Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > MUNDO AO REVÉS...

…em dezenove histórias

22/03/2011 na edição 634

[do release da editora]

Em seu primeiro livro escrito em Berlim, onde vive desde 2007, o escritor e professor de Literatura Brasileira da USP Flavio Aguiar desafia o leitor a distinguir ficção de realidade em dezenove histórias de amor, ódio e sobrevivência. Em Crônicas do mundo ao revés (Boitempo Editorial) – livro de contos, crônicas e ‘causos’ –, a ambiguidade da narrativa é anunciada logo no início: uma das condições do mundo ao revés é não levar a sério demais quem narra, avisa o autor. ‘Somos bombardeados continuamente por imagens e mensagens sobre cuja idoneidade e veracidade não temos a menor ideia. Isso não nos impede, no entanto, de fazer escolhas nem de sair de uma história para entrar em outra’, afirma.

Aguiar constrói múltiplos narradores que não se guiam pelo ideal do politicamente correto. Cada história é um fragmento de estilo, e o conjunto forma uma unidade tão controversa quanto a própria identidade do ser humano. Dividida em quatro partes (‘Tempos difíceis’, ‘Palavras difíceis’, ‘Causos difíceis’ e ‘Histórias difíceis’), a obra trata de uma variedade de temas que vão da história familiar do autor aos tempos da ditadura militar e suas cicatrizes na vida brasileira. ‘O livro se pauta pelo bom humor e pela ironia de seus narradores, mesmo ao enfrentar histórias trágicas, como muitas do golpe de 1964 e suas consequências. É um olhar irônico e distanciado que viaja também à infância e às pequenas histórias ocultas dos grandes segredos familiares’, diz o autor.

Como o autor ressalta numa ‘Advertência’ inicial, o mundo ao revés é aquele onde se registra o impossível de acontecer – mas que, no entanto, acontece. Todas as histórias são permeadas por uma fina ironia, como a do militante da luta armada contra a ditadura no Cone Sul que se agarra à vida e sobrevive à prisão, mas não a supera, pelo contrário, alimenta pensamentos suicidas em seu retorno. O livro conta com apresentação da psicanalista Maria Rita Kehl e texto de orelha do escritor Roniwalter Jatobá.

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Trecho

Contei para Ela o que vira. Não tem saída, disse Ela. Eles já estão dentro do edifício. Mas então, disse eu, o que estão esperando? Não sei, respondeu Ela. Só sei que ou vamos morrer ou vamos ser presos e levados para a tortura. Acho que prefiro morrer. Eu também, concordei. Você tem filhos? Ela perguntou de repente. Aquilo destoava das regras da Organização: nada de perguntas, de temas pessoais. A gente sabia que isso era desrespeitado com frequência. Mas essa era a regra. Não, respondi. Tenho irmãos. Minha mãe mora em Caxias do Sul. Não a vejo faz algum tempo. E você? Também não tenho filhos, disse Ela. Você é do Rio, não é? Perguntei. É, Ela disse. Percebi pelo sotaque, falei. Naquela situação completamente absurda, notei no escuro que ela sorrira. Eu não tenho sotaque, ela disse. Vocês é que têm. Ora, ora, eu disse, assim não vale. Vocês cariocas… De repente, Ela colocou os dedos em minha boca. Deu para ouvir, do lado de fora, que uma porta da perua se abrira. Corri até a janela. Um dos caras saiu, atravessou a rua, caminhou devagar, dobrou a esquina. Pela outra janela vimos que ele foi conversar com o cara do cigarro. E só. Ficou por ali, depois voltou para a perua, abriu a porta, entrou, bateu.

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Arte memorável

Roniwalter Jatobá

Anos atrás, início da década de 1990, alguém perguntou para mim por que a nossa literatura pouco enfocava o triste período do regime militar. Lembro bem do que respondi: ‘Dê tempo ao tempo’. Assim, pouco a pouco, muitos fatos têm vindo à tona, sobretudo em textos memorialísticos, mas também na literatura. Os dramas vividos naqueles duros tempos da ditadura, por sinal, servem de tema para o professor e escritor Flávio Aguiar nestas Crônicas do mundo ao revés. As quatro primeiras histórias, num total de dezenove, mostram situações muito além do que é claramente visto, seja narrando uma noite de medo e amor de um casal atuante na luta armada num esconderijo urbano cercado pela polícia, seja a angústia do guerrilheiro que, para resolver seus problemas advindos com a tortura, procura no exílio a ajuda de um psicanalista.

Mas o livro toma outros rumos. Honrando a tradição de bons contadores de histórias, que combinam a simplicidade da arte de narrar com a abordagem de questões mais complexas, como fizeram o argentino Jorge Luís Borges e o uruguaio Juan José Morosoli, Flávio Aguiar recupera, num clima de ficção e realidade, o sentimento daquele exato momento da vida de suas personagens. Em ‘O ninho’, por exemplo, a temática é o amor. De forma surpreendente, um homem conquistador é seduzido por uma charmosa mulher, mas, após alguns dias de muito prazer, ela o deixa para ir em busca do próprio destino. Já em ‘A tinturaria’, dois amigos e filhos dos pampas brasileiro e uruguaio, tão parecidos quanto diferentes, viajam para Caracas, na Venezuela, para o Fórum Social Mundial, e, após vários desencontros, voltam fascinados e apaixonados por uma mulher apelidada de Pan de Azúcar. Noutra direção, em ‘História de família’, o autor procura suas raízes alemãs e, em ‘Ai de ti, 64’, relata a trajetória de um oficial da Aeronáutica para com quem o povo e a cidade de Porto Alegre têm uma dívida imorredoura, pois foram salvos por ele e outros militares de um bombardeio criminoso.

O gaúcho Flávio Wolf de Aguiar, nascido em Porto Alegre em 1947, sempre nos iluminou em todas as atividades às quais se dedicou no mundo da cultura. Foi assim como professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, romancista, antologista, contista, crítico literário e analista político. Agora, de novo, nos surpreende como cronista. Ou melhor: como um excelente contador de histórias, numa arte memorável, generosa, densa e repleta da condição humana.

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Sobre o autor

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999, Boitempo Editorial).

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