Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO ESPORTIVO

Entre torcer e distorcer

Por Juca Kfouri em 23/11/2004 na edição 304

A recente cobertura dos Jogos Olímpicos revelou todas as virtudes e algumas das mazelas da imprensa esportiva brasileira. Em regra, o comportamento da imprensa escrita ganha de goleada, muito mais crítica e aprofundada. Já a postura das TVs deixa a desejar, com as exceções de praxe.

O jornalista esportivo brasileiro dos meios eletrônicos vive a permanente ambigüidade entre torcer e informar. É natural, diga-se desde logo, que haja a priorização das competições que tenham atletas brasileiros e que as narrações assumam um tom nacionalista. Mas há limites e nem sempre estes são obedecidos. É a velha contradição entre torcer e distorcer.

Quando se cobre uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo é preciso ter bem claro que ambas são festas esportivas, não guerras. Se nas guerras a primeira derrotada é sempre a verdade, no esporte nada justifica a repetição do mesmo fenômeno. Jornalistas que saem do seu país para um evento esportivo internacional têm apenas um compromisso: com o leitor, com o telespectador, com o ouvinte.

Exageros e contradições

É claro que é compreensível o tom emocional das transmissões, embora os exageros sejam demasiados, o que exacerba vitórias que, por um lado, não falam muito ao coração do torcedor e, por outro, aumentam a frustração por derrotas absolutamente normais. Até mesmo quando a conquista é valiosa por si mesma, a tendência é no sentido de torná-la ainda maior, como no caso da medalha de ouro do vôlei masculino.

Houve quem dissesse que a final contra a Itália era a decisão mais esperada dos Jogos, uma bobagem sem tamanho diante da incomparável popularidade do futebol e do basquete. No afã de dourar uma façanha que já estava suficientemente banhada em ouro, até dizer que o jogo encerrava as competições coletivas em Atenas houve quem dissesse. Outra bobagem, porque tanto o handebol quanto o pólo aquático foram decididos depois da magnífica vitória brasileira sobre os italianos.

O exagero leva às contradições. Por exemplo: exalta-se um quinto lugar de uma nadadora brasileira com a mesma sem cerimônia que, ao se comentar uma medalha de prata de uma atleta estrangeira que era favorita ao ouro, alguém diz que ‘fulana ficou SÓ (o grifo é meu) com a prata’.

Nem artista nem ilusionista

Jornalistas não podem assumir o papel de vendedores de ilusão e é necessário que fique bem clara a fronteira entre o esporte tratado como entretenimento (a hora do jogo, do evento) e a cobertura jornalística do mesmo momento. Já bastam aqueles que assumiram o figurino de garotos-propaganda e transformaram a programação dominical em verdadeiros bazares que vendem de cerveja a palha de aço, num atropelo sem fim à ética e aos bons costumes, algo impensável em países mais avançados, nos quais o jornalista que fizer propaganda é, imediatamente, alijado do sindicato da categoria.

Voltando ao ufanismo de plantão, entre a constatação, irrefutável, de que o esporte brasileiro bateu seu recorde de medalhas de ouro (quatro em Atenas, contra três de Atlanta oito anos atrás), o jornalismo sério não pode permitir que se confunda o significado de tal marca, absolutamente insuficiente diante do tamanho da população brasileira, do tamanho da delegação brasileira na Grécia e do investimento de dinheiro público e das estatais no esporte. Mostrar a fragilidade do resultado e cobrar por mais eficácia é o papel que, em regra, o jornalismo impresso tem desempenhado, contra a exaltação eletrônica pura e simples de uma verdade que encobre uma porção de mentiras.

Sim, o show precisa continuar, mas o jornalista não é nem artista nem ilusionista, precisa se preocupar em jogar luz sobre os fatos, por mais que a cobertura esportiva seja contaminada, necessariamente, pela emoção que desperta. Entre a euforia e a depressão há um espaço enorme, exatamente o que permite o exercício do bom jornalismo.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/11/2004 Juraci Rufino Rufino

    O jornalista Kfouri, que se julga o paladino da moralidade esportiva, deveria esclarecer as razões de ter recebido dinheiro de PELÉ conforme notas fiscais divulgadas no Site Casaca(www.casaca.com.br). Outrossim, seria importante explicar por que usou uma empresa para receber tais numerários. Exigir que outros sejam honestos é fácil, sobretudo quando tem o prilivégio de ter um microfone à disposição, o que é negado aos outros.

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