Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
Menu

ARMAZéM LITERáRIO >

Estatísticas sem digerir

Por Roxana Tabakman em 21/02/2012 na edição 682

Li com muito interesse a matéria “Vírus 4 da dengue já é predominante no Rio“ (O Globo, 14/2). A epidemia tão anunciada me preocupa, queria me informar. O jornalismo de saúde está melhorando muito no Brasil, mas o que li desta vez não foi uma peça jornalística de qualidade, e sim, um exemplo gritante de não saber o que fazer com números, um dos problemas mais frequentes das matérias que tocam em assuntos médicos.

No texto aparecem, no total, catorze informações numéricas. Demais. Um sintoma de preguiça interpretativa. Começa, logicamente, oferecendo ao publico a cifra que justifica a matéria: a porcentagem dos casos devidos à nova variante do vírus. Em seguida, vem o número de casos novos confirmados laboratorialmente (29) e a diferença com a semana anterior (21). “São muitos? São poucos? É grave?”, me perguntei. Não achei a resposta. As cifras podem dar muita informação ou não oferecer nada. A única conclusão clara foi que a autora sabe calcular uma porcentagem.

Aqueles últimos dados (29 e 21) são completamente prescindíveis, a menos que sejam devidamente explicados. O problema maior é que são o início de uma sequência de informações numéricas sem sentido algum para o leitor de um jornal. Quem não é expert na questão, logo vai se perguntar se não é melhor passar para outro assunto. Uma oportunidade perdida, pois se continuar a leitura até os últimos parágrafos tomará conhecimento de que há previsão de epidemia. Será informado também que, em resguardo da sua vida, o prefeito já fez alguma coisa (definida simplesmente como pacote de medidas preventivas).

Trabalhar os relatórios

Escrever uma matéria exige entender os números nos quais ela se baseia. Infelizmente, a matemática é o talão de Aquiles da imprensa. Não se ensina epidemiologia nas escolas de Jornalismo, mas isto não deveria ser motivo para publicar matérias que não informam.

Neste caso, o editor poderia ter optado por um infográfico e oferecer os dados sem valoração. Quando a decisão é fazer um texto, os números não podem ser copiados dos relatórios oficiais tomando cuidado apenas de não fazer erros de transcrição. É preciso trabalhar com eles. Às vezes, as quantidades precisam ser checadas; outras vezes, avaliadas. A maioria das vezes, os números precisam ser analisados e manipulados. Pequenas mudanças produzem efeitos consideráveis. No jornal do mesmo dia, achei um bom exemplo.

O valor dos números

Elio Gaspari não se especializa em saúde, porém o assunto da sua coluna naquele mesmo dia era o programa federal de remédios gratuitos para hipertensos e diabéticos. O título da coluna já é muito atrativo: “Os remédios pagaram a lavadora“.

O texto não informa apenas que o programa anteriormente mencionado beneficiou 7,8 milhões de pessoas a um custo de R$ 579 milhões. Dá sentido à informação numérica. “Um trabalhador deixou de gastar R$ 452 com remédios e comprou uma máquina de lavar roupa semiautomática”, exemplifica. Não é a diferença entre opinião é informação. O informador sempre procura influir junto ao seu interlocutor, seja para ele decidir fazer alguma coisa – votar em algum partido, por exemplo ou, o mais importante, parar para pensar. E para que a informação deixe resíduo é preciso entender o valor dos números e saber expressá-lo.

***

[Roxana Tabakman é bióloga, jornalista e autora de La salud en los Medios. Medicina para periodistas, periodismo para médicos]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem