Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > TEMPOS MODERNOS

O jornalismo e seus filtros

Por Washington Araújo em 07/02/2012 na edição 680

O mundo se encontra em um impasse, mas não percebe nem sua natureza e nem suas consequências. Qualquer observador minimamente informado da cena internacional nota sinais evidentes de que existe uma ruptura profunda na vida organizada das nações. E isso é muito bem retratado nos meios de comunicação.

A matéria-prima por excelência de todo o aparato midiático (rádio, jornal, TV, internet) é o irromper de crises políticas (queda de presidentes, primeiros-ministros, ministros, impeachment, golpes de Estado, corrupção, eleições fraudadas), crises econômicas (países decretando moratória, quebra de bancos e de grandes empresas, desemprego em alta, corrupção), crises climáticas (superaquecimento, inundações, secas), crises morais (Big Brothers, invasão de privacidade, apologia da prostituição e libertinagem em programas da tevê aberta), crises religiosas (fundamentalismo religioso, pedofilia praticada por clérigos, escândalos financeiros, sectarismo e dissidência, corrupção), crises da imprensa (partidarização política, notícias plantadas, grampos telefônicos, concentração de propriedade dos meios).

Existem também aquelas crises pontuais, como a compra (e venda) de monografias e teses de graduação, mestrado e doutorado na área acadêmica; a corrupção no Judiciário em seu flanco mais evidente, que é venda de sentenças proferidas por “Suas Excelências” togadas; a manipulação da compra de passes de jogadores e de resultados de jogos de futebol e a corrupção para a manutenção de presidentes de clubes, federações e confederações dos esportes.

Parece-me correto afirmar que se todas estas “pautas” relacionadas aos vários tipos de crises deixassem de comparecer diariamente ao noticiário, teríamos brutal crise de conteúdo – os jornais, revistas e os telejornais encolheriam em 80% e os programas de rádio em 50%. Convenhamos: o principal papel da mídia é noticiar o que acontece no mundo; e se este é ciclotímico, alterna momentos de prosperidade com depressão, tempos de guerra com tempos de paz, períodos de crescimento com períodos de estagnação, nada mais natural que esses assuntos sejam capas de jornais, revistas, escalada diária de telejornais, objeto de comentaristas nas emissoras de rádio.

Obrigação constitucional

Nos últimos 70 anos, mais de uma centena de nações vieram à existência. Antes existiam apenas na forma de protetorados, dependentes de nações imperialistas que se proclamavam colonizadoras e, dessa forma, exploravam o trabalho humano e, principalmente, os recursos naturais de cada porção de terra anexada por meio de guerras e outros conflitos bárbaros em que o poder de fogo dos armamentos de seu império representava a lei e, com esta, buscava legitimar a opressão de uns sobre outros.

Nesse período relativamente recente em que a maior parte das nações foi constituída, os meios de comunicação passaram a vocalizar os anseios dos governantes e dos governados. Não raro tinham influência decisiva nos destinos das nações, abrindo ou fechando espaço a ideologias políticas. É quase impossível mencionar o nome de um país sem que tenhamos em mente qual o seu principal jornal, embora desconheçamos o nome de um de seus governantes proeminentes.

Se pensamos na França, logo percebemos que a visão que temos da França passa quase que unicamente pelo filtro do Le Monde. Alemanha vemos pelas lentes do Der Spiegel ou do Frankfurter Allgemeine. Portugal assume as tonalidades do Público. A Argentina se anuncia com o Clarín. Os Estados Unidos da América se revela por inteiro nas páginas do The New York Times e a Itália reverbera nas páginas do Corriere della Sera.

E no Brasil? Não temos um jornal mais importante, melhor, temos três muito similares na abordagem dos problemas e soluções demandadas pela sociedade brasileira. Comecemos a ler O Globo, passemos para qualquer página interna do Estado de S.Paulo e concluamos com um dos muitos cadernos da Folha de S.Paulo e ficaremos com a nítida impressão que estávamos o tempo inteiro lendo um único e mesmo jornal.

A semelhança começa logo nos editoriais: como se parecem na defesa de certos postulados, na crítica ácida a determinados governos e partidos políticos e a louvação incansável a outros de espectro antípoda. Como vivemos no Brasil, podemos avançar um pouco mais no alinhavo dessas percepções sobre a grande imprensa brasileira. Esses três grandes jornais bebem da mesma fonte que as revistas semanais Veja e Época e respiram o mesmo ar que os telejornais da TV Globo.

Tem sido corriqueiro ver que uma revista levanta um escândalo político em um sábado e nos dias seguintes este ecoa, com amplo espaço e usando os mesmos enfoques, nos três grandes jornais do país. Algumas vezes a bola começa sendo levantada pelo Jornal Nacional da TV Globo ou pelo jornal Estado de S.Paulo. A repercussão é garantida por dias e semanas, de acordo com os interesses envolvidos. E todos se unem em copas quando o assunto é a criação de um marco regulatório para as comunicações (rádio e TV) no Brasil: são contrários a qualquer ideia ou princípio de debate. E utilizam o mesmo argumento para obstaculizar o debate já em seu nascedouro: é atentado disfarçado ao que entendem ser liberdade de expressão. Esquecem ou preferem ignorar que o Brasil tem uma Constituição e que nesta encontram-se quatro artigos (do 221 ao 224) tratando, de forma clara e inequívoca, sobre qual é o papel do Estado neste tema. E certamente não é o de tolher a liberdade de expressão.

Direito inalienável

A ruptura social que vemos irromper em tantas partes do mundo tem recebido da mídia não mais que as cores do superficialismo e do sensacionalismo barato: demonstra à larga os fatos picarescos, destaca em alto relevo o que pode indignar facilmente a audiência e o público leitor. Os veículos optam por repercutir um ou outro contorno da situação anômala e renunciam a qualquer exercício mental mais sério, que exija pausada reflexão, profunda meditação e árduo trabalho de reunir os fragmentos que, ordenados de forma sistemática, possam apresentar uma imagem do todo. É porque falta análise, conhecimentos e interesse em mergulhar até onde possam ser discernidas as causas primeiras dos problemas que enfermam porção majoritária da humanidade. E não existem cursos superiores que ensinem os alunos a pensar. Menos ainda a refinar o senso crítico.

O resultado é que encontramos em todos os meios de comunicação essa cultura do lead. Tudo precisa ser muito condensado e muito pertinente a conclusões óbvias. É como se conseguir escapar das armadilhas do pensamento superficial demandasse intenso sofrimento, profunda dor. Longe de poder apresentar à sociedade perspectivas centradas em soluções, mantemos o ciclo vicioso de devolver chavões, palavras de ordem, repetições cada vez mais regulares que satisfaçam de maneira plausível a perguntas circunscritas ao básico do jornalismo – o que?, quem?, onde?, quando?, como?. Necessitamos rever nossos conceitos e ideias sobre imprensa, mídia, comunicação social e sua interação com a sociedade.

E já passa da hora de existirem editorias que abriguem profissionais capacitados a analisar os contextos, as circunstâncias e os personagens envolvidos em crises. E que se disponham a resistir à tentação de usurpar o direito inalienável do leitor – e dos cidadãos – que é o de formar suas próprias opiniões, sem se sentir massa de manobra manipulável por meio de induções rasteiras.

Do contrário, continuaremos a praticar o mero e altamente insatisfatório “jornalismo da crise”.

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