Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > LITERATURA & REALIDADE

A ferida por ela mesma

Por Renato Tardivo em 29/10/2012 na edição 718
As feridas de um leitor, de José Castello, Editora Bertrand Brasil, 280 pp., R$ 33,00

O livro As feridas de um leitor reúne artigos do escritor, crítico literário e jornalista José Castello. Como afirma o próprio autor na “Advertência” do início, os textos “compõem um registro – profunda cicatriz – das feridas que a leitura sempre produz em mim”. Escritores clássicos e contemporâneos, prosadores e poetas, bastante ampla é gama das feridas reinventadas por Castello em 42 artigos que coadunam profundidade e leveza.

Em “A década dos inventores”, artigo que abre o livro, o autor mapeia a ficção brasileira da primeira década do século 21 ao analisar os romances O filho eterno (C. Tezza), Leite derramado (C. Buarque), O filho da mãe (B. Carvalho), o volume de contos A cidade ilhada (M. Hatoum) e dissertar sobre outros já renomados escritores – Silviano Santiago, Beatriz Bracher e João Gilberto Noll entre eles –, além de autores da nova safra, como Tatiana Salem Levy, Michel Laub e Carola Saavedra. Apoia-se, ainda, em Cortázar e Bacon para sustentar que, confrontada pela “brutalidade do real” da televisão, do cinema e da internet, “a grande novidade da literatura brasileira do século 21 é reafirmar a força da invenção”, isto é, trata-se do que “o escritor conseguiu fazer” da realidade. E, nessa direção, o estupendo O filho eterno, ficção de Tezza com fortes traços biográficos, talvez seja mesmo o maior emblema.

“Por uma literatura clínica” é um texto que parte dos atos de vandalismo ocorridos em Londres, em agosto de 2011, nos quais jovens protestaram sem um claro “objeto da contestação”: “Os incendiários de Londres batem-se, talvez, contra o pragmatismo e a frieza do mundo contemporâneo. Atuam, porém, às cegas, deambulam pelas ruas como fantasmas, agarrados a palavras inexistentes”. Dos jovens londrinos, Castello vai ao Homem do Subsolo, célebre personagem de Fiodor Dostoievski, cujo “discurso de revolta” remete o autor às proposições do filósofo francês Alain Finkielkraut para pensar a literatura em sua “função clínica”, quer dizer, enquanto algo que “pode tratar a dor humana, influenciar seu desenvolvimento, abrandá-la”. Castello, então, ao evocar o sofrimento do Homem do Subsolo – que “se bate contra os Tempos Modernos […] mas usa as mesmas armas e os mesmos princípios dos Tempos Modernos” –, pensa o sofrimento do homem moderno, homem competitivo que se constitui na rivalidade, ou, como diz Finkielkraut, um “carrasco de si mesmo”. Com efeito, curar-se é tomar contato com as próprias feridas – e a literatura é um terreno fértil para isso. Tome-se a seguinte passagem de Kafka, em “A batida no portão da propriedade”, à qual recorro para encaminhar a questão: “Será que eu ainda poderia fruir outro ar que não fosse o da prisão? Essa é a grande pergunta, ou antes: seria, se eu ainda tivesse qualquer perspectiva de ser libertado.”

“Não doer é não sentir”

Ocorre que toda ferida, em maior ou menor medida, desvela uma sombra, isto é, torna visível algo que se encontrava oculto, mas, ao fazê-lo, alude a novas camadas invisíveis – novas feridas. Em “Borges, o sentimental”, texto sobre o escritor argentino que só acreditava “na salvação pela literatura” e para quem “tudo é poético na medida em que confessa um destino, na medida em que nos dá um vislumbre dele”, Castello reforça a importância de “libertar Borges da imagem racional em que está encarcerado”, noção contida em sua biografia, por Edwin Williamson. Tal tarefa implica invariavelmente permitir-se habitar a sombra, encarar a ferida: “a história que se desenrolou na sombra” – escreve Borges citado por Castello – “acaba na sombra”. Ainda nesse sentido, o instigante “Literatura e medo” aborda a relação indicada no título. Castello refere-se a Clarice Lispector e Cortazar. Em um telefonema, Clarice disse a Castello: “Você é um homem muito medroso e com medo ninguém escreve.” De Cortázar, em direção aparentemente oposta, o autor cita o artigo “Uma infância medrosa”, a partir do qual se conclui que “sem medo ninguém escreve”. E então, com quem ficamos: Clarice ou Cortázar? O desenvolvimento de Castello para o (suposto) impasse é muito interessante. De fato, há que ter muita coragem para sentir medo.

Coragem que Raduan Nassar, embora – ou porque – tenha escrito poucas páginas, teve de sobra. Em “A lavoura de si”, Castello trabalha a densidade contida na palavra de Raduan, sobretudo em Lavoura arcaica; densidade pautada pela seguinte lógica: “como ocorre em uma sala inteiramente vedada, é do pouco, do quase nada que aparece o choque”. E essa “avareza”, com efeito, pode conduzir, como se deu com Raduan, “à desistência e ao silêncio”. É também uma espécie de avareza, ou “solidão”, que perpassa a prosa de Chico Buarque, um dos “grandes narradores brasileiros contemporâneos”. No artigo “A escrita da solidão”, Castello apresenta uma bela e densa resenha do mais recente livro de Chico, Leite derramado, o qual, segundo o crítico, “é o mais hábil e inspirado que ele já escreveu”.

Em “Qual Saramago?”, analogamente à reflexão sobre Borges, Castello desmonta pré-concepções acerca do escritor – “escritor político”, “historiador interessado em literatura” – ao afirmar taxativamente: “escrevia bem porque pensava bem”. O próprio Saramago, em passagem citada por Castello, disse: “O que interessa é que há um momento em que o escritor aceita a si mesmo”, aceitação, aliás, que faz lembrar o enfrentamento do medo, questão trabalhada em ensaio anterior. No caso do único vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (1998) a escrever em língua portuguesa, a coragem para enfrentar o medo, no plano da linguagem, vincula-se, como sabemos, à “supressão radical da pontuação”, o que só ocorreu no alto dos seus 58 anos. Saramago inventou uma linguagem em que, diferentemente dos jovens de Londres, a revolta parece encontrar objetos definidos e se dá por meio de um estilo tão agressivo quanto sensível. Entre os contemporâneos, talvez seja o angolano Valter Hugo Mãe, nascido em 1971, o seu maior herdeiro. Em artigo que leva o nome do escritor angolano, Castello comenta seu primeiro romance, o nosso reino (época em que o autor só utilizava minúsculas, inclusive para assinar o próprio nome), e o mais recente, o seu quinto romance, O filho de mil homens, quando ele enfim adota as maiúsculas. Mãe “manipula o horror, sempre empenhado em encontrar, escondido atrás dele, ainda que encolhido e quase invisível, um tanto de delicadeza”. Ora, como não pensar em Saramago, digo eu, ao narrar no Ensaio sobre a cegueira o momento em que os cegos na camarata se conectam pela música de uma estação de rádio? Ou nos bonecos de cerâmica de A caverna? Algo (voltando a José Castello e Valter Hugo Mãe) “entre a dor e a sensibilidade”, pois “não doer é não sentir”.

A literatura no real

O texto que encerra o livro é o metalinguístico “A ficção envergonhada”. Nesse artigo, o autor defende a tese de que “a crítica literária é, ela também, um tipo (ainda que envergonhado) de ficção”. Para tanto, Castello tem de trabalhar com noções indigestas (é de feridas que se trata), como a definição de verdade – tarefa, aliás, que empreendera no primeiro texto. Mas, se no início o autor problematiza a verdade tal qual trabalhada na ficção, agora o foco é a ficção encarnada à crítica, o que é narrado em um texto (em um livro) de crítica: a ferida por ela mesma.

Problematizando as escolas estritamente objetivistas, para as quais um crítico, munido de manuais e autores, tem o poder de decretar a verdade do texto, Castello considera que “todo crítico, mais do que algoz, é uma vítima do que lê”. Ou seja, é o leitor quem sofre as intervenções que o livro lhe provoca, não o contrário: “Quando lê um livro, um crítico – como qualquer leitor comum – é mais objeto da interpretação do que sujeito da interpretação”. Nessa medida, a crítica literária é um “desdobramento da ficção”. Ler uma obra é executá-la – diria o esteta Luigi Pareyson –, é fazê-la viver da própria vida, devolver-lhe a pulsação e, portanto, continuá-la. Uma “dança”, escreve Castello. Dança que corta, fere e na qual, irremediavelmente, o dançarino não sai incólume. É com isso que o autor nos põe em contato, nesses e nos demais ensaios – sobre Machado, Drummond, João Cabral… Afinal, não tivesse o jovem José Castello adoecido, aos 19 anos, após ler A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, despertando-se para a ferida (primeira?), poderia ele reescrever agora suasferidas de um leitor?

***

[Renato Tardivo é escritor e psicanalista, São Paulo, SP]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem