Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > LIVRO-REPORTAGEM

A reportagem que percebe o outro

Por Edneide Arruda em 05/06/2012 na edição 697
Sujando os sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, de Ismael Machado

Diz-se há muito que se foi o tempo das grandes reportagens. Com o advento das mídias sociais então, essa prática jornalística parece mesmo ter se tornado coisa do passado. Hoje vale o imediatismo, a instantaneidade, o texto breve, a superficialidade. Vive-se um tempo de liquidez de tudo: de falas, da poesia, da música, da vida, do amor e de pequenas outras coisas.

No mundo do jornalismo, as mudanças são visíveis e preocupantes. Mas nem tudo está perdido. No meio da floresta amazônica alguém ainda grita. É a voz rouca do jornalista Ismael Machado. Um profissional comprometido que exibe a coragem de remar contra as marés destes tempos de jornalismos vários: de entretenimento, piadas, fofocas e celebridades. O feliz contraponto a estes jornalismos cada vez mais sensacionalistas, superficiais e mercantis está exposto no livro Sujando os sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, do jornalista paraense. No livro, Ismael reúne reportagens produzidas entre 2008 e 2011, para o Diário do Pará. Atraentes e suaves, as reportagens, feitas no coração da floresta amazônica – aldeias, garimpos, comunidades quilombolas e ribeirinhas e em um casarão esquecido no centro da capital paraense – mostram o que deixamos de perceber: o outro.

Ao ver, ouvir, sentir e deixar falar este outro, o jornalista dá vez e voz a personagens anônimas. Descrevendo realidades por meio de construções literárias que cortam a alma do leitor sensível, Ismael se fez ouvir. Ao apresentar a obra no prefácio do livro, o jornalista Ricardo Kotscho afirma: “Ao terminar de ler o livro, eu me senti como se estivesse voltando de mais uma reportagem pelas profundezas da Amazônia, com a vantagem de não ter saído de casa.”

Gente simples que tem sonhos

Outro jornalista que sujou os sapatos país afora em busca de uma boa história para contar, Kotscho destaca que Ismael Machado “ainda vai aonde outros repórteres, faz muito tempo, deixaram de ir, para não sujar os sapatos”. Muito procedente, mestre. Atravessando estradas, rios e igarapés paraenses Ismael emprestou seu corpo aos perigos de lugares perdidos no misterioso mundo amazônico, pôs suas mãos a serviço da reprodução de falas que não são registradas pela grande imprensa e arregalou os olhos para ver o homem caboclo: jogadores de peladas, mãe preenchida de dor pela perda de filhos, menina indígena em momentos de rituais ou menina-mãe ainda na infância, a mulher lutadora, quem até hoje revive os duros tempos da guerrilha do Araguaia; quem alimentou o sonho de ouro no garimpo, o bispo que luta pelo direito à inocência, vidas no manicômio, sobreviventes nas ilhas próximas de Belém, camelôs que lutam pela vida, a realidade depois dos áureos tempos das madeireiras e as difíceis vidas nas ilhas próximas de Belém. São todas histórias de uma legião de cidadãos e cidadãs deserdados do estado e desprovidos de cidadania.

Com textos leves, frases curtas e palavras cotidianas, Ismael fala ao leitor pelo coração, e parece acolher as dores, saudades e paixões que seus personagens protagonizam. Na garimpagem de uma história, ele percebe diferenças, avista esperanças, registra reclamações e imprime seu DNA de profissional que, avesso à objetividade jornalística, se emociona com cenas simples e cotidianas. DNA, aliás, outrora exibido em Porto Velho, onde, militando em redações de jornais, na década de 1990, criticava corajosamente o que considerava mau gosto, mau hábito, mau jornalismo.

Já se disse que o bom jornalismo é a arte de contar histórias. Ismael conta histórias excelentes de pessoas reais que nasceram, se criaram e vivem no bioma mais conhecido no mundo. Em suas narrativas, Ismael dá vida aos relatos orais que colheu em andanças por vilas, comunidades e povoados, ouvindo histórias de vida de gente simples e que tem sonhos.

Jornalismo literário

Também revela o conflito existente entre as tradições e o progresso. Conflito, aliás, percebido particularmente entre jovens e velhos indígenas, como se pode verificar numa passagem do texto “O ‘nascer’ social de Crianças Tembé”, no qual o jornalista faz a seguinte descrição: “Chico Rico tem passado os dias na aldeia tembé que fica no Alto Rio Guamá, no município de Capitão Poço. Tem ajudado a repassar aos mais jovens detalhes de antigos rituais que quase se perderam no tempo. Como a língua, que quase deixou de existir. Como as velhas histórias que mantém unido o povo tembé.”

Referia-se o autor, ao ritual “Festa da Moça”, tradição premiada pelo Ministério da Cultura que corresponde a um rito de passagem pelas meninas da fase de criança para a de adolescente. O jornalista descreve a festa a partir de relatos da garota que viveu seu momento de passagem embalada por cantos e danças do povo Tembé.

Ismael fez o que se convencionou chamar de jornalismo literário, também chamado de jornalismo de autor ou diversional – técnica que foge do noticiário superficial e factual. Ao contrário do que se diz, este gênero ainda atrai profissionais que se arriscam a fazer algo para além dos limites, técnicas e regras da redação. São profissionais sabedores de que ainda existem leitores que apreciam ler fatos envolvendo a vida de pessoas reais.

De carne e osso

Segundo Felipe Pena, professor de mestrado e doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, jornalismo literário não significa apenas fugir das amarras da redação ou exercitar a veia literária em um livro-reportagem. Tampouco significa abominar as regras de redação. “Significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lide, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos”.

A notícia de que no meio da Amazônia tem um profissional fazendo jornalismo com letras grandes, de forma humanizada, dando vez e voz a gente de carne e osso que nunca é lembrada pela mídia tradicional é por demais alvissareira.

***

[Edneide Arruda é jornalista]

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