Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Escrever: opção e destino

Por Gabriel Perissé em 15/08/2006 na edição 273

As cartas de Vargas Llosa lembram as que Rilke escreveu ao ‘jovem poeta’, no início do século passado, entre 1903 e 1908. Cem anos depois, o destinatário é um jovem que deseja orientações sobre a arte de escrever romances. Este jovem de agora é personagem criado pelo escritor peruano. O jovem que procurou Rilke existia mesmo, chamava-se Franz Xaver Kappus, e, apesar das brilhantes palavras do mestre, não chegou a ser poeta…

Vargas Llosa mostra ao seu missivista que cada romance possui estrutura própria. Criar essa estrutura exige esforço e lucidez, coragem e perseverança, capacidade de aprender com a leitura de outros romancistas, vontade de descobrir o estilo pessoal.

Ser romancista é questão de opção. E de destino. Ou melhor, somos nós que escolhemos o destino que se nos impõe. O romancista, o escritor em geral, não está satisfeito com o mundo. Sua (re)visão da realidade se plasma na narrativa, na escolha do tipo de narrador. Sua crítica é ativa, criativa. E Vargas Llosa não fica em generalidades, cita e analisa autores como Kafka, Alejo Carpentier, Herman Hesse, Victor Hugo.

Além do livro de Vargas Llosa (lançado em espanhol em 1997 e só agora traduzido no Brasil), dois outros títulos nas estantes, organizados por um pesquisador obstinado. Brito (chefe do Centro de Documentação do Parlamento Latino-Americano), que já foi meu aluno (do que muito me orgulho), reúne em dois livros o que dizem dezenas de escritores sobre a razão para escrever e seus métodos pessoais.

Sem fórmulas

Desde a resposta tautológica de Doris Lessing — ‘Eu escrevo porque sou um animal escritor’ – a respostas humanistas e preocupadas, como a de José Saramago – ‘Escrevo para compreender. O que é um ser humano?’ –, as declarações se sucedem e vão montando um quadro.

O quadro do ‘como’ complementa o do ‘porquê’. As técnicas pessoais são variadas. Alceu Amoroso Lima escrevia a lápis, Paulo Coelho diz trabalhar oito, nove horas por dia no computador. Uns preferem a noite, outros produzem melhor logo de manhã.

Não há fórmulas. Fernando Sabino sentia-se uma criança, no momento da criação; já o escritor português Antônio Lobo Antunes vê o ato de escrever como processo penoso; Lygia Fagundes Telles escreve com paixão, primeiro, e com a serenidade do artesão, depois.

Brito transcreve também uma frase de Vargas Llosa: ‘Ou acabo com o livro ou ele acaba comigo’.

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Doutor em Educação pela USP e escritor (www.perisse.com.br)

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