Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > IMPRENSA & OLIMPÍADAS

Recepção ao Cristo em Londres: de braços cruzados

Por Andressa Pesce em 07/02/2012 na edição 680

A cinco meses de Londres 2012, o símbolo da cidade-sede dos Jogos em 2016 causa mal-estar em território alheio. Uma intenção (supostamente secreta) da Embratur vazou na mídia internacional: estuda-se construir uma espécie de minirréplica do Cristo Redentor em Londres para divulgar os próximos Jogos Olímpicos no Brasil.

O projeto enfrenta forte resistência dos moradores da cidade, apoiados pela imprensa local. E-mails encaminhados ao Camden New Journal revelaram as negociações e intenção do governo brasileiro de “celebrar o momento de troca do bastão olímpico de Londres para o Rio após a cerimônia de encerramento no dia 12 de agosto”. Nos e-mails, os organizadores pedem segredo total. O jornal Standard publicou em sua edição do dia 27/01 reportagem sobre o assunto, com o título “Brasil quer escultura gigante do Cristo em Primrose Hill”. Outras matérias na mídia internacional tratam do tema, como a da agência de notícias Reuters (31/01: “No redemption for Brazil London Olympic statue idea”) e a do jornal Daily Mirror (27/01: Planners want mini replica of Brazil's Christ the Redeemer statue in North London).

Nas reportagens, há o predomínio do “medo”. O bairro tem ilustres moradores, como a top model Kate Moss. O principal argumento dos contrários à ideia, segundo as matérias, é que a réplica estrague a vista privilegiada de um dos locais mais altos da cidade. De acordo com a imprensa londrina, a forte oposição entre os 1.100 integrantes da associação dos moradores do bairro já foi manifestada, mais com base na preservação do patrimônio do que por razões religiosas.

Presença desagradável

Percebe-se que os jornais locais dão espaço total às vozes contrárias, tornando indesejado o “projeto brasileiro” em Londres. Em uma das reportagens, um morador dá o recado e unifica o discurso: “Não somos radicais, só queremos que deixem Primrose Hill em paz.” É assim em qualquer lugar do mundo: o jornal local vai priorizar as polêmicas de interesse dos bairros e de seus moradores. Em época de Olimpíadas e intensa visibilidade midiática, Londres é o centro do mundo e não se pode ignorar a dimensão global que adquirem os assuntos “locais”. Na imprensa, as discussões iniciais deixam marcas na imagem do Rio e do Brasil. Os aspectos negativos do projeto relacionam-se não somente à marca Rio 2016, mas também se estendem à ideia de país como um todo (as manchetes consideram a intenção do “Brasil”).

O plano nada secreto da Embratur nem saiu do papel e a ideia nasce fadada ao fracasso, um tiro no pé. Aguardemos a decisão do governo brasileiro. A julgar pela repercussão na mídia internacional, deve haver outras maneiras para uma promoção mais positiva de 2016. Símbolo da paz, uma das novas Maravilhas do Mundo da Cidade Maravilhosa, a mídia local de Londres constrói novos significados à estátua, deixando claro que sua reprodução não é bem-vinda em terras estrangeiras. Os jornais de lá crucificam o Cristo, indicando que sua recepção será, ironicamente, de braços cruzados. Se construída, a réplica restará como uma desagradável presença e constante lembrança do que ainda nem foi e já causa polêmica: os Jogos de 2016.

Leia aqui a matéria do Standard, aqui a da Reuters e aqui a do Daily Mirror.

***

[Andressa Pesce é jornalista, Porto Alegre, RS]

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