Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > SANTOS DUMONT

Parceiros de voo

Por Érico San Juan em 02/10/2012 na edição 714
Santô e os Pais da Aviação, de Spacca, ed. Companhia das Letras, 2005, 144 pp.

Entre os brasileiros, Alberto Santos Dumont é conhecido como o Pai da Aviação. Entretanto, o próprio Dumont, em sua belle époque de glórias, viu outros heróis levantarem voo, quisesse sua vaidade ou não. É o que o cartunista Spacca nos conta em Santô e os Pais da Aviação. O álbum de quadrinhos, lançado pela Companhia das Letras, puxa-fila de outros álbuns com temas históricos do autor, demorou vinte e cinco anos para levantar voo. A figura do pioneiro da aviação perseguia o desenhista, em suas andanças na área do humor gráfico.

Aos quinze anos de idade, João Spacca de Oliveira começava sua trajetória profissional, sendo presenteado pelo jornalista Paulo Zingg com um pôster de Paris em vista aérea. Em 1983, o desenhista foi contratado por um estúdio de animação após apresentar projeto sobre Santos Dumont. Seis anos mais tarde, publicou na revista Níquel Náusea uma história em quadrinhos com o aviador, também protagonista de projetos posteriores – e abandonados – de CD Rom e curta-metragem.

O tempo voou, o fascínio de Spacca pela figura de Santos Dumont transformou-se. A máscara que a história gruda nos heróis cedeu lugar à curiosidade do artista sobre o ser humano que quis voar. Não à toa, a epígrafe do álbum de quadrinhos é uma citação do cineasta Jean Renoir: “Quando estão no ar, essas pessoas são fantásticas. Quando voltam à terra, são fracas, desarmadas.”

Informações e referências históricas

Santô e os Pais da Aviação.é uma história em quadrinhos de fôlego que exibe as diversas habilidades de alguém que não pode ser chamado apenas de “cartunista”. Caricaturista de primeira, Spacca debutou na Folha de S.Paulo ainda nos anos 80. As feições dos personagens do livro mostram esse talento lapidado. O artista não cedeu à tentação de enobrecer o protagonista e transformar a multidão anônima em “homenzinhos narigudos”, estereótipo visual tão caro aos cartunistas.

Uma curiosidade abre o álbum sobre Dumont: a descrição de vida e obra de Sem, caricaturista francês que fixou a imagem do aviador brasileiro para a posteridade. Em seu artigo sobre o antecessor, Spacca ensina que nem só de oitos e oitentas vive um humorista gráfico: “Nós, brasileiros, estamos acostumados com cartunistas de esquerda, que tomam o partido do povo e ridicularizam a elite. (…) Sem não criticava o poder, ao contrário: fazer parte de suas charges era um atestado de celebridade.”

Se as caricaturas dão um encanto especial aos quadrinhos da história, o mesmo ocorre com a narrativa fluente. As informações e referências históricas poderiam desviá-lo da trajetória do “mocinho”, até mesmo tirar o interesse pela continuidade da leitura do álbum. Habilidoso, o autor evita que o leitor perca o rumo.

A compaixão pelo homem

A demonstrar o rigor de Spacca com a informação histórica o mais precisa possível, muitos dos gags da história saíram direito das bocas dos “pais da aviação”, sem tirar nem por. Em 1908, o “irmão Wright” Wilber, após voar com seu Flyer diante de um público de dez mil, pessoas, é indagado sobre seu longo silêncio a respeito da sua máquina voadora. Resposta de Wilber: “Só conheço uma ave que fala, o papagaio. E ele não voa muito bem…”

O desenrolar da história de Santos Dumont não o conduz a um final de conto de fadas. Mas a descrição minuciosa dos primeiros voos heroicamente humanos de que se tem notícia confirma a qualidade essencial dos melhores humoristas feito Spacca: a compaixão pelo homem, desumano ou não.

***

[Érico San Juan é cartunista, radialista, designer gráfico e caricaturista]

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