Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > LIVROS & LEITORES

Converter livro em e-book cria novo mercado

Por Bruna Cortez em 10/07/2012 na edição 702
Reproduzido do Valor Econômico, 6/7/2012

Uma tradução bem feita não garante, por si só, o sucesso de um livro estrangeiro, mas é um elemento fundamental para que isso aconteça. As editoras sabem dessa importância e dedicam-se com afinco à escolha de bons tradutores. Agora, porém, com a disseminação do livro digital, as editoras estão tendo de lidar com um novo tipo de tradução: a tecnológica. Verter os textos para os formatos dos livros eletrônicos – que podem ser lidos em computadores, tablets, celulares ou dispositivos específicos para leitura digital – é um processo meticuloso e que requer habilidades específicas. O resultado é que essa demanda deu origem a um mercado nascente no Brasil: o de empresas de tecnologia especializadas em transformar livros em e-books.

A Simplíssimo, com sede em Porto Alegre, e a Kolekto, de São Paulo, são exemplos dessa tendência. Para dar conta da tarefa, parte do trabalho é feita com softwares de conversão, que automatizam o processo. A segunda etapa, mais complexa, requer o trabalho de um programador de sistemas. Esse profissional altera o código principal do programa de acordo com as características do livro. Se a obra é repleta de gráficos ou ilustrações, por exemplo, mais ajustes ele terá de fazer.

À medida que cresce o interesse das editoras pela publicação de livros em formato digital, mais óbvias ficam as oportunidade de negócio na área. Criada em 2010, a Simplíssimo tem cerca de 50 editoras em sua carteira de clientes. O faturamento está por volta de R$ 500 mil por ano. “Nossa meta é conseguir atender mais editoras e ampliar a receita”, disse Eduardo Melo, fundador e diretor executivo da companhia. Desde sua fundação, a Simplíssimo transformou aproximadamente 1,1 mil livros em e-books.

A Kolekto, criada pelos sócios Alexandre Monti, Reginaldo Silva, Ayala Júnior e Carlos Vicente, iniciou as operações em maio. A companhia tem um plano de investimento de R$ 7,5 milhões, baseado integralmente em recursos próprios. A maior parte do investimento será dedicada à infraestrutura tecnológica, mas a empresa já usou uma parcela desse dinheiro para comprar a CodeClick, empresa especializada em aplicativos, como são chamados os softwares com finalidades específicas para tablets e smartphones.

De acordo com Carlos Vicente, diretor de marketing da Kolekto, a aquisição segue a estratégia da companhia de converter livros tanto em e-books como em aplicativos. “Alguns livros não se enquadram nos formatos digitais próprios para e-books porque demandam outro tipo de interatividade, como animações, vídeos e outros recursos”, diz Vicente. “É justamente nesses casos que o aplicativo é mais indicado”.

Outra possibilidade

Por enquanto, ainda são poucas as companhias de tecnologia brasileiras especializadas na produção de e-books. Mas a expectativa é que isso mude rapidamente, com o desenvolvimento do mercado de livros digitais no país. “Há muitas companhias no exterior dedicadas à conversão de livros para formatos digitais ou aplicativos. Tenho certeza que grande parte delas vai se interessar por oferecer seus serviços no Brasil”, afirmou Bill McCoy, diretor executivo da organização internacional de publicações digitais, a IDPF.

Fundada no fim dos anos 90, quando ainda não se ouvia falar sobre livros digitais, a IPDF foi responsável pela criação do padrão tecnológico que hoje predomina no mercado de e-books. Batizado de Epub, o formato não tem proprietário, e é baseado em HTML5 – padrão apoiado pela Apple e seguido atualmente por diversas companhias e criadores de conteúdo.

Mas o Epub não está sozinho. Existem diversos outros formatos digitais para e-books, além dos aplicativos. A escolha desses padrões digitais pelas editoras é um aspecto que divide opiniões.

Esse, aliás, é um problema enfrentado há algum tempo pelos criadores de aplicativos. Para oferecer seu produto em uma das grandes lojas virtuais de “apps”, como esses programas são conhecidos, o programador precisa escrevê-lo com base no sistema operacional adotado pelo dono da loja, como a Apple ou o Google.

Entre os executivos da área editorial ouvidos pelo Valor, a principal preocupação é que transformar um livro em um aplicativo destinado a um único sistema operacional torne a editora refém desse canal de distribuição. Padrões abertos, como o Epub – que é aceito por um número maior de softwares e dispositivos – são uma saída, mas podem deixar a obra fora de lojas de aplicativos de grande movimento, que exigem programas próprios. Outra possibilidade é fazer como muitos criadores de aplicativos e criar versões diferentes do mesmo produto, um para cada sistema. De qualquer forma, há trabalho e custo adicionais envolvidos. As editoras já devem sentir saudades do tempo em que só tinham de se preocupar em traduzir livros para o português.

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Recursos multimídia são desafio

A ideia de um livro digital traz à tona uma série de possibilidades inimagináveis em uma publicação impressa. Animações e recursos de áudio e vídeo são apenas algumas dessas novidades. Mas a despeito da oferta crescente de livros digitais – e do interesse dos leitores pelos recursos interativos -, a aplicação desse tipo de tecnologia ainda está longe de se tornar maciça, disseram especialistas ouvidos pelo Valor.

A principal maneira de usar esses recursos atualmente é desenvolver o livro no formato de aplicativo. Mas nem sempre as editoras estão dispostas a arcar com os custos necessários para criar esse tipo de software. Os formatos próprios para livros digitais, por sua vez, de modo geral ainda não estão preparados para esse tipo de recurso. E há ainda um terceiro impeditivo. “'Rodar' essas aplicações requer uma capacidade de processamento alta, que muitos dispositivos ainda não têm”, disse Eduardo Melo, fundador e diretor executivo da Simplíssimo, empresa especializada na criação de e-books.

A expectativa é que o formato digital mais recentemente criado pela IDPF, organização internacional de publicações digitais, resolva parte desses problemas. Irmão mais velho do Epub, que não tem proprietário, e batizado de Epub 3, o formato foi feito para “rodar” recursos multimídia e de interatividade, disse Bill McCoy, diretor executivo da IDPF. “Durante esse ano, vamos ver um aumento do número de dispositivos que aceitam o Epub 3”, afirmou o executivo.

Apesar disso, os desenvolvedores ainda precisarão de algum tempo para conhecer melhor o Epub 3 e aproveitar as vantagens desse novo padrão. (BC)

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Editoras mobilizam equipes para ajustes internos

Grande parte do trabalho de conversão de livros em e-books tem sido terceirizada pelas editoras, mas essas companhias também têm mobilizado equipes internas para cuidar da tarefa.

“Nossa capacidade é limitada, mas temos profissionais de arte e finalização de texto treinados para fazer pequenos ajustes nos livros em formato digital”, disse Breno Lerner, superintendente da editora Melhoramentos.

A empresa começou a publicar e-books há cerca de três anos. Do acervo de 1,1 mil livros, 200 estão disponíveis em formato digital. Desse acervo, 150 estão à venda em livrarias virtuais e lojas de aplicativos da Apple e do Google. De acordo com o executivo, são necessárias, em média, duas semanas para converter um livro em um e-book internamente. A expectativa da Melhoramentos é chegar ao fim do ano com 400 e-books em seu catálogo.

A Companhia das Letras tem dois funcionários dedicados aos e-books. “Eles ficam responsáveis por fazer pequenas atualizações e ajustes nos arquivos”, disse Fabio Uehara, diretor do departamento digital da editora. De um catálogo de 3,5 mil livros, 358 estão disponíveis em e-book e outros 116 encontram-se em fase de produção. A Companhia da Letras publicou seu primeiro livro digital em 2010. Todo o acervo digital da editora está disponível ao consumidor.

Na Melhoramentos, os dicionários, livros juvenis e de culinária compõem a maior parte do catálogo de e-books. A editora ainda avalia o que fazer com os livros infantis, que exigiriam um investimento maior em recursos interativos e multimídia. “As crianças não vão querer ler um e-book em que o único diferencial é poder virar a página passando o dedo na tela do dispositivo”, disse Lerner.

Já na Companhia das Letras, os lançamentos têm prioridade na conversão para e-book, segundo Uehara. “Mas nosso objetivo é ter a maior parte possível do catálogo disponível como e-book, independentemente do gênero”, disse o executivo. (BC)

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[Bruna Cortez, do Valor Econômico]

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