Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ARMAZéM LITERáRIO > JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014)

Escritor morreu aos 73 anos, no Rio

Por lgarcia em 19/07/2014 na edição 807

O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro morreu na madrugada de sexta-feira (18/7), vítima de uma embolia pulmonar, em sua casa no Rio de Janeiro. Autor de obras como Viva o povo brasileiro e O sorriso do lagarto, João Ubaldo era membro da Academia Brasileira de Letras.

Abaixo, alguns artigos sobre a morte do escritor.

 

Morre João Ubaldo Ribeiro, aos 73 anos

Reproduzido de O Globo, 18/7/2014

O escritor João Ubaldo Ribeiro, de 73 anos, 7º ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras e colunista do GLOBO e do “Estado de S.Paulo”, morreu em casa na madrugada desta sexta-feira, no Leblon.

De acordo com a secretária de João Ubaldo, Valéria dos Santos, o escritor foi vítima de embolia pulmonar. Ele começou a sentir-se mal às 3h. Trinta minutos depois, foi dado como morto pela equipe médica.

— Ele sentiu falta de ar durante a noite. Dona Berenice (a psicanalista Berenice de Carvalho Batella Ribeiro, mulher do autor) e Chica (uma de suas filhas) pediram ajuda médica, mas não houve tempo para socorrê-lo. Foi uma morte súbita. Elas estão muito chocadas.

Em maio passado, o escritor esteve internado durante cinco dias no Hospital Samaritano por causa de dificuldades respiratórias. Os médicos aconselharam que ele parasse de fumar imediatamente. Desde então, João Ubaldo vinha diminuindo a quantidade de cigarros. “Não chegava nem a um maço por dia”, segundo Valéria, que trabalhava há dez anos com o escritor.

Ela lembrou, ainda, que o autor vinha escrevendo um novo romance há dois anos. Ele se levantava diariamente às 4h e escrevia até as 10h, “quando os telefones começavam a tocar e o interrompiam”, conta Valéria.

Autor de clássicos como “Sargento Getúlio” (1971) e “Viva o povo brasileiro” (1984), João Ubaldo recebeu o Prêmio Camões, maior honraria da literatura em língua portuguesa, em 2008. Ele foi eleito para a ABL em 1993 para a cadeira número 34, no lugar do jornalista e escritor Carlos Castello Branco (1920-1993).

— Foi uma surpresa, um choque para a academia — disse Geraldo Holanda Cavalcanti, presidente da ABL. — Ele estava muito bem disposto, em um momento de plena produção literária. É uma grande perda para as letras. Ele renovou a literatura brasileira. Com a publicação de “Viva o povo brasileiro”, ele inaugurou uma nova etapa do nosso romance. É um momento bastante doloroso, logo depois da perda de outro grande, o Ivan Junqueira (jornalista, poeta e crítico literário morto no dia 3).

“Viva o povo brasileiro” ganhou o prêmio Jabuti. O livro, recheado de humor, recria quase quatro séculos da História do país, incluindo episódios marcantes, como a Guerra do Paraguai e a Revolta de Canudos, a partir da vida de personagens anônimos do povo brasileiro. O lançamento da obra completa 30 anos em dezembro deste ano. E o selo Alfaguara, que vem relançando os livros de João Ubaldo desde 2008, já preparava antes mesmo da morte do autor uma edição comemorativa, prevista para novembro. Nela, haverá dois textos de introdução, escritos por Rodrigo Lacerda e Geraldinho Carneiro, além de uma bibliografia com a relação das edições estrangeiras do romance.

Somente nos últimos cinco anos, “Viva o povo brasileiro” vendeu 35 mil exemplares pela editora Objetiva. Antes, por outras editoras, estima-se que o clássico já tenha vendido mais de 200 mil. A obra foi traduzida para o inglês pelo próprio autor, ganhando versões em vários outros idiomas. Ubaldo Ribeiro, aliás, é um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior, com livros lançados em alemão, dinamarquês, espanhol, finlandês, francês, holandês, hebraico, inglês, italiano, esloveno, norueguês e sueco.

Ubaldo Ribeiro também teve obras adaptadas para o cinema e a TV. O romance “Sargento Getúlio”, por exemplo, inspirou um longa-metragem de Hermano Penna em 1983, com Lima Duarte no papel principal. O livro narra a saga de Getúlio Santos Bezerra, sargento da PM que busca a proteção de um político após matar a própria mulher e passa a ter de servi-lo. Tendo como tema o banditismo no sertão, rendeu ao autor o Prêmio Jabuti em 1972 (na categoria revelação). O filme levou cinco Kikitos no Festival de Gramado.

Já o romance “O sorriso do lagarto” ganhou adaptação de Walther Negrão e Geraldo Carneiro para minissérie na TV Globo, em 1991, com Maitê Proença, Tony Ramos e Raul Cortez dando vida ao triângulo amoroso que marca a história. Nela, o biólogo João Pedroso (Tony Ramos) se envolve com Ana Clara (Maitê Proença), casada com o corrupto secretário de Saúde Ângelo Marcos (Raul Cortez), que planeja levar a especulação imobiliária para a paradisíaca ilha de Santa Cruz.

DA BAHIA À ALEMANHA

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, na Bahia, em 23 de janeiro de 1941. Ele foi criado até os 11 anos no estado do Sergipe, onde seu pai trabalhava como professor e político. Antes de voltar para Itaparica, o escritor passou um ano em Lisboa e um ano no Rio de Janeiro.

Formado em Direito pela Universidade da Bahia em 1962, Ubaldo Ribeiro jamais advogou. Ele fez pós-graduação em Administração Pública pela mesma instituição e mestrado de Administração Pública e Ciência Política pela Universidade da Califórnia do Sul, nos EUA.

A formação literária do escritor começou já nos seus primeiros anos de estudante. Ele foi um dos jovens escritores brasileiros que participaram do International Writing Program da Universidade de Iowa.

Entre outras atividades, o romancista, cronista, jornalista e tradutor foi professor da Escola de Administração e da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia e professor da Escola de Administração da Universidade Católica de Salvador.

Entre 1990 e 1991, morou em Berlim, a convite do Instituto Alemão de Intercâmbio (DAAD – Deutscher Akademischer Austauschdienst). Ao retornar ao Brasil, passou a viver no Rio de Janeiro.

INÍCIO NO “JORNAL DA BAHIA”

Seu primeiro emprego foi como repórter no “Jornal da Bahia”, onde também viria a atuar mais tarde como redator, chefe de reportagem e colunista.

Em entrevista ao GLOBO em junho de 2012, ele comentou a atividade:

— O jornalismo me deu os macetes e recursos redacionais a que sua prática leva, bem como o senso de disciplina para não “furar a pauta”, qualquer que seja ela, e escrever mesmo quando não se está disposto. E, entre os escritores brasileiros, grande número deles, ou a maior parte, é e tem sido de jornalistas. Pessoalmente tenho orgulho disso.

Ele também escrevia para o diário alemão “Frankfurter Rundschau”. E já colaborou com publicações como o jornal “Diet Zeit” (Alemanha), “The Times Literary Supplement” (Inglaterra), “O Jornal” (Portugal), “Jornal de Letras” (Portugal), “Folha de S. Paulo” e “A Tarde”.

Em agosto, João Ubaldo participaria da Bienal Internacional do Livro de São Paulo ao lado de Fernanda Torres, que estrelou a adaptação para o teatro de “A casa dos budas ditosos” (1999). Os dois iriam conversar sobre o processo de escrita do romance de estreia da atriz, “Fim”.

João Ubaldo Ribeiro deixa mulher, Berenice de Carvalho Batella Ribeiro, e quatro filhos: Bento e Francisca (do casamento atual) e Manuela e Emília (de seu primeiro casamento, com Mônica Maria Roters).

O corpo do escritor chegou à ABL por volta de 11h30m desta sexta, para o velório. Ele sairá de lá às 9h deste sábado para o Mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde será sepultado em seguida.

 

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O correto uso do papel higiênico

João Ubaldo Ribeiro

Reproduzido de O Globo, 18/7/2014

Esta foi a última coluna escrita por João Ubaldo Ribeiro, que seria publicada no dia 20 de julho

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) era escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

 

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O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro morreu no Rio de Janeiro

Isabel Coutinho

Reproduzido do Público (Lisboa), 18/7/2014

O escritor João Ubaldo Ribeiro morreu nesta sexta-feira, aos 73 anos, na sua casa no Leblon no Rio de Janeiro, divulgou o jornal O Globo onde era cronista. O prémio Camões 2008 sofreu uma embolia pulmonar durante a noite. Em Maio tinha estado internado no hospital por dificuldades respiratórias. Autor de uma obra que engloba as culturas portuguesa, africanas e brasileira e com um alto nível literário, considerava-se discípulo de Jorge Amado. Os romances Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro são já considerados clássicos. Para o seu editor português, Nelson de Matos, era “um dos mais exímios manipuladores da língua portuguesa”.

João Ubaldo Ribeiro costumava contar várias histórias engraçadas. Uma delas era a sua explicação para a criação de um dos seus romances mais elogiados, Viva o Povo Brasileiro, um livro de 856 páginas, Prémio literário Jabuti 1985, e cujo manuscrito ele pesou antes de entregar ao editor: era uma pilha de papéis com 6,7 kg. E qual a razão deste acto inusitado? Ubaldo tinha sido “atiçado” pelo editor Pedro Paulo de Sena Madureira que um dia lhe disse: “Você só escreve livrinhos para ler na ponte aérea. Eu quero é ver livro!” E como o prémio Camões 2008 não era homem para ficar quieto depois de uma provocação, respondeu-lhe: “Ah você quer ver livro? Vai ver!”

E não é que Sena Madureira e o resto do mundo viu? Na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2011, João Ubaldo Ribeiro explicou que “a génese de Viva o Povo Brasileiro foi querer fazer um livro grande para poder esfregar na cara do Pedro Paulo”. “Poder dizer-lhe: 'Pois, efectivamente fiz!’ Nunca quis reescrever a história do Brasil, não quis escrever a história do ponto de vista do dominado, não quis reescrever nada. Quis fazer, em primeiro lugar, um romance grande! Quis escrever um romance bem escrito – eu queria caprichar – e grosso!” E, na plateia, lançou uma daquelas suas famosas gargalhadas que quem ouviu nunca mais esquece.

O avô paterno de João Ubaldo Ribeiro era português, de Fafe, e foi de barco para o estado de Alagoas por uma razão que o escritor nunca soube qual era. Casou-se com a brasileira Amália, que cozinhava bacalhau e fazia tertúlias com o neto sobre o herói predilecto dos dois: o Conde de Monte Cristo. “E meu avô, bebendo cerveja escondido lá dentro, dizia: 'Ai,ai, esses dois se acham letrados, mas nunca leram Guerra Junqueiro'“, escreveu João Ubaldo numa das crónicas que publicou no jornal Frankfurter Rundschau, quando viveu em Berlim a seguir à queda do Muro (1990-1991). Estão publicadas no livro Um Brasileiro em Berlim.

João Ubaldo Ribeiro nasceu em 1941, na ilha de Itaparica, na Bahia (a localidade está presente em toda a sua obra). O romance em que estava a trabalhar quando deu uma entrevista à Pública, em 2011, na sua casa no Leblon, onde morreu esta sexta-feira, era o primeiro a passar-se no Rio de Janeiro, cidade onde vivia há décadas. O escritor viveu também um ano em Lisboa, em 1981, graças a uma bolsa concedida pela Fundação Gulbenkian.

Era poliglota, estudou e formou-se nos Estados Unidos, Alemanha e França, era mestre em Ciências Políticas e também membro da Academia de Letras do Brasil desde 1993. Na conferência de imprensa que deu antes da sua participação na FLIP, em 2011, Ubaldo defendeu que não era um homem de letras. “Encaro, geralmente, com imenso tédio o papo de um homem de letras. Não tenho interesse literário. Eu li por circunstâncias da vida. Fui criado numa casa cheia de livros, tive um pai muito rigoroso em relação à minha formação e, ao mesmo tempo, muito liberal no meu contacto com esses livros. Eram milhares e milhares de livros. Um casarão cheio de livros. Então eu li. Li muito, mas hoje não sou um velho de letras preocupado como vão as coisas do mundo literário brasileiro, quem são os novos autores que surgiram. Não sou realmente um bom papo de letras”, disse.

Mas na infância leu todos os clássicos – Homero, Camões, Horácio, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha – e mais tarde incorporou-os nos seus livros. Hamlet, de Shakespeare, está presente em Sargento Getúlio e Ilíada, de Homero, em Viva o Povo Brasileiro. Também há referências em contos. “Citações que eu não digo, mas que quem conhece bem sabe”, afirmou à Pública em 2011.

Quando lhe foi atribuído o Prémio Camões, o júri, que deliberou por maioria, era presidido por Ruy Espinheira Filho (escritor, jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia) e incluía Maria Lúcia Lepecki (professora na Universidade de Lisboa), Maria de Fátima Marinho (professora na Universidade do Porto), Marco Lucchesi (professor na Universidade do Rio de Janeiro), João Melo (poeta e jornalista angolano) e Corsino Fortes (presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos). Na sua decisão teve em consideração “o alto nível da obra literária de João Ubaldo Ribeiro, especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”, lia-se na acta.

Depois de uma infância marcada pelos estudos literários orientados pelo pai jurista (quando descobriu que o filho não sabia usar o ponto e vírgula, obrigou-o a copiar os sermões do Padre António Vieira), João Ubaldo Ribeiro estreou-se aos 16 anos como jornalista no Jornal da Bahia, ainda antes de ter entrado no curso de Direito, licenciando-se numa profissão que nunca chegou a exercer.

Na universidade, participou nos movimentos literários estudantis, mas só em 1963 escreveu o seu primeiro romance, Setembro não Faz Sentido (já depois de ter assinado vários contos), livro que seria editado em 1968, com a ajuda do escritor Jorge Amado e do cineasta Glauber Rocha. João Ubaldo era amigo deste último e trabalhou com ele naquele jornal e chegaram a inventar notícias. “Ele chefiava a página de polícia do jornal e naquela época havia pouca violência em Salvador, era uma cidadezinha pacata. Às vezes, às dez horas da noite, hora de fechar o jornal, Glauber não tinha um morto, um assassinato, uma ocorrência policial. Telefonava para o necrotério, para a morgue: 'Não morreu ninguém, não?!' [grita] Eu ajudei, uma ou duas vezes, escrevendo uma matéria fictícia sobre delinquência juvenil em Nova Iorque – Do nosso correspondente em Nova Iorque: Delinquência juvenil em Manhattan. Uma irresponsabilidade juvenil a que ninguém ligou”, contou na FLIP, em Paraty.

Foi mais tarde, com o seu segundo romance, que João Ubaldo Ribeiro teve a atenção da crítica. Sar­gento Getúlio (1971), que rece­beu o Prémio Jabuti para autor-revelação e que a crítica con­siderou ser herdeiro do mel­hor de Gra­cil­iano Ramos e de Guimarães Rosa, espan­tosa­mente só teve a primeira edição em Por­tu­gal no final de 2010. “É um livro que está aí há uns 40 anos e até hoje é pub­li­cado. Então, em alguma coisa eu acertei”, afirmou na FLIP, em 2011.

Essa divertida sessão na Festa Literária Internacional de Paraty foi conduzida por outro escritor brasileiro, Rodrigo Lacerda (filho do seu antigo editor, Sebastião Lacerda), que por email, pouco depois de saber a notícia, disse ao PÚBLICO que o autor de O Albatroz Azul era “um dos poucos escritores de talento excepcional” com quem conviveu directamente. “Mas, além do talento, sempre foi um modelo de artista para mim, pois era um homem capaz da mais alta erudição e, ao mesmo tempo, muito simples, que não via a literatura como o território do esnobismo, vício profissional infelizmente muito comum. Generoso com o leitor, portanto.”

“Era talvez o único escritor que, hoje, no Brasil, mantinha viva a tradição barroca, a que na minha opinião melhor explora as riquezas plásticas e sonoras da nossa língua. Se me tornei escritor, foi por causa dele, ao ler Viva o Povo Brasileiro aos 15 anos. Esse ano comemoraríamos os 30 anos de publicação do livro, para o qual eu e o poeta Geraldo Carneiro escrevemos pequenos textos de apresentação (como se precisasse….). A edição comemorativa tinha lançamento marcado para Outubro/Novembro”, acrescentou o autor de Outra Vida (editado em Portugal pela Quetzal).

Também um dos grandes amigos de João Ubaldo Ribeiro, o escritor brasileiro Rubem Fonseca, prémio Camões 2003, autor de Agosto (ed. Sextante), do Brasil, através da sua filha, a jornalista, escritora e editora Bia Fonseca do Lago, fez uma curta declaração ao PÚBLICO: “Estou sofrendo muito, é como se tivesse perdido um irmão.”

João Ubaldo Ribeiro “renovou a literatura brasileira”, disse ao jornal O Globo o presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavalcanti. E com Sargento Getúlio “inaugurou uma nova etapa do romance brasileiro”. Alguns dos seus livros foram sucessos internacionais.

Quando lhe foi atribuído o Prémio Camões, o presidente do júri destacou Viva o Povo Brasileiro como o seu “livro principal”. Foi publicado em 1984. O romance é passado na ilha natal de Itaparica e percorre quatro séculos da história do Brasil. Numa outra entrevista que deu ao PÚBLICO, Ubaldo Ribeiro aconselhava quem não conhecesse a sua obra a começar por Viva o Povo Brasileiro – porque, dizia, tem “a ver com a colonização portuguesa, com o inter-relacionamento” dos dois povos e – parodiando os livros tradicionais de História do Brasil – narra ironicamente a luta contra o chamado “opressor português”: “Era assim que nós aprendíamos na escola do meu tempo: 'O opressor lusitano foi vencido…'“

Em 1996, foi responsável pela adaptação para o cinema do romance de Jorge Amado Tieta do Agreste, e três anos depois publicou A Casa dos Budas Ditosos, que obteve um enorme sucesso de vendas e foi traduzido para várias línguas. Quando A Casa dos Budas Ditosos (sobre a luxúria e escrito no feminino) foi publicado em Portugal, houve uma pequena polémica. Duas cadeias de hipermercados (Continente e Jumbo/Pão de Açúcar) não o quiseram vender. Estávamos em 2000, e o livro acabou por vender na época mais de 13 mil exemplares em cerca de dois meses. Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Diário do farol, O Feitiço da Ilha Pavão, O Sorriso do Lagarto são outros dos seus livros.

Em Portugal a sua obra está publicada nas Edições Nelson de Matos. Para o seu editor português, Ubaldo era “um dos mais exímios manipuladores da língua portuguesa”. “A sua grande imaginação e criatividade linguística enriqueceu a nossa língua com um vocabulário muito próprio.” Nelson contou ao PÚBLICO que na semana passada recebera um email do escritor perguntando-lhe pela sua saúde. “Esta morte foi para mim, portanto, totalmente imprevisível. A surpresa é enorme. Quando um escritor como ele desaparece, uma parte de nós fica mutilada. Restam-nos os seus livros e a vida que ele deixou lá dentro”, acrescentou.

O editor lembrou também que, quando João Ubaldo viveu em Portugal, ficou amigo dos nossos maiores escritores portugueses, entre eles José Cardoso Pires e Almeida Faria. Este também recordou o amigo ao PÚBLICO: “Nunca ninguém me fez rir tanto como ele.”

Também José Carlos de Vasconcelos, que chama a João Ubaldo Ribeiro o seu “irmão brasileiro”, disse que o escritor era “o melhor contador de histórias” que conheceu. “Umas eram verdadeiras e outras inventadas, mas não vale a pena dar exemplos, porque a graça toda estava no modo como ele as contava”, adiantou o escritor e jornalista, que por isso mesmo achou melhor deixar a meio a delirante história de um papagaio que se estimulava sexualmente com choques eléctricos. E se, a contar histórias, João Ubaldo “ultrapassava mesmo Manuel da Fonseca”, era também um “extraordinário criador de língua”, disse. “Estava-lhe no sangue, era uma coisa natural.”

Revelava essa inventividade linguística “nas coisas mais simples”, mas também na sua obra, fez notar José Carlos Vasconcelos, exemplificando com Viva o Povo Brasileiro, que considera “um dos romances mais extraordinários da literatura contemporânea de língua portuguesa”, mas também com o mais recente (e polémico) A Casa dos Budas Ditosos, que “vale pela sua criatividade estilística e linguística”.

Vasconcelos conheceu João Ubaldo através de Jorge Amado, mas foi no período em que o autor viveu em Portugal, usufruindo de uma bolsa da Gulbenkian, que a amizade entre ambos se consolidou. João Ubaldo escreveu então crónicas para o JL e para o Sete, “sobre coisas portuguesas”, que estão ainda hoje dispersas. E José Carlos Vasconcelos publicou-lhe, no início dos anos 80, na editora O Jornal, o volume de contos Livro de Histórias.

Para ilustrar a ligação do escritor a Portugal, Vasconcelos recordou os meses que João Ubaldo passou na Alemanha, numa residência literária: “Enviou-me uma mensagem a dizer que quando chegasse a Portugal, mal saísse do avião, a primeira coisa que iria fazer era beijar a terra.” Avisado da sua chegada, Vasconcelos foi esperá-lo ao aeroporto, mas teve de aguardar durante horas. João Ubaldo tinha sido interrogado, tinham-no feito mudar de uma fila para outra por ser brasileiro, e só três horas após o avião ter pousado é que as autoridades portuguesas se convenceram de que o escritor não constituía uma ameaça à segurança da nação. Indignado, Vasconcelos publicou uma crónica a lamentar a “vergonha” de Portugal receber deste modo “um grande escritor”. O então ministro da Administração Interna Dias Loureiro leu o texto e fez saber ao seu autor que se tinha “informado” e que estava em condições de garantir que ninguém tinha “tratado mal” o escritor. “Parece que não lhe tinham batido…”, ironiza José Carlos de Vasconcelos.

Com Luís Miguel Queirós

 

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João Ubaldo Ribeiro fez parte da vanguarda baiana nos anos 1960

Claudio Leal

Reproduzido da Folha de S. Paulo, 18/7/2014

“Sou uma invenção de Glauber Rocha”, definia-se o auto-irônico João Ubaldo Ribeiro. Escritor ainda sem obra, na Bahia do início dos anos 1960, Ubaldo era celebrado pelos elogios do jovem cineasta, que exigia a escrita de um romance e o anunciava como “grande especialista em literatura americana”, obrigando-o a se lançar aos livros de Hemingway ou Scott Fitzgerald, para justificar o título honorífico.

Glauber e Jorge Amado lhe deram empurrões no mundo dos editores. Mas sua incursão na literatura deve um bom naco à influência do pai, o jurista e professor Manoel Ribeiro, que impunha uma dieta livresca formada pelos clássicos brasileiros e universais, e não havia sequer espaço para a escolha do dicionário —sem discussão, deveria consultar o de Laudelino Freire.

Na biblioteca paterna, leu Antonio Vieira, Manuel Bernardes, Shakespeare, Homero, Cervantes, Machado de Assis, José de Alencar e outros autores cravados na mente pré-adolescente.

Nascido na ilha de Itaparica (BA), João Ubaldo passou a primeira infância em Aracaju (SE), de onde retornou aos 11 anos para o Estado natal. Nas décadas de 1950 e 1960, atraído por Glauber, Ubaldo se incorporou à geração da revista “Mapa”, participando da cena vanguardista de Salvador. Modernizava-se a literatura, o teatro, a dança, a arquitetura e a música.

Dividia-se entre a Faculdade de Direito e a redação do “Jornal da Bahia”, marcado pela presença de velhos comunistas, no qual escrevia colunas humorísticas sob o pseudônimo de Policarpo. Caía em noitadas intermináveis no cabaré Tabaris e no bar existencialista Anjo Azul —famoso pelo coquetel Xixi de Anjo—, além de alguns pés-sujos em que cantava boleros e podia imitar um bandleader: “Y ahora Pedro Vargas, ¡el Tenor de las Américas!”. Mais tarde, seria o editor-chefe da “Tribuna da Bahia”.

Na ilha de Itaparica, o refúgio preferido, Ubaldo escreveu o clássico “Viva o Povo Brasileiro” em jornadas iniciadas às 4h na Biblioteca Juracy Magalhães. Um dia, zonzo com o esforço literário, quis desistir da obra. Nesse estado de quase depressão, sensibilizou-se com uma ordem do amigo João Carlos Teixeira Gomes: “Essa tradição do escritor no mundo começa antes da Grécia. Portanto, você tem de assumir a importância do seu papel. Termine o romance!”

Em janeiro de 2010, João Ubaldo sustentou uma campanha contra a construção de uma ponte de 13 km entre Salvador e Itaparica, orçada em mais de R$ 7 bilhões, proposta pelo governador Jaques Wagner (PT). Apoiado por um manifesto, o escritor acusou o projeto de ameaçar a baía de Todos os Santos e favorecer empreiteiras.

Militantes petistas contestaram a autoridade de Ubaldo para desafiar o governo, alegando que o romancista residia no Rio de Janeiro e apenas veraneava na Bahia. “Esse pessoal é muito ignorante. Pensa que eu preciso da ilha 'atrasada' para me 'inspirar'. Eu não sou repórter, não vou à ilha anotar coisas ou ver inspirações”, desabafou Ubaldo.

No verão de 2014, vibrou com os atrasos. “Vencemos! Essa ponte não vai sair”, disse em fevereiro, no “convescote” anual organizado por seus amigos. Naquela tarde, fumou, bebeu uísque, cantou samba de roda e, discretamente, retornou a sua casa na ilha, por sentir-se mal.

Em 2012, ao assumir uma cadeira na Academia de Letras da Bahia, fixou sua baianidade: “Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos”.

 

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João Ubaldo Ribeiro deixou rascunhos de novo livro

Roberta Pennafort

Reproduzido do Estado de S. Paulo, 18/7/2014

Numa entrevista recente, João Ubaldo Ribeiro disse não temer a velhice, tampouco a morte. “Quem não morre fica velho. Depois de certa idade, esse negócio de mortalidade fica complicado”, justificou, com a leveza e a graç características. Um dos grandes romancistas brasileiros vivos, com alta produtividade como cronista (publicava no Estado e n’O Globo semanalmente) e um novo livro a caminho, ele morreu nesta sexta-feira, 18, aos 73 anos, de embolia pulmonar, em casa, no Leblon.

Ubaldo acordou por volta das 3 horas, sentindo-se mal, e chamou pela mulher, a psicanalista Berenice Batella. Chegou a ser atendido por paramédicos, que tentaram reanimá-lo, mas não houve tempo para mais nada. O corpo foi velado nesta sexta-feira, 18, durante todo o dia, por parentes e amigos na Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro havia 20 anos. Será enterrado neste sábado, 19, de manhã, no mausoléu da academia, no cemitério São João Batista.

Ubaldo havia sido internado há dois meses com dificuldades respiratórias, e, na ocasião, seu médico lhe orientou a largar o cigarro de vez. “Ele fumou a vida toda e agora diminuiu a quantidade. Sabia que tinha que parar”, contou Valéria dos Santos, sua secretária por dez anos. Depois da internação, ele ficou bem de saúde.

A viúva estava em choque: “Só posso dizer que meu coração está despedaçado. Foi-se um grande artista, um gênio da palavra”. O filho Bento Ribeiro ficou o tempo todo com a mãe: “Para mim, ele era tudo aquilo que escrevem dele, e era o meu pai. Ele estava sempre produzindo, se orgulhava da cultura brasileira.” Além dele, Ubaldo tinha três filhas: Francisca, que morava com ele, Emília, que veio de Salvador, e Manuela, que chegará neste sábado cedo de Munique, onde vive, direto para o enterro.

A secretária contou que ele deixou um romance inacabado, no qual trabalhava havia mais de um ano. Muito solicitado para conferências, feiras literárias e homenagens (os convites chegam diariamente), Ubaldo havia pedido que ela lhe suavizasse a agenda para que tivesse tempo para escrever.

“Ele não me falou o tema. Dizia que tinha que me proteger, pois se eu soubesse, todos me perguntariam. Era um gentleman. Despachávamos duas vezes por semana e fazíamos reuniões por Skype e e-mail, pois ele não gostava de falar pelo telefone”, lembrou Valéria.

Roberto Feith, diretor da editora de Ubaldo, a Objetiva, lidava com naturalidade com sua demora em entregar os livros – de 1968 (ano da estreia, com Setembro não tem sentido), para cá, foram dez romances, além de seis livros de crônicas e três infanto-juvenis. A diferença do último, O Albatroz Azul, de 2009, para o anterior, Diário do Farol, foi de sete anos.

“Quando apresentamos a ideia d’A Casa dos Budas Ditosos, ele topou na hora, mas levou três ou quatro anos escrevendo. Chegou a um ponto em que não sabíamos mais se sairia. Um dia chegou o e-mail dele com o livro anexado. Literamente pronto, sem que tivéssemos que mexer numa vírgula”.

O livro representou a maior vendagem de Ubaldo na Objetiva: mais de 270 mil exemplares. A adaptação para o teatro, por Domingos Oliveira, um monólogo com Fernanda Torres, foi outro sucesso.

No velório, Domingos estava “revoltado”. “Como pode morrer alguém como o Ubaldo? A morte é um ignonímia. Ele está com um sorriso estampado no rosto, sereno, com uma cara de absoluta aceitação dos fatos da vida”, comentou, depois de se despedir do amigo, vestido com o fardão da ABL. Ocupado, Ubaldo ia pouco à casa. “Quando vinha, era uma alegria”, disse o acadêmico Domício Proença Filho. “Vamos sentir falta daquela voz de barítono”. 

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