhões de reais] e teve um lucro líquido de US$ 4 bilhões [mais ou menos 6,8 bilhões de reais]. Mais de vinte mil pessoas trabalhavam para o Google em 2010, embora a empresa tenha dispensado alguns milhares de funcionários em 2008” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

Como é exatamente que o Google tem lucro? Esta pergunta é relevante, pois a empresa alega que vários serviços que presta aos usuários (Orkut, Google Earth, Google Book Search, Google Street View, Google Maps etc.) são gratuitos.

“Na era anterior ao Google, as empresas criavam produtos que vendiam aos clientes por meio de uma propaganda que levava informações a compradores potenciais. O Google reconfigurou totalmente esse modelo. Seu próprio produto, como afirmei, é na verdade a atenção e a lealdade de seus usuários. Ao mesmo tempo que fornece a seus usuários as informações que eles procuram, aparentemente sem cobrar por elas, o Google colega gigabytes das informações pessoais e o conteúdo criativo que milhões de usuários seus fornecem gratuitamente à rede todos os dias, e vende essas informações a anunciantes de milhões de produtos e serviços. Através de seu principal programa de publicidade, o AdWords, o Google faz um leilão relâmpago entre os anunciantes, para determinar qual deles será colocado no topo da lista de anúncios na parte superior ou inferior da coluna à direita de resultados de busca” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

Protestos de rua

O uso do Orkut (e de outros serviços agregados pelo Google) é realmente gratuito, mas isto não quer dizer que ele não produza lucro para a Google ou que isente a companhia de responsabilidade. O especialista em comunicação Siva Vaidhyanathan classificou as atividades do Google em três níveis:

>> Escanear e fazer links – “O melhor exemplo disso é o Google Web Search. O Google não hospeda o conteúdo relevante. O conteúdo fica hospedado em servidores ao redor do mundo, executado por outros e a eles pertence. O Google simplesmente envia suas aranhas (um pequeno programa que ‘rasteja’ pela Internet, seguindo hyperlinks de um arquivo a outro) para que encontrem e copiem em seus próprios servidores, de modo que possa oferecer links para o conteúdo original por meio de pesquisa na rede” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

>> Hospedar e servir – “…da qual os melhores exemplos são o Glogger e o YouTube [este é o caso do Orkut, em que os usuários cadastrados hospedam conteúdos nos computadores do próprio Google]. Nesses casos, o Google convida os usuários a criarem e carregarem os conteúdos nos próprios servidores da empresa” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

>> Escanear e servir – “Nessas atividades, o Google esquadrinha o mundo real, põe as coisas reais em forma digital e oferece-as como parte da experiência Google. Os dois melhores exemplo são o Google Book Search, que provocou objeções e processos por parte de autores e editoras do mundo inteiro, e o Google Street View, que desencadeou verdadeiros protestos de rua e ações governamentais” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

Impactos positivos e negativos

Das três atividades catalogadas, o Google só não pode ser responsabilizado pela primeira atividade (Escanear e fazer links), pois a empresa não é criadora ou autora dos conteúdos nem os hospeda diretamente em seus servidores. Nos dois outros casos (hospedar e servir e escanear e servir) a empresa pode e deve ser responsabilizada, pois mesmo que estes serviços sejam gratuitos, o Google hospeda os conteúdos nos seus computadores e utiliza as informações pessoais dos usuários para criar perfis de consumo que possa vender aos seus anunciantes.

A alegação do Google que não pode, por exemplo, ser responsabilizado pelo conteúdo ofensivo postado no Orkut é rigorosamente verdadeira. Mas isto não quer dizer que a empresa não possa ser responsabilizada por ter mantido o conteúdo ofensivo após o ofendido ter requerido a retirada do mesmo da internet. O Google, a exemplo de todo e qualquer litigante em Juízo, não quer ter responsabilidade alguma por suas ações e omissões e este fenômeno foi notado até pelo especialista citado:

“Em resposta a reclamações sobre seu comportamento, os executivos do Google respondem que ficarão muito satisfeitos em eliminar conteúdos ofensivos ou problemáticos desde que alguém tome a iniciativa de informar a empresa a respeito de sua existência. A empresa não quer ser considerada responsável pelo policiamento de suas coleções, inclusive por aquelas que simplesmente não existiriam se o Google não as agregasse ou criasse. Por meio de seu extraordinário poder cultural, o Google consegue se manter a salvo de muitas ações regulamentares em todo o mundo” (A Googlelização de Tudo, Siva Vaidhyanathan, Cultrix, São Paulo, 2011).

Apesar de tratar de questões muito técnicas, o livro de Siva Vaidhyanathan foi escrito para o público em geral. Aborda temas relevantes de uma maneira bastante profunda, séria e equilibrada. Os impactos positivos e negativos da criação e expansão do Google para o mundo do jornalismo e da publicidade são cuidadosamente abordadas pelo autor, que dá um panorama de várias disputas entre o gigante da internet e os conglomerados de comunicação ao redor do mundo. Leitura obrigatória para qualquer um que se interesse por cibercultura.

***

[Fábio de Oliveira Ribeiro é advogado, Osasco, SP]

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