Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > CARLOS MARIGHELLA (1911-1969)

Reportagem evita hagiografia e demonização

Por Marcelo Ridenti em 29/10/2012 na edição 718
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 27/10/2012; título original “Reportagem evita tanto hagiografia quanto demonização dos personagens”

Esta nova biografia de Carlos Marighella (1911-1969), tido como principal inimigo da ditadura militar, era muito aguardada. Afinal, além da importância do biografado, o autor é jornalista consagrado, que dedicou mais de nove anos à pesquisa para reconstituir a trajetória do líder comunista.

Mário Magalhães consultou extensa bibliografia, realizou buscas em arquivos, entrevistou 256 pessoas.

A preocupação com o uso da fontes revela-se nas 2.580 notas que, entretanto, não atrapalham a fluência da leitura.

O livro recupera o contexto histórico em que Marighella se inseriu, de modo que pode ser lido também como uma síntese das lutas políticas de esquerda da década de 1930 à de 1960.

Não deixa de ser um acerto de contas geracional, pois o autor nasceu em 1964, ano do golpe de Estado.

Riqueza de detalhes

Seguindo a cronologia, a obra reconstitui a trajetória do mulato baiano com riqueza inédita de detalhes, ainda que corra o risco de cair na ilusão biográfica, isto é, na atribuição de sentido linear e coerente a uma vida.

Marighella era filho de imigrante italiano, ferreiro e mecânico, com uma descendente de escravos.

Mais velho de oito irmãos, cursou boas escolas em Salvador e ingressou na universidade para estudar engenharia, mas não terminou o curso.

Envolvido nas lutas estudantis contra o governo Vargas em 1932, enredou-se cada vez mais na política, aproximando-se do Partido Comunista.

Seu percurso amalgamou-se com o comunismo brasileiro: foi preso político sob o Estado Novo, deputado constituinte em 1946, cassado com a escalada da Guerra Fria.

Viveu longos períodos na clandestinidade, fez viagens à União Soviética e à China, participou da agitação política do começo dos anos 1960 e tentou em vão articular uma resistência imediata ao golpe de 1964.

Fundou em 1967 a organização guerrilheira que viria a denominar-se Ação Libertadora Nacional, influenciada pela revolução em Cuba, onde Marighella esteve.

O livro termina com relato detalhado das circunstâncias em que foi morto em São Paulo, numa emboscada policial em novembro de 1969.

A obra mais reconstitui do que explica os fatos narrados, como se espera de uma reportagem biográfica.

Vez ou outra escapam adjetivos que podem levar mais ao julgamento do que ao entendimento de personagens e fatos.

Poesia

No geral, busca evitar tanto a hagiografia como a demonização dos personagens. As citações de poemas de Marighella dão um sabor especial à leitura, indispensável para pensar os dilemas de nossa história recente.

***

[Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de O Fantasma da Revolução Brasileira (Editora Unesp)]

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