Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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ARMAZéM LITERáRIO >

Escritor oculto na cidade do vampiro

Por Deonisio da Silva em 18/01/2005 na edição 312

Curitiba abriga um grupo de escritores inventivos, inconformados como é de praxe acontecer a pessoas lúcidas. Alguns dos maiores reconhecimentos literários brasileiros foram parar nas mãos deles. Em 1995, Manoel Carlos Karam arrebatou o Prêmio Cruz e Sousa. E ano passado, Dalton Trevisan levou para Curitiba o Prêmio Portugal Telecom.

Lá pontificam ainda, entre outros, Wilson Bueno, autor do esplêndido Mar paraguayo, Roberto Gomes, também catarinense, com Os dias do demônio e Alegres memórias de um cadáver, e Cristóvão Tezza, igualmente catarinense, autor de O terrorista lírico (1981) e o recente O fotógrafo (2004). Domingos Pellegrini Jr e Miguel Sanches Neto, outros talentos paranaenses, vivem no interior do estado.

Na poesia temos a referência solar de Alice Ruiz. Outros escritores, precocemente falecidos, como Paulo Leminski e Jamil Snege, não tiveram quando vivos o reconhecimento que faziam por merecer, dado o estranho costume de nossa crítica de exigir como requisito para apreciação o atestado de óbito do autor. Jamil Snege, aliás, declarou certa vez:

‘Devo ter 400 ou 500 leitores fiéis – e eles fazem mais barulho que os milhões de leitores do Paulo Coelho. Prefiro os avessos, os desajustados, aqueles que estão sempre indagando de deus se o homem foi a melhor coisa que ele conseguiu fazer’.

Manoel Carlos Karam tem poucos leitores. São uns felizardos. Mas aumentará muito o plantel com o novo romance. Esse Sujeito oculto enseja nova oportunidade de buscar algumas obsessões do narrador, dentre as quais emergem como referenciais importantes a difícil arte de conviver com o semelhante e o absurdo de tal destino, o que gera o tema da solidão como opção quase compulsória. Os fragmentos de tramas, os cacos do vitral de Karam e todas as preciosas miudezas que compõem Encrenca, desarrumando o leitor, voltaram mais refinados em Sujeito oculto. O bar, o trabalho e principalmente a rua ganharam novas dimensões.

Preso às tramas

Karam insiste no absurdo da existência. Seu viés, porém, não é o desolador olhar de um Camus, de um Sartre, mas o de um brasileiro desconfiado. Muito desconfiado. Logo na abertura, diz o narrador:

‘Troquei a camisa por uma de dois bolsos, a velha mania de acreditar que poderia precisar deles, que não bastariam os bolsos da calça e do paletó, porque existem profissões que dependem de bolsos’.

A profissão, no caso, é a seguinte: seu personagem solar é um estranho matador. Nada sabemos dos motivos que o levam a exercer o ofício, tampouco somos informados do que fizeram suas vítimas para merecerem a execução. Apesar da concessão do enredo, espécie de recuo estratégico de Karam, o leitor que entrou no romance por esse viés é conduzido em outra aprendizagem – e não espere do escritor que o console dos absurdos que o cercam.

Karam é mestre em desconcertar sempre mais. Na pág. 15, o ofício do matador e do escritor se misturam em bela metáfora:

‘Quando o que se faz deve ser escondido, não há saída. O sujeito aprende a gostar da solidão ou muda de profissão, mas quem sabe fazer só isto não tem escolha. Melhor assim, a solidão é um excelente biombo’.

O narrador, alter ego do escritor, despede-se dos leitores nos dois últimos capítulos fazendo divertido e insólito resumo do que contou. Serve-se para tanto de um personagem estratégico: um locutor que no rádio, comentando fusos horários, diz que ‘três acontecimentos ocorreram em locais diferentes e em horas diferentes e em dias diferentes, mas exatamente no mesmo instante’.

Com efeito, as ações do matador tiveram lugar numa casa da cidade, num estacionamento e uma casa de campo. O narrador desconfia de que o locutor fala exclusivamente para ele.

Sujeito oculto será entendido pela maioria dos leitores como um romance policial atraente e meio esquisito, mas, por quem já acompanha a prosa inventiva do escritor, como um dos pontos mais altos de seu percurso, ao conciliar a ousadia da inventividade com um mínimo de concessão ao leitor, que é pego pelas tramas como a mosca pela teia de aranha.

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