Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > VIDA ECLESIÁSTICA

Como se faz um bispo

Por J. B. Libanio em 21/08/2012 na edição 708
Prefácio de Como se faz um bispo segundo o alto e o baixo clero, de J. D. Vital, 362 pp., Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012; título e intertítulos do OI

Jornalistas e romancistas interessam-se pelos meandros da vida eclesiástica quer de Roma quer de Dioceses. Mundialmente famoso o romance de Morris West As sandálias do pescador, publicado em 1963, se tornou um filme em 1968. O romancista australiano em várias obras abordou a temática religiosa, construindo personagens fictícias, mas verossímeis. A literatura e o cinema têm-se interessado por tal veio, focalizando ora a vida de papas, como a de Alexandre VI Poder e luxúria e outros papas, ora atividades ligadas diretamente ao Vaticano como a canonização ou os Templários, ou Sociedades secretas a ameaçá-lo Anjos e Demônios, ou a eleição do Papa como Habemus Papam, o Santo Graal O Código da Vinci.

Vital não voou até o Vaticano, embora esse apareça com frequência. Escolheu o intrigante tema da escolha de bispos. Com veio de excelente jornalista, entrevista pessoas, informa-se sobre a vida eclesiástica. Como ex-seminarista, carregava já conhecimentos e experiências da vida interna da Igreja. Apura-as nesse livro em torno do processo das nomeações de bispo.

Estilo vivo, permeado de entrevistas, de alusões a pessoas bem concretas, conhecidas no mundo eclesiástico. Para facilitar a compreensão do livro, propõe, logo no início, vocabulário de termos usados nesse ambiente.

Contra a monotonia

A escolha do bispo segue ritual já previsto e determinado pelo Código de Direito Canônico. Há também aspectos sigilosos que nos surpreendem pelo fato de alguns menos dotados terem sido escolhidos para bispos ou promovidos para arquidioceses importantes, enquanto outros tão capazes são relegados.

Vital, na qualidade de repórter, não perdeu tempo. Aproveitava as ocasiões no encontro com cardeais, bispos ou outras pessoas bem situadas na hierarquia para colher alguma informação sobre o tema do livro. Recebia respostas ora evasivas ou bizarras, ora com dados interesses.

O enfoque principal girou em torno da Igreja do Brasil. Entretanto perseguiu tenazmente noticiários mundiais onde se transmitiam elementos para compor o texto. Folheou inclusive teses doutorais como a do ucraniano Tkhorovsky, precisamente sobre O procedimento para a nomeação dos bispos. Evolução do Direito Canônico de 1917 ao de 1983, o livro do jesuíta Th. Reese Inside the Vatican [Por dentro do Vaticano], a obra de González Faus . Ningún obispo impuesto, escritos de teólogos importantes e críticos como Hans Küng, J. M.. Castillo, J. Comblin, além de sites progressistas como Adista e IHU. Com tantos dados e conhecimento, o livro faz-nos passear por meandros bem divertidos.

Com frequência recorreu a dados da história da Igreja, para confirmar atos presentes ou para mostrar a diferença, como, p. ex., a participação da assembleia dos fieis na nomeação dos bispos no passado em contraste com a atual centralização. Com efeito, esse sistema variou ao sabor das tradições, como o caso do Padroado no Brasil.

A leitura do livro nos prende pela farândola de dados bem tecidos e variados. Com rapidez salta do informativo, estatístico presente para elementos colhidos da história do passado. Conjuga fatos jocosos com frias constatações. Como muitos personagens ainda vivem ou morreram recentemente, o leitor eclesiástico segue com interesse as observações tecidas.

O estilo direto e claro torna os personagens vivos. Não lhe faltaram dúvidas sobre a pertinência de tal obra. Recebeu, porém, incentivos de padres e bispos para escrevê-la. E assim deixou-nos retrato da Igreja institucional. Certamente parcial, como toda fotografia. Mas com dados verdadeiros que somados a outros nos permitem sentir o momento eclesiástico presente.

O A. tece o texto como uma rede. Narra um fato ou descreve um personagem em ligação com a teia de dados que tal lhe sugere tanto distante no tempo e no espaço, como próximo. O leitor navega continuamente por territórios bem diferentes a partir do ponto central exposto. Estilo bem jornalístico, móvil, ágil, rompendo toda monotonia histórica. Não escreve linearmente nem logicamente, mas por associações bem diversas e pormenorizadas.

Carreirismo eclesiástico

Impressiona a gigantesca quantidade de informação que Vital armazenou para escrever o livro a respeito de pessoas, de situações, de obras, de instituições, de organizações eclesiásticas. Não as cataloga por relevância ou numa lógica acadêmica, mas as entrelaça pela via da ligação imaginativa. Isso torna a leitura leve, agradável.

Na perspectiva da nomeação de bispos, discorre sobre os Pontifícios Colégios Pio Latino e Pio Brasileiro, onde outrora se estudaram bispos brasileiros. Consideravam-nos, naqueles idos, como sementeira episcopal. Os bispos carregavam a marca romana. A Pontifícia Universidade Gregoriana viu e vê ainda glórias maiores. Por lá passaram 16 papas entre os ex-alunos.

Mereceu menção a Academia dei Nobili Ecclesiastici, fundada em 1701, para ser escola para a formação diplomática. Pio XI mudou-lhe o nome para Pontifícia Academia Eclesiástica, posta na órbita da Secretaria de Estado do Vaticano. Traça aspectos interessantes de sua história ao longo de mais de três séculos, onde estudaram autoridades pontifícias até não sacerdotais como o Card. Antonelli. Hoje se afirma o caráter sacerdotal da vocação diplomática na Igreja. Figuram no livro biografias de núncios de vários países. Não faltam exemplos edificantes de santidade entre eles além de certo toque de mundanidade em outros.

O A. passeia pelos meandros da Congregação dos Bispos, que assessora de maneira direta e imediata o Papa na eleição dos bispos. Por isso a Cúria Romana merece detalhado estudo. Sobre ela já se escreveu muito. Uns consideram-na o primeiro Estado Moderno do Ocidente. Peter Drucker, especialista em Administração, mostra-se entusiasta declarado dos processos utilizados por ela. Ele dizia que “administrar é manter as organizações coesas, fazendo-as funcionar”, como acontece na Igreja Católica. A dúvida fica se a proximidade com a Cúria contribui para ser escolhido como bispo. Há casos que confirmam a hipótese. Eles serão eventualidades ou configuram alguma vinculação?

Em relação com a nomeação dos bispos, o A. detém-se no papel relevante dos núncios e suas assessorias nos diferentes países. A Igreja católica passou por situações plurais na escolha de bispos. Em dado momento, predominou o poder temporal. Depois se foi firmando a autonomia da Santa Sé e a crescente relevância dos núncios. Vital reproduz a ficha de informações que se pedem sobre o candidato a bispo. Elas abarcam os itens: notas pessoais, dotes humanos, formação humana, cristã e sacerdotal, comportamento, preparação cultural, ortodoxia, disciplina, aptidões e experiência pastoral, dotes de governo, capacidade administrativa, pública estima e juízo global sobre a personalidade do candidato e sobre sua idoneidade ao episcopado. Normalmente o processo segue ritual minucioso, sério, sigiloso e com enorme cuidado a ponto de Carlos Heitor Cony chamá-lo de “complicado, um mistério”. Claro, onde há seres humanos há vazamentos e caminhos paralelos.

O repórter Vital recolhe nos principais órgãos e junto a pessoas que influenciam em tal processo canônico saborosas informações, não sem toque de ironia. Dá nome a quase todas as fontes usadas de modo que o leitor fica conhecendo muitos personagens do mundo eclesiástico no que pensam e agem. Deparamo-nos com a realidade humana de bispos maravilhosos como Dom Helder, Dom Luciano, Cardeal Arns, Dom Isnard, Dom José Maria Pires. Vários deles mereceram todo um capítulo. Além disso, Vital deu a palavra a inúmeros bispos de todas as cores ideológicas, mas com predominância dos abertos e progressistas. Não omitiu o lado escuro dos casos de pedofilia. Revela assim o retrato da Igreja santa e pecadora. Nem lhe faltou abordar a tristemente afamada invidia clericalis que interfere sobretudo nos vetos às nomeações ou retarda-as. Tratou do preconceito racial que vigeu a respeito da autenticidade da vocação do negro para a vida religiosa e para a ordenação presbiteral, e com mais razão ainda episcopal. Acenou várias vezes para o famoso carreirismo eclesiástico, doença comum a toda instituição, da qual a Igreja não se isenta. Circulam até algumas regras para desenvolver tal atitude, com certo tom de brincadeira, que, porém, contém ponta de verdade.

Perguntas profundas

A riqueza do livro lhe vem da amplitude continental dos dados presentes e das inúmeras incursões históricas. Esse jogo entre presente e história faz uma das riquezas do texto. As afirmações do A. não permanecem no geral, mas se carregam de exemplos concretos e bem definidos a torná-las assim claras. A leitura deixa-nos a ideia de que nos últimos tempos a política da escolha dos bispos privilegiou homens submissos, com tendência conservadora, afinados com os ensinamentos oficiais sem criticidade, que ironicamente são chamados de “vaquinhas do presépio”. “Não se fazem mais bispos como antigamente”, observa Vital, ao constatar o “lamento que, vez em quando, se ouve de padres e sobretudo de religiosos que se sentiram cativados pelas figuras de Helder Câmara, Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldáliga, Ivo Lorscheiter, Aloísio Lorscheider, Mauro Morelli, Luciano Mendes de Almeida, Tomás Balduino e outros prelados que honraram a Igreja do Brasil nas últimas décadas do século XX”, como escreve o bispo de Dourados, MS, dom Redovino Rizzardo. Mas não faltam exceções de homens profetas como Erwin Kräutler, Luiz F. Cappio, J. L. Azcona, Esmeraldo Barreto de Farias, Moacyr Grechi e outros, cita o mesmo bispo.

Percorre casos de bispos que causaram embaraço para Igreja por atitudes bizarras. O britânico Richard Williamson teve que abandonar apressadamente a Argentina por ter negado a veracidade do Holocausto judeu no nazismo. Outros fatos muito divulgados giraram em torno do africano Milingo, ligado a sessões de cura, do francês Gaillot que participou da Gay Pride, de ordenação de bispos na China sem mandato apostólico, de bispos ligados ao cismático Mgr. Lefebvre, do casamento de bispos como o do argentino Podestá e o do brasileiro Marcos Noronha.

Nem faltaram no livro considerações sobre a situação do bispo emérito com as alegrias e tristezas inerentes à nova condição, sem esquecer o lado econômico de sua sobrevivência. Apesar da discrição da Igreja sobre vencimentos de sua hierarquia, sabe-se, porém, escreve Vital, que não chegam nem perto da remuneração de um embaixador do Brasil, ou de deputado ou senador. Alguns conhecem até privações depois de aposentados.

Ao terminar o livro, fica a impressão da seriedade que a Igreja atribui à seleção dos bispos. Pode errar. Mas pesquisa, informa-se, busca acertar. O leitor se vê quase submergido por tanta informação, dados, citações de conversas, referências de livros. Texto rico, disperso pela natureza própria do jornalismo. Não assume nenhum tom acadêmico ou doutrinal, mas deixa-nos perguntas profundas sobre o futuro da Igreja no referente à nomeação de seus pastores. No decorrer da leitura, muita beleza aparece na vida de tantos e tantos bispos. Boa viagem pelas paragens eclesiásticas do Brasil e do mundo!

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[João Batista Libanio é padre jesuíta e doutor em Teologia]

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