Terça-feira, 26 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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ARMAZéM LITERáRIO >

Entre o racional e o emocional

Por Joëlle Rouchou em 15/06/2004 na edição 281

No momento em que se assiste a um florescimento de biografias, nada mais natural do que recuperar um personagem importante na história da imprensa brasileira. Muito se sabe da trajetória pública do jornalista Samuel Wainer. Ao longo de quase meio século, sua vida pública se confunde com acontecimentos de extrema relevância da história política brasileira.

Desde a publicação de Diretrizes – revista antifascista e nacionalista – em 1938, até a fundação de seu jornal Última Hora na década de 50, vários foram os momentos políticos nos quais podemos identificar a participação implícita ou explícita do jornalista Samuel Wainer. Em revelação pública de sua vida, Wainer parece, em sua autobiografia Minha Razão de Viver, atribuir seu êxito jornalístico à estratégia de se aproximar da elite política e dos governantes. Conjugação que seria trunfo ou privilégio de apenas alguns poucos ‘escolhidos’.

No relato autobiográfico, organizado pelo jornalista Augusto Nunes, a dimensão pública da trajetória do polêmico Samuel Wainer é enfatizada. Sua relevância aparece autojustificada pelo teor de suas declarações sobre os bastidores da vida política brasileira, tanto em seu período autoritário quanto em seu período democrático. Num relato envolvente, circunstancialmente rico e repleto de juízos sobre o mundo, sobre os homens e sobre si próprio, Minha Razão de Viver apresenta essencialmente, e acima de tudo, o jornalista Samuel Wainer. A leitura do livro de Nunes me despertou a curiosidade de estudar esse personagem fundamental na história da imprensa brasileira. Os múltiplos pertencimentos de Wainer: estrangeiro, judeu, nacionalista, por vezes comunista, dono de jornal, jornalista e associado ao poder público por três décadas me interessaram particularmente, bem como o contato que tive com Octávio Malta, amigo e companheiro de Samuel tanto na Última Hora quanto em Diretrizes por quem tinha profunda admiração.

As memórias de Samuel foram gravadas em 53 fitas, e três etapas, que somaram quase 1.300 páginas datilografadas. Nas duas primeiras fases, as gravações foram feitas pelo jornalista Sérgio de Souza, nos meses de janeiro, fevereiro e junho de 1980. A terceira foi realizada pela jornalista Marta Góes, entre julho e agosto do mesmo ano. Este material – que chamo aqui de material bruto – me foi cedido pela filha de Samuel, Pinky Wainer, permitindo um estudo mais abrangente da vida de seu pai.

Na ausência de um arquivo – Samuel não mantinha esse hábito, segundo seus parentes – estas 1.300 páginas me pareceram a fonte mais completa para mergulhar no seu universo. Apesar do nome famoso, Wainer está sendo reconhecido como ‘aquele jornalista que foi casado com Danuza Leão’. Nada contra a colunista, muito pelo contrário, ela me abriu as portas aos arquivos de Samuel que estão de posse de sua filha. Mas antes de ela tornar-se um xodó carioca, Samuel já tinha percorrido o mundo, feito revistas, jornais e reportagens bombásticas. Cada vez mais acho importante revelar às novas gerações quem foi Samuel Wainer e suas idiossincrasias.

Causa nacionalista

São as múltiplas dimensões de sua identidade, que podem ser lidas no material bruto mas não estão incluídas em sua autobiografia publicada, que abordo no trabalho.

Tive como principal preocupação durante este trabalho abordar uma questão pouco tratada na produção das ciências sociais brasileiras, e para a qual as memórias de Wainer apontam com curiosa nitidez: o paradoxo da relação entre etnicidade e nacionalidade no Brasil. Marcada pelo mito da ‘democracia étnica e racial’, a tradição cultural brasileira evidencia um jogo entre a afirmação de uma brasilidade abrangente e homogeneizante e a afirmação simultânea de uma diferença hierarquizadora. No caso do judeu, a sua imagem expressa na imprensa e nos demais produtos da indústria cultural do país revela uma ambigüidade estrutural. Tanto mais que a sua etnicidade ( ao contrário do negro ou do índio, onde a marca é mais ‘visível’) tende a ser enfatizada principalmente no plano simbólico.

Pretendo tratar do modo como este paradoxo é vivenciado e elaborado pelo indivíduo portador da ‘diferença’, na construção de sua identidade subjetiva. Diversas passagens do relato de Wainer permitem dimensionar a importância destas questões na definição da identidade do autor. É significativo que, nos textos originais, seu depoimento se inicie com o relato de um diálogo que manteve com seus filhos durante o exílio da família na Europa, em que trata da crise de identidade deles.

Estávamos saindo de uma missa, uma missa qualquer, e aí o Bruno, que tinha quatro anos, perguntou: ‘Você não vai à missa, Papai?’ Não, não vou meu filho, sou judeu e não vou à missa,’ diz ele: ‘ E eu’? ‘Bom, você é meio judeu e meio católico’. ‘Bem, então não sou obrigado a ficar a missa inteira, mas só até a metade.’ Aí diz a Pinky: ‘Mas … se ele é meio judeu, e nós também, de onde é que nós viemos?’ ‘Por que você quer saber, minha filha?’ ‘Na escola só me perguntam isso.’ E meus filhos não podiam responder… não sabiam de onde tinham vindo. Sabiam que tinham pai brasileiro, jornalista, famoso… eles ficavam sem jeito, porque todo garoto francês sabe até o tataravô. (…) Eu tinha que inventar uma história para eles. De onde vieram. Eles estavam deixando de ser brasileiros, ficando europeus , e isso foi uma das razões que me fizeram voltar. E eu não tinha porque explicar negócio de Bessarábia, sinagoga, eles estavam muito afastados de minha família … O Samuca devia ter seis anos, Pinky sete e o Bruno de três para quatro…(…) Aí eu não tinha como inventar essa história de onde vieram os Wainer, e inventei uma mais ou menos relacionada com a Bíblia (…) Eu sempre fui judeu, mas não tinha como explicar a eles de onde saíram.’ [Fita nº 1, p. 1/1 do material bruto de S.W.]

Fica clara a perplexidade de Wainer diante da necessidade de explicar sua origem, as dimensões de sua identidade. Na investigação do paradoxo da relação entre etnicidade e nacionalidade no Brasil, tal como se apresenta no caso específico das narrativas de Wainer sobre sua própria trajetória, pretendo discutir algumas questões, como as dificuldades de inserção do imigrante no universo social brasileiro, num período em que este se acha profundamente marcado pelos rompantes nacionalistas de uma elite política sempre ‘ameaçada’ por novos atores sociais – Samuel abraça a causa nacionalista como uma das formas de afirmação de sua identidade – e as possíveis estratégias de construção de subjetividade de imigrantes judeus no Brasil, na busca de compatibilizar sua condição judaica com as exigências assimilacionistas do Estado e da sociedade brasileira.

Marca étnica

Esta dissertação constitui-se de duas partes. Na primeira, busco dimensionar o debate teórico sobre identidade étnica e identidade nacional, numa perspectiva histórica que saliente comportamento interativo, estratégias de sobrevivência no mundo moderno, inserções múltiplas no universo social, papéis sociais. Nela destaco algumas das implicações da emancipação política dos judeus no século XIX, cristalizadas na figura de Disraeli, analisado por Hannah Arendt.

No capítulo Em busca da identidade de S. W., procurei entender como se constrói a identidade de Samuel em diversas áreas do conhecimento. Pela antropologia, com o estudo de Michael Fisher, A Etnicidade e Os Estratagemas da Memória, que trata exatamente das autobiografias étnicas nos Estados Unidos, uma tentativa de afirmação de identidade de imigrantes e de seus descendentes no novo país.

Outro autor a quem recorri foi Walter Benjamin, filósofo alemão, em seu texto O Narrador, no qual explica a necessidade dessa categoria, lamentando seu desaparecimento. As autobiografias não resgatam um pouco essa perda? Depoimentos gravados, ou relatos transcritos da fala de um narrador não substituem a figura do narrador? Através de Anatol Rosenfeld e Hannah Arendt é possível perceber que Samuel Wainer vivia uma tensão permanente: um judeu emancipado, assimilado, que não encontrava seu lugar na sociedade e buscava sua integração.

O primeiro capítulo é um levantamento analítico dos trechos mais significativos do relato de Wainer na categoria Jornalista. Verifica-se a forma como ele se vê como jornalista, o que entende como repórter, editor, dono de jornal, e como ele se amparou na vida profissional para tentar provar que era um imigrante que venceu. É admirável seu esforço permanente na busca da perfeição do texto, sua descrição da insegurança no momento de redigir suas matérias, um contraponto para seu sucesso como repórter que conseguia furos de reportagem e estava sempre na hora e lugares certos, onde acontecia a notícia.

Samuel Wainer-jornalista é a face mais revelada e mais conhecida do personagem, mas que pode ser melhor entendida quando ele mesmo é lido, em suas próprias palavras. Sua entrevista preconizando a volta de Getúlio Vargas ao poder em 1949, suas relações com o Palácio do Catete com três presidentes da República, as artimanhas dos empreiteiros em que ele mesmo se meteu e suas grandes reportagens internacionais foram contadas no livro Minha Razão de Viver, em que o jornalista Augusto Nunes editou o material bruto deixado por Wainer.

O segundo capítulo traz à tona o que acredito ser uma contribuição para melhor entender Samuel: Samuel Wainer-judeu. Não o lado religioso, pois Wainer não seguia a religião, mas a forte marca étnica, da qual não é simples livrar-se apesar de tentativas. No levantamento aqui apresentado, pode-se ver a força de sua educação, sua família judaica, que mantinha algumas tradições, sua emoção ao cobrir a criação do Estado de Israel, a importância que dá aos judeus.

Identidade subjetiva

Wainer viveu o conflito jornalista-judeu, uma tensão entre o racional e o emocional. Ele teve de tomar atitudes editoriais que poderiam ferir o lado judeu e ferir a comunidade judaica, como quando em Diretrizes, que seguia a linha soviética, teve de se sujeitar ao pacto Hitler-Stálin ou, ao contrário, quando defendeu o Estado de Israel na Guerra dos Seis Dias. Essa voz se levanta e é presente quando ele precisa afirmar sua identidade judaica perante seus filhos Pinky, Samuca e Bruno, em momentos de sua vida.

A autobiografia de Wainer contém, de forma abundante, os ingredientes necessários para a explicitação dos dilemas de que fala Anatol Rosenfeld. Nela está presente um rico material, repleto de confissões e depoimentos de sua experiência pessoal. Não se pretende, portanto, através dela chegar a um diagnóstico ‘verdadeiro’ sobre as possíveis causas do paradoxo ou sequer apontar soluções. Acredito que o resultado apenas iluminará as estratégias de sobrevivência de um indivíduo que viveu entre dois mundos sem estar em nenhum deles, como mais um caso entre inúmeros casos de identidades fragmentadas, sobretudo quando é impossível juntar os ‘cacos’ de cultura e tradições diferentes.

Na segunda parte, faço a análise da trajetória de Samuel Wainer, à luz das questões anteriormente apontadas, adotando como unidades de análise empírica o material bruto de seu relato autobiográfico, o material resultante de entrevistas com pessoas ligadas à sua vida pública e privada, e outros materiais arquivados. Esta parte é subdividida em outras duas: o jornalista e o judeu, onde as vozes de Samuel aparecem integralmente.

O aspecto de sua identidade judaica, vasculhando um pouco sua intimidade, é outro dado ainda não analisado em trabalhos acadêmicos, o que torna original e inovador este trabalho. Os estudos judaicos estão cada vez mais ganhando terreno dentro das universidades e a postura do Estado brasileiro em relação aos judeus ganha terreno nos cursos de ciências sociais. O trabalho de Jeffrey Lesser em O Brasil e a Questão Judaica [LESSER, J. O Brasil e a Questão Judaica, Rio de Janeiro, Imago, 1995], é um exemplo do interesse pelo tema, traçando um panorama das relações entre os judeus e o Estado brasileiro, além do estudo Anti-Semitismo na Era Vargas, de Maria Luísa Carneiro [CARNEIRO, M.L. Anti-Semitismo na Era Vargas. São Paulo, Brasiliense, 1986], pesquisa exaustiva sobre o período Vargas. Hannah Arendt, Isaiah Berlin, Anatol Rosenfeld, e Alberto Dines estudaram personagens judeus da história como Kafka, Heine, Disraeli, Marx e Stefan Zweig, entre tantos outros. Wainer pode ser inserido na galeria dos displaced, marginal-men estudados por aqueles autores.

Para trabalhar estas memória, me detive no material transcrito das 53 fitas. Ouvi – apenas por curiosidade – uma das fitas para conhecer sua voz, mas me restringi às transcrições. Numa primeira fase, fichei o material seguindo a ordem do pensamento de Wainer. Em seguida, classifiquei as 1.300 páginas em diversas categorias, que dão a dimensão de sua identidade: jornalista, brasileiro, político, judeu, pai, sedutor. Cataloguei também as passagens significativas com personagens como Assis Chateaubriand, Getúlio Vargas e Carlos Lacerda . A idéia inicial era a de cercá-lo por todos os lados, analisando sua identidade subjetiva. Mas estas diversas inserções fundiam-se em dois grandes eixos: o jornalista e o judeu. Foi sintonizada nestas duas vozes de seu relato que concentrei minha pesquisa; na voz pública (o jornalista) e na voz privada ( o judeu).

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