Quarta-feira, 19 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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ARMAZéM LITERáRIO >

Em busca dos esconderijos da memória

Por Altamir Tojal em 16/06/2009 na edição 542

Depois de lutar com a morte, de ver a alma voltar para o próprio corpo, Antônio se entrega à aventura de perseguir o amor em todos os instantes da vida e em todas as suas inesgotáveis possibilidades, as mais sublimes e as mais sórdidas. É assim que Julia decifra o mago, seu pai, e vive a aventura de também se desvelar. Ela inventa coragem para minerar os esconderijos da memória e confronta seus encontros e achados com narrativas e percepções do presente. Tudo é movediço e perturbador.

As histórias de Julia e o Mago nos trazem lembranças das alegrias e terrores mais primitivos e não nos deixam fugir do espelho. Evocam os obscuros e renitentes poderes da casa rodrigueana e nos põem a conviver com a opressão, as infidelidades, as conspirações, os pecados e, sobretudo, os amores de toda boa e velha família que se preza.

Este é um livro sobre os limites do amor. Ele nos conduz, em meio a trevas eternas e ao branco vazio, a luzes que cegam. Não vemos os limites do amor porque o desejo é infinito e, portanto, impossível de satisfazer. Antônio se consagra na épica dessa dependência desejante, do desejo que nunca se satisfaz, que é falta e é fora. Ao ressuscitar, o pai de Julia enfrenta a revelação de que não poderá mais fugir do amor fati, do destino de amar a vida incondicionalmente, mesmo o que ela tem de mais estranho e terrível, mesmo a infinitude do desejo.

Das matas mágicas às montanhas geladas

Cecília Costa, que já havia se desnudado no seu Damas de Copas, explora agora, com Julia e o Mago, limites ainda mais críticos da autoficção. Não faz cerimônia nem tem pudor. Ela alcança, assim, a emoção e a verdade engendradas na tensão entre ficção e realidade, ou seja, o que a literatura tem de melhor a oferecer. Essa potência irrompe tanto nas histórias e personagens como na diversidade e na ousadia da maneira de contar, nas múltiplas vozes e na poesia das palavras, transformando em arte mesmo o mais rude cotidiano.

O livro de Cecília ainda nos presenteia com ricas e interativas alusões à família Mann, desde as matas mágicas de Angra dos Reis e Parati, de onde partiu Julia, a brasileira, mãe de Thomas, autor preferido de Antônio, até as montanhas geladas – e também mágicas – da Suíça.

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Jornalista e escritor

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