Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > TV DIGITAL

Ergonomia cognitiva, informação e comunicação

Por Edna Brennand e Guido Lemos em 16/10/2007 na edição 455

A pesquisa que originou este livro nasceu da necessidade de alargamento da compreensão sobre a paisagem audiovisual complexa que marcou o início do século 21. A contribuição que trazemos coincide com um evento de fundamental importância no Brasil: o ano de implementação da TV digital. Embora as discussões políticas sobre o modelo de TV digital a ser adotado pelo Brasil, segundo alguns analistas, entravaram algumas decisões técnicas, as pesquisas avançaram em vários domínios, quais sejam nos de processos de escolha de plataformas, de construção de tecnologias apropriadas e de desenhos sobre uma política de produção de conteúdos.

A evolução das técnicas de codificação digital de áudio e vídeo, aliada aos novos esquemas eficientes de modulação para transmissões digitais, tornam possível o advento da TV digital e com ela uma vasta gama de novos serviços. A possibilidade de encapsulamento de dados para a difusão em conjunto com áudio/vídeo de TV abre um leque de diversas alternativas para a provisão de serviços avançados. As emissoras poderão não somente disponibilizar uma programação de alta qualidade de imagem e som, mas também a tornar mais atraente, permitindo aos usuários interagirem com os programas que estão sendo assistidos.

Modelos de negócios

Cabe ao sistema de TV digital, portanto, prover meios para que esses tipos de funcionalidade sejam oferecidos, definindo padrões de codificação, recuperação, sincronização e tratamento dos dados difundidos. Pode-se resumir as funcionalidades citadas em ‘agregar capacidade computacional à TV’. Padronizar a codificação e transporte de dados significa estabelecer regras para a introdução de fragmentos de informação (componentes de aplicações, arquivos ou quaisquer objetos de dados) no fluxo de transporte das emissoras de TV.

A televisão foi considerada sempre uma mídia centralizada que alcança milhões de espectadores, o que a tornava pouco propensa à interatividade. Mas, por meio do protocolo IP, a promessa de interatividade se realiza de maneira muito mais contundente. Os novos usos da TV ligados a uma possibilidade mais ampla de interatividade estão, certamente, gerando outra forma de ver a televisão.

A Universidade Federal da Paraíba – UFPB – tem contribuído de forma importante nesse processo, aglutinando pesquisadores e projetos que realizam parcerias com diversas instituições de pesquisa do Brasil e exterior. Desenvolve projetos envolvendo pesquisa sobre alternativas tecnológicas de middlewares (FlexTV) e aplicações em ITV (ergonomia de interfaces).

Vivenciamos, no Brasil, nesse domínio, a busca do desenvolvimento de novos modelos de negócios, o que justifica a importância das discussões que trazemos aqui sobre a ergonomia cognitiva para ITV.

Transgredir e redirecionar

A arquitetura da informação é o fundamento primeiro quando se pensa em uma aplicação no domínio de um software, internet ou televisão digital. Para otimizar essa arquitetura, levam-se em conta os mecanismos de interação, o nível de evolução das possibilidades tecnológicas, uma visão atualizada das necessidades dos utilizadores, além da utilização de metodologias específicas de caráter interdisciplinar e do conhecimento sobre o estado da arte no domínio de concepção.

A intensificação e o alargamento das colaborações interdisciplinares, no contexto internacional, fazem crescer as pesquisas sobre a ergonomia cognitiva, tendo em vista a gama de possibilidades de produção de conteúdos para veiculação via tecnologias da informação e comunicação. Os processos cognitivos animal, natural e artificial são aproximados no sentido de promover o encontro entre as Ciências Humanas e Sociais, a Ciência da Computação, a Neurociência, a Lingüística, a Ciência da Informação e Comunicação e outros domínios para desenvolver estudos sobre o homem e a sociedade. Esta pesquisa se situa na encruzilhada dessas várias disciplinas e busca tecer sinergias para criar uma rede de pesquisa e inovação.

Os desafios colocados pela evolução das possibilidades de ambientes interativos fazem aumentar a importância da pesquisa interdisciplinar nesse domínio. A predisposição para mais interação é inerente à capacidade cognitiva dos seres humanos. Em todas as formas de relação entre o homem e a máquina, ou entre o homem e outros homens, estejam eles utilizando ou não tecnologias digitais, a necessidade de escolha e de intervenção de mudanças se coloca como fundamental. A possibilidade de navegar em hipertextos, avançar e retroceder uma fita de vídeo, fazer o zapping num controle remoto de TV, mesmo em 150 possibilidades de canais, ainda não satisfaz a necessidade intrínseca que os sujeitos cognitivos possuem de transgredir e redirecionar os fluxos comunicacionais. Nesse sentido, os browsers deverão tornar-se interfaces de groupware, permitindo que os utilizadores se contatem, discutam os documentos, reescrevam documentos e interajam com seus displays em tempo real. Toda ergonomia cognitiva restrita à lógica linear, na qual todos os processos devam ter início meio e fim, está sujeita ao fracasso.

Projeto FlexTV

Assim, a primeira parte deste livro é oriunda de uma pesquisa desenvolvida na Université Catholique de Louvain – UCL –, Bélgica, no Departamento de Comunicação, com o apoio financeiro da Capes. Por meio da participação nas discussões de pesquisadores do grupo de pesquisa ‘Médiations des Savoirs’ e da intermediação desse grupo, tivemos acesso aos documentos e relatórios técnicos da União Européia. A segunda parte foi fundamentada em diversos trabalhos desenvolvidos no Laboratório de Vídeo Digital – LAVID/UFPB, dentro do projeto FlexTV.

Gostaríamos de agradecer a parceria dos professores André Berten, Pierre Fastrez e Jean Pierre Mounier, do Departamento de Comunicação da UCL, pelo apoio para realização da primeira parte da pesquisa e por terem aceitado a parceria para sua continuação, a fim de estudar aspectos cognitivos para ergonomia ITV. Nossos agradecimentos vão, também, à European Commission Information Society Technologies, pela permissão de consulta aos documentos, à Universidade Federal da Paraíba e à Capes. [João Pessoa, outono de 2006]

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Respectivamente, doutora em Sociologia pela Sorbonne (França) e professora dos cursos de mestrado e doutorado em Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFP); integrante do Comitê Executivo do Fórum Brasileiro de TV Digital, doutor em Informática pela PUC-Rio e professor do curso de mestrado em Informática da UFP

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