Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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ARMAZéM LITERáRIO >

Ficção que lateja na dor dos jardins

Por Laura Greenhalgh em 20/03/2012 na edição 686

Foi tudo rápido. Entre 2008 e 2009 a imprensa nos Estados Unidos viveria o seu annus horribilis e já em 2010 o jornalista de origem inglesa Tom Rachman estreava na ficção com o livro The Imperfeccionists, sobre a crise que contaminou o setor. Foi saudado pela crítica literária americana, ou seja, o entusiasmo veio do despontar de um jovem autor em potente romance de estreia, para o qual Janet Maslin, do New York Times, reservou um veredicto: “A obra é nada menos que espetacular”. Na época, Rachman deu entrevista exclusiva ao “Sabático” admitindo não estar preparado para aquela repercussão, que incluía a notícia de que o ator e produtor Brad Pitt comprara os direitos do livro para o cinema. Pois bem, é no rastro dessa boa trajetória que a Editora Record lança Os Imperfeccionistas no Brasil, também alvo de apresentações e comentários na imprensa local. Sendo assim, nesta breve reflexão sobre um livro do qual muito se fala, procurou-se focalizar duas questões: é arriscado ficcionar em torno da crise de um setor produtivo com profundas raízes históricas e civilizatórias, quando ela está em pleno curso? Seria esta uma obra para ser compreendida e apreciada por leitores não jornalistas?

O pano de fundo deste romance com uma arquitetura original – são duas sequências de short stories separadas no tempo, que vão se alternando para confluir no desfecho da trama – seguramente já estampava as manchetes quando Rachman escrevia. No biênio 2008-2009, falou-se em dezenas de jornais fechados nos Estados Unidos, numa crise que engoliu diários tradicionais de pequenas e médias cidades dos EUA, títulos que garantiram por décadas e décadas a impressionante capilaridade da imprensa escrita americana, fenômeno único no mundo. Sem falar em jornais de prestígio que periclitaram no período, como Boston Globe, Chicago Tribune ou Philadelphia Inquirer, ao mesmo tempo em que o respeitável New York Times assumia um empréstimo vultoso para fugir da situação de insolvência. Tempos difíceis.

O autor de Os Imperfeccionistas, embora desestimule os leitores a buscar correspondências factuais em seu livro, bebeu da realidade e se inspirou em personagens reais. Ao endereçar sua história a um jornal de língua inglesa em Roma, mas com sede em Atlanta, nos EUA, é quase impossível deixar de imaginar que Rachman se valeu de sua passagem como editor pelo International Herald Tribune, em Paris. O IHT é peça de destaque na história da imprensa americana. Foi criado para ser a edição europeia do New York Herald, este fundado em 1835 e durante longo tempo o jornal de maior circulação no país. O pioneiro James Gordon Bennett gabava-se ao afirmar que o seu diário nova-iorquino era o mais influente do mundo. Em 1887, o herdeiro Bennett Jr. mudou-se para Paris para tocar, com mãos e olhos de dono, o jornal do qual decolariam importantes reportagens no continente europeu. Quando o New York Herald deixou de circular em 1966, a operação parisiense foi preservada e mais tarde alvo de uma parceria entre Washington Post e New York Times – que assumiria o controle total do IHT em 2003.

Momento dramático

Em Os Imperfeccionistas, os personagens de Rachman também se veem às voltas com um jornal americano transplantado para uma capital europeia, mas já amargando o fim dos tempos de poder, influência e abastança. Como não associar o sobrenome Otts, dos fundadores do tal diário fictício, com o sobrenome Ochs, dos fundadores do New York Times? Em 1896, Adolph Ochs compraria um pequeno jornal em Nova York, e sua filha Bertha, ao se casar com Arthur Hays Sulzberger, inauguraria a dinastia Ochs-Sulzberger, “a mais importante instituição familiar dos Estados Unidos”, como escreve Gay Talese no ótimo O Reino e o Poder, livro em que conta a história deste que ainda é o jornal mais influente do mundo. Otts, portanto, não deve ser apenas um nome inventado.

Nas duas sequências de histórias, Rachman trata de donos e empregados de jornal. Cyrus Otts, o criador do diário editado em Roma, veste o figurino do media tycoon que explode as fronteiras nacionais do jornalismo americano. Até se mudou para a Itália para viver num palacete forrado de grandes telas – assinadas por Turner, Pissarro, Léger, Modigliani… – e bem perto de sua redação. Tem-se na opulência o retrato de um homem para quem o jornal era simplesmente “o centro do mundo”. Ao longo da história, essas relações de poder e dinheiro mudam, mínguam. É tocante chegar à terceira geração dos Otts na figura do jovem, tímido e inseguro Oliver, que mal consegue interpretar um relatório da empresa e se distrai conversando com o cachorro, o basset hound “Schopenhauer”.

Curioso ver como a mesma crise é vivida pelos funcionários do jornal, americanos também “transplantados” que a todo momento se debatem num processo não só de decadência financeira, mas sobretudo de transformação cultural, em que a profissão perde substância e “centralidade no mundo” para uma atividade midiática superficial, frenética, comprometida mais com o delivery do que com a qualidade da informação. Rachman então monta uma surpreendente galeria de tipos que, ao primeiro olhar, pode assemelhar-se a um elenco de seres desajustados, imperfeitos, mas ao mesmo tempo tão familiares. Profissionais que têm presente em suas mentes e seus corações o ambiente único (talvez insuperável) de uma redação enfumaçada, de tapetes encardidos e cadeiras puídas, mas habitada pelo sentimento de que o mundo cabe ali dentro.

Por essa galeria desfilam o jornalista encarregado de salvaguardar o manual de redação, sujeito maçante que a todo momento lança olhares acusatórios aos colegas; o obituarista que vive a eterna busca pelo morto ideal; o correspondente internacional acometido da típica síndrome de abandono (pela chefia, claro); a redatora sem brilho para a reportagem e que por isso destila o fel da frustração; a editora executiva workaholic que não consegue desligar o BlackBerry; a fria executiva comercial contratada para enxugar custos e ceifar cabeças, ironicamente apelidada pela redação de “Contas a Pagar”. E por aí vai. Inverossímeis ao primeiro olhar, os personagens de Rachman vão se humanizando em tiques, defeitos, ilusões e acima de tudo em sua angústia diante de um futuro disforme.

Sabe-se o tempo todo o que deflagra a crise no jornal em Roma, embora Rachman não enverede pelo mundo digital. A internet paira como figura oculta, assombrando personagens contraditórios, por vezes tragicômicos, que gostariam de ainda sujar os dedos nas tintas do jornal impresso, mesmo sabendo que por pouco tempo. Assim, patrões e empregados, cada um a seu modo, vivem uma espécie de luto. Ressalte-se a coragem de jornalistas como Tom Rachman, que hoje refletem corajosamente, na ficção ou fora dela, sobre o momento dramático de uma profissão que se reconfigura na incerteza. Portanto, a resposta para as duas questões colocadas inicialmente é, a nosso ver, “sim” e “sim”.

***

[Laura Greenhalgh, do Estado de S.Paulo]

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