Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > CENTENÁRIO DE JORGE AMADO

Entre folhas e frutos, a alma de um povo

Por Elisângela S. Bispo em 07/08/2012 na edição 706

O mais ilustre baiano do século 20 veio à luz no ano de 1912 no distrito de Ferradas, em Itabuna. Jorge Amado e sua família viveram apenas dois anos ali, e logo se mudaram para a cidade de Ilhéus, fugindo de uma epidemia de varíola, segundo registros da época. Lá, nas “terras da Gabriela”, o pequeno notável ensaiou seus primeiros passos nas letras, auxiliado pela própria mãe. Embora filho de fazendeiros de cacau, o menino Amado, desde muito cedo, passou a vivenciar a cultura do fruto de ouro em meio à sua gente grapiúna [grapiúna, derivado da palavra graúna, de origem indígena, que significa pássaro preto]. Também aprendeu a admirar o mar, uma de suas maiores paixões – elemento que futuramente seria a base para tecer algumas de suas mais importantes obras.

Jorge cresceu numa época de intensas lutas políticas, tanto locais quanto mundiais. A economia baiana estava em alta, principalmente na região sul, motivada pelas grandes produções e exportações agrícolas. Todo esse desenvolvimento motivou sangrentas disputas por terras, envolvendo coronéis, jagunços e pistoleiros. E foi esse contexto socioeconômico que motivou a inspiração romanesca amadiana da saga do cacau, levando-o a retratar a sociedade de então, tal qual se fazia mostrar. As narrativas eram baseadas em elementos do cotidiano, conferindo à obra um caráter verossímil que poucos escritores sul-baianos conseguiram alcançar com tanta profundidade. Procurou retratar, ao mesmo tempo, o desenvolvimento sociocultural grapiunense paralelo ao abismo social que se formava entre as famílias dos coronéis, os grandes comerciantes e a gente simples e trabalhadora que calejava suas mãos e queimava a sua pele para enriquecer a mesa dos poderosos.

Jorge Amado, embora herdeiro de família abastada, para a realidade da época tinha espírito inquieto. Na fase de militância pelo Partido Comunista Brasileiro, as prisões e exílios nunca puderam conter a “pena” de escritor que permeava seu espírito amante das palavras. Num mundo conturbado pelo estampido dos canhões das grandes Guerras e pressionado pelo capitalismo agressivo que despontava na mesma época, sua visão social crítica deu-lhe sensibilidade para tecer as linhas da saga cacaueira. Seus temas preferidos – exploração do trabalho, o heroísmo e os dramas vividos em meio à monocultura cacaueira – ajudaram a esculpir a alma grapiúna no imaginário mundial. O tom forte, e muitas vezes picante, retratou em letras e prosa a simplicidade de sua gente.

Magia literária

A genialidade do menino do mar, que adotou a Baía de Todos os Santos como oceano de inspiração, ressignificou as experiências de vida do povo baiano, à medida que se apropriou do real para convertê-lo em instigantes textos literários. O que era particular, perdido no tempo entre folhas e frutos, Jorge Amado tornou mundialmente conhecido, tal qual o fez José Saramago ou Federico García Lorca. Para além do contexto de engajamento social, que inspirou e favoreceu o nascimento da obra do cacau, a apropriação de elementos regionais para construção das tramas e das personagens não pode ser reduzida a simples recortes da realidade. A genialidade do autor foi usar a verossimilhança para gravar em papel a identidade da nação grapiúna.

Os elementos descritivos que constituem a saga do cacau são de tão grande nível de complexidade que chegam a tornar a obra muito sinestésica, e por isso mesmo, muito mais profunda em seus significados. Para entender o que estamos dizendo, é preciso mergulhar nessa literatura do cacau com a sensibilidade própria de um leitor sedento de experiências sensoriais. Então será fácil descortinar o mundo por trás das palavras de Jorge, e perceber que a cor da pele dos jagunços e feirantes de Pirangi tem o mesmo tom amarelado e enrugado dos cacaueiros amadurecidos e queimados do sol; o impregnante cheiro das amêndoas secas do cacau é tão atraente quanto o perfume das raparigas do Bataclã. As folhas secas dos cacaueiros, espalhadas pelo chão, recobrindo a terra são como os longos e esvoaçantes cabelos da Gabriela que se escorrem pelos fartos bustos da morena cravo e canela. Talvez, não seria exagero dizer que a maioria dos grapiunenses nascidos há duas gerações só conhecem o Jorge Amado apresentado pela mídia. Nunca tiveram o privilégio de ver as “terras do sem fim” sob a ótica da magia literária. A imagem midiatizada limita e empobrece a beleza da imaginação.

Espírito inquieto

A população local com menos de 40 anos não viveu os tempos das grandes plantações e colheitas como seus avós. Estes, sim, viviam em roças de pequenas ou faraônicas plantações de cacau; ouviram, contaram ou ainda contam diversas histórias e lendas ligadas ao período áureo da economia sul-baiana. Se lhes fossem apresentadas as folhas de Jorge Amado se surpreenderiam com as histórias ali narradas, que se parecem tanto com suas experiências de vida, mas nada mais são que os frutos da imaginação genial de um escritor, que tal como eles também andou por entre as roças de cacau da região, e se misturou com pessoas dos mais diversos lugares que vinham partilhar da mesma esperança dos tempos áureos do fruto dourado.

Para toda essa gente retratada, de alguma forma, em cada personagem da obra, talvez nada seja tão fortemente carregado de significados do que voltar a pisar em folhas secas pelas roças da região. Som que lembra o longínquo vaivém das colheitas generosas da época. Colheitas essas muito mal aproveitadas em benefício da região cacaueira. Pelo mundo afora, mesmo em outros idiomas, é esse som eternizado no imaginário dos leitores que faz ressoar pelas muitas páginas da instigante saga do cacau o espírito inquieto e sonhador do povo sul-baiano.

***

[Elisângela S. Bispo é bacharelanda de Comunicação Social com Habilitação em Rádio e TV pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, BA]

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