Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Vale o que está escrito

Por Luiz Zanin Oricchio em 16/04/2013 na edição 742

De celebridade mesmo, só João Gilberto comparece na coletânea de textos jornalísticos A Poeira dos Outros, que o editor-assistente do “Aliás” Ivan Marsiglia lançou na terça-feira (9/4). Os outros 19 referem-se a pessoas comuns, que seriam anônimas não estivessem de alguma forma envolvidas em fatos excepcionais. Bem, nem todos os perfis são de pessoas, mas isso veremos depois. Dos 20 textos, 17 foram publicados no Estado de S.Paulo, dois na revista Trip e um na Playboy.

Comecemos por João, mesmo porque o perfil que Ivan lhe dedica serve como exemplo de sua proposta jornalística. Quem lê o título adivinha em que fonte o repórter vai beber. “João Gilberto Está Resfriado” remete ao texto famoso de Gay Talese sobre o cantor Frank Sinatra, que era avesso, como nosso João, ao contato com a imprensa ou com outros seres humanos.

Talese, impossibilitado de entrevistar o genioso (e genial) artista, fez o que pôde. Ouviu gente que convivia com Sinatra e, juntando depoimentos às suas observações, escreveu o perfil que se tornou clássico do chamado jornalismo literário, Frank Sinatra Está Resfriado. Como acontecia que João, às vésperas de completar 80 anos, estivesse também atacado pelo banal porém incômodo vírus influenza, Ivan toma o título de Talese emprestado e o adapta aos trópicos. O resultado é um delicioso perfil, pincelado a partir de histórias sugestivas e pitorescas.

O diferencial

O texto de “João Gilberto Está Resfriado” é leve, inspirado, divertido. Há outros assim, como “Carnaval na Praia dos Pelados|”, escrito originalmente para a Playboy, que relata a incursão do repórter à famosa Praia do Pinho, santuário nudista situado no litoral catarinense. Nesse texto, a reportagem observacional é, naturalmente, obrigatória, embora o jornalista tenha também conversado com muita gente no local. Como ele diz, “observar, de todo modo, é o esporte predileto do Pinho”, constatação feita ao assistir a uma partida de vôlei que os jogadores, rapazes e moças, disputavam, digamos, in natura.

O tom suave e divertido deve ceder espaço ao sério e ao grave quando outros temas se apresentam, como é o caso do texto que abre o livro, “A Memória das Paredes”, que tem por centro uma casa muito especial no bairro de Caxambu, em Petrópolis. Comprada por uma família nos anos 70, ela se revelou ser a mal-afamada Casa da Morte de que falavam ex-presos políticos. Era um tenebroso centro de tortura na época da repressão. Seguindo a indicação de uma antiga “moradora”, a presa política Inês Etienne Romeu, a casa foi identificada. Havia sido adquirida por um engenheiro e reformada. Lá, ele criou a família. Hoje, a casa foi desapropriada para futura transformação em museu sobre os anos de chumbo. Essa reportagem, publicada sob o título “E o Direito à Memória Bateu à Porta” recebeu o 12.º Prêmio Estadão de Jornalismo na categoria Perfil. A pegada é política e discute uma questão delicada. O que vale mais: o direito de propriedade ou os interesses da memória do País?

Desse mesmo teor – e tom – é o doloroso relato que fecha o volume, “A Longa Viagem de X2”, sobre a luta de uma senhora de Fortaleza pela recuperação dos restos mortais do filho, Bergson Gurjão Farias, assassinado na Guerrilha do Araguaia. Em 1969, Bergson entrou para a clandestinidade e seus pais nunca mais o viram. Apenas em 2009, restos mortais encontrados na região do Araguaia foram reconhecidos como sendo seus. “Passados 24 anos da redemocratização (o texto é de 2009), ainda existem cerca de 140 desaparecidos políticos no Brasil”, constata o jornalista. Nenhuma das famílias tem esperança de voltar a vê-los vivos. Mas lutam para lhes dar sepultura digna. Enterrar os mortos é a maneira simbólica de fazer o luto e voltar a viver. Recusar esse direito é punir, mais uma vez, as famílias dos desaparecidos.

A pauta do livro é bastante variada, assim como o tom adotado. O escritor pode optar pelo ponto de vista de uma onça em “Sou Suçuarana”. Ou, em “Pobre Cristiano”, traçar o “perfil” de um obus do século 19, relíquia da Guerra do Paraguai, para discutir a questão da memória histórica na América Latina. Ou falar pelo ponto de vista da faixa presidencial, em “Com a Palavra, a Faixa”, ao evocar nossos hábitos republicanos.

O que não varia é o talento em buscar uma apuração em regra, o capricho no texto, a originalidade na abordagem e o uso de técnicas ficcionais para fins de reportagem, traços que definem o jornalismo literário. São matérias extensas para os padrões atuais do jornalismo impresso, mas que se leem com rapidez e prazer. Quando o jornalismo tradicional se encontra na encruzilhada da internet, parece interessante apostar cada vez mais em textos desse tipo, que não apenas informam, mas interpretam e iluminam fatos sob ângulos originais. Sem o diferencial do texto, o jornalismo impresso condena-se à obsolescência.

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Luiz Zanin Oricchio, do Estado de S.Paulo

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