Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > MERCADO EDITORIAL

Brasileiro consome mais, mas lê menos

Por Eduardo Simões em 03/04/2012 na edição 688
Reproduzido do Valor Econômico, 29/3/2012; intertítulos do OI

Os índices de leitura e os números do mercado editorial no Brasil estão em descompasso. Divulgada na quarta-feira (28/3) em Brasília, a terceira edição da pesquisa “Retratos da Leitura”, do Instituto Pró-Livro (IPL) e Ibope Inteligência, aponta que houve uma diminuição na taxa média anual de leitura do brasileiro. Em 2007, o índice era de 4,7 livros por pessoa, ao ano. Segundo o novo estudo, feito entre junho e julho de 2011, com 5 mil pessoas, em 315 municípios, a média atual é de 4 títulos. Apesar da queda, Karine Pansa, presidente do IPL e da Câmara Brasileira do Livro (CBL), considera positivos os resultados “porque a pesquisa teve sua metodologia e acuidade aprimoradas”.

O estudo mostra que, quando comparamos o acesso a livros comprados, emprestados ou presenteados, houve um aumento na aquisição, de 45% em 2007 para 48% em 2011. De acordo com o mais recente levantamento da CBL e da Federação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), entre 2009 e 2010 houve crescimento de 2,63% no faturamento das editoras. É preciso salientar que apenas 141 das 498 editoras atuantes no país – segundo regra da Unesco – responderam ao questionário eletrônico enviado em 2010 pela Fipe.

Vendas a órgãos públicos

Os indícios do aquecimento do mercado se acumulam. Que o diga Luciana Villas-Boas, que, após 16 anos como diretora-editorial do Grupo Record, já colhe os frutos de sua nova empreitada, a agência literária Villas-Boas & Moss. Luciana comemora vendas de direitos de autores brasileiros, com “adiantamento de cinco algarismos em euros”, para editoras estrangeiras de peso, como a americana Simon & Schuster e a italiana Mondadori. “Pelo meu plano, meus primeiros clientes seriam agências e editoras estrangeiras, interessadas em me confiar suas listas para representação junto ao mercado brasileiro. Depois, viriam os autores brasileiros para o nosso próprio mercado. Somente em terceiro lugar, a representação de brasileiros no exterior”, diz Luciana. “A ordem de andamento dos negócios foi justamente ao contrário. Isso porque tanto o Brasil enquanto tema e ideia como o mercado brasileiro estão hoje muito aquecidos.”

Com uma taxa de leitura inferior até mesmo a de vizinhos sul-americanos – segundo pesquisa do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe-Unesco (CERLALC), abaixo do Chile (com media de 5,4) e Argentina (com 4,6) –, o Brasil é, em tese, um imenso mercado potencial. O governo federal, por meio dos ministérios da Cultura e da Educação, mantêm o Programa Nacional do Livro e Leitura (PNLL), cujas ações englobam a implantação e modernização de bibliotecas e a criação de Pontos de Leitura. Mas são as compras públicas que mais esquentam o mercado nacional de livros.

“Não creio que os programas governamentais de apoio ao livro sejam fator determinante na evolução do mercado, mas as compras de literatura por parte de órgãos públicos para escolas, nos níveis federal, estadual e municipal, são cada dia mais importantes para a indústria”, diz Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva e vice-presidente para Assuntos Administrativos do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel). “Na Objetiva, as vendas aos órgãos públicos representam entre 20% a 25% do total, dependendo do ano. Esse fator explica a intensa concorrência entre editoras pelos direitos de publicação dos autores clássicos da nossa literatura.”

Vendas online e livros digitais

Para Luciana, no entanto, o principal obstáculo a um desenvolvimento da indústria do livro no país é justamente o sistema educacional. “Ele vai contra a constituição de um público leitor condizente com a dimensão populacional. O que torna o momento mais favorável ao mercado editorial é a própria conjuntura econômica brasileira, com melhores índices de emprego e renda para a classe média.”

Feith também salienta que as tiragens de livros têm crescido de forma gradativa no Brasil, mas faz uma importante ressalva: “A pesquisa da Fipe mostra que o número de lançamentos cresce mais do que o número de exemplares vendidos. Isso caracteriza uma disputa maior por espaço no ponto de venda e a atenção do consumidor. E, para se fortalecer nessa disputa, as editoras tendem a aumentarem as tiragens. O problema é que esses aumentos de tiragem nem sempre se traduzem em vendas, o que leva à incidência cada vez maior de devoluções de grandes quantidades de cópias”, diz o editor. “Essas altas devoluções são uma característica dos mercados americano e europeu, que estão passando a ocorrer no mercado editorial brasileiro.”

As fusões e aquisições – como a recente compra de 45% das ações da Companhia das Letras, pelo grupo britânico Pearson –, o aparecimento de inúmeros eventos inspirados na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que comemora dez anos em julho, e a criação da Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece entre 14 e 23 de abril, em Brasília, também apontam para o crescente interesse pelas letras e pelo leitor brasileiro. Outro sinal dessa movimentação é a entrada, ainda tímida, do gigante Amazon. Para livreiros como Samuel Seibel, ter uma loja que funciona como ponto de encontro e polo cultural, como sua Livraria da Vila, é um reforço diante da iminente concorrência da “pontocom” americana.

“Nosso estoque, nosso mix, nossos vendedores, a programação cultural, o programa de fidelidade, tudo é pensado no cliente e na convicção de que as pessoas querem e precisam sair, frequentar lugares, conhecer pessoas, sentir-se parte de um grupo”, afirma Seibel. “Porém é importante destacar que as vendas online são uma realidade da qual iremos fazer parte brevemente, assim como do mundo dos livros digitais.”

Atenção às tendências

Pedro Herz, cuja Livraria Cultura tem mais de uma dezena de lojas no país, trata a expectativa da concorrência com mais investimentos (“No Brasil, quem não cresce fecha”), não vê pela frente um boom com o segmento digital (“Novos e-readers não farão novos leitores”) e não fica tão otimista com a queda do preço médio do livro apontada pelo estudo da CBL/FIPE (34%, desde 2004). Ele ressalta que o potencial do mercado depende de mudanças culturais: “O Brasil é salgado. Comer, vestir, tudo é caro no país. Mas não é o preço do livro que inibe alguém de ler. A leitura é hábito feito em casa. Pais leitores fazem filhos leitores. De modo que o problema é cultural e não financeiro”, afirma o empresário.

Por conta do regime de consignação que domina o mercado, a aferição das vendas, de que resultam as listas de mais vendidos publicadas na imprensa, ainda é imprecisa. As lojas recebem os livros e só pagam pelas cópias que forem comercializadas ao cliente, devolvendo o excedente. De modo que pode haver discrepâncias entre o numero de títulos distribuídos e os efetivamente vendidos. Segundo Roberto Feith, o SNL está desenvolvendo, com uma empresa de pesquisa, um projeto para “a apuração precisa, em tempo real, no caixa das livrarias, das vendas de livro em todo o país”.

Mesmo imprecisas, as listas de mais vendidos continuam servindo de baliza para editores, quando autores ou gêneros, seja a auto-ajuda ou a recente moda das sagas infanto-juvenis, passam a encabeçar o ranking. “É fundamental para o profissional estar atento ao que acontece em sua indústria, e as listas são uma amostra importante do que as editoras estão produzindo com sucesso”, afirma Marcos Pereira, da Sextante, que na próxima segunda fala sobre mercado durante o Polo de Pensamento Contemporâneo, no Rio. “Nós tentamos prestar atenção nas tendências de mercado, mas sem nos afastarmos demasiadamente do nosso foco. Porém, exemplos como a história do Código Da Vinci, que nosso pai teve que nos convencer a publicar, ilustram como devemos, às vezes, nos arriscar em outras áreas.”

***

[Eduardo Simões, do Valor Econômico]

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