Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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ARMAZéM LITERáRIO >

Estão armando para a Confecom não sair

Por Heitor Reis em 14/07/2009 na edição 546

‘Eu acho que estão armando para essa conferência não sair… Estão com medo do vespeiro e a saída é dizer que não tem verba. Coisa de louco, pois os fundos estão aí… Nossa, que loucura. Será mais uma grande mentira, promessa a não ser cumprida pelo governo. É pagar pra ver’ (Laercio Silva, comunicador, Campo Grande, MS)

Estão armando desde quando Cabral descobriu o Brasil. Mais ainda: desde quando fundaram o Estado. Ou desde quando o homem começou oprimir a mulher e, na etapa seguinte, passou a oprimir o próprio homem, diria Karl Marx.

O Brasil tem dinheiro para emprestar ao FMI e Cuba, mas não tem para sua I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Com a palavra, os petistas, para que expliquem esta coisa… Ou a Fundação Ford…

É uma luta de classes. Reis e imperadores contra súditos. Presidentes, deputados e senadores financiados pelos ricos contra os trabalhadores, eleitores, consumidores e contribuintes.

Tiradentes deu sua vida pela metade dos impostos que pagamos hoje. Como nosso povo não tem vergonha na cara e prefere ser espoliado a lutar pra coisa melhorar, nada vai mudar.

Lula fechou mais emissoras que FHC

Antonio Gramsci nos ensina que a burguesia necessita da educação e da mídia para ‘fazer a cabeça’ da classe trabalhadora, de tal forma que ela aceite ser espoliada e, por exemplo, trabalhar por um salário-mínimo que seja um quarto do valor constitucionalmente determinado, conforme o Dieese, sendo que o restante vai alimentar a ‘voracidade do animal capitalista’, conforme o define o ‘companheiro’ Delfim Netto, que assessora o atual governo, com sua ampla experiência durante a ditadura pseudo-militar de 1964. Sua especialidade foi ‘crescer o bolo, para, depois, dividi-lo’, coisa que jamais fez.

Cada povo tem a conferência, os impostos, serviços públicos e os políticos que merece. E, se não fizer por onde merecer, nem conferência terá!

A dita esquerda não dá valor à comunicação como a direita.

Apesar de todo o otimismo dos ingênuos, venho demonstrando isto desde antes da Confecom ser convocada.

Durante a campanha, Lula se declarava ‘o defensor número um das RadCom’ e em seu governo fechou mais emissoras que FHC, a uma taxa de 1.000 a 2.000 por ano. Prometeu o paraíso para a TV comunitária, o que, após seis anos de governo, tornou-se outra mentira.

Para ministro, comunicação está democratizada

Em função do seminário ‘As Rádios Comunitárias e o Poder Público’, na Câmara Federal, o ministro das Comunicações criou um grupo de trabalho para resolver os problemas das rádios comunitárias, em 2003, cujos resultados foram insignificantes.

Em 2005, imediatamente após a ocupação da Anatel pelos militantes da Abraço e movimentos solidários de Porto Alegre, o próprio Lula criou um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), cujo relatório ele alegava não ter recebido, enquanto Hélio Costa jurava ter entregue. Meses após, descobrimos que, na realidade, tinham recebido, mas nos enganavam, afirmando que não.

Mesmo Lula reconhecendo na abertura da Teia 2007, em Belo Horizonte, que seu governo tem uma grande dívida para com as RadCom, nada existe que possa significar um tênue sinal de que pretende pagá-la tão cedo.

O sistema brasileiro de TV digital foi feito para atender à urgência e à necessidade da Globo, adotando tecnologia ultrapassada, em detrimento do trabalho inovador desenvolvido no Brasil por várias universidades e empresas nacionais.

Lula levou seis anos para convocar a I Confecom e mais 70 dias para assinar um decreto que empurrava a decisão da Comissão Organizadora para o Ministério das Comunicações, o qual colocou mais representantes dos empresários e do governo (cuja campanha política foi financiada pelos primeiros) que movimentos sociais. O próprio ministro Hélio Costa declarou que não precisava de uma conferência de comunicação, pois ele já estava democratizando tudo, conforme gravação que divulguei amplamente na rede.

‘É hora de protestar’

Portanto, podemos esperar o pior deste governo no setor de comunicações, apesar dos aspectos positivos em outras áreas.

Relembro estas coisas, não para que desanimemos, como preferem enxergar os reducionistas e maniqueístas… Mas justamente para que, sabendo ser uma luta descomunal, apliquemos nela uma força proporcional.

Nossos esquerdistas mal já ouviram falar de Antonio Gramsci, que dizia defender sermos pessimistas na teoria (no planejamento, no preparo, na antecipação dos problemas, etc.) e otimistas na ação (ver aqui)

Como Gramsci, devemos ser pessimistas na teoria, mas otimistas na prática, procurando adotar posturas que permitam uma compreensão mais alargada do mundo: se tivermos que romper esse padrão, se temos que nos libertar de nossa história pessoal e coletiva, devemos aprender a identificá-lo – ver os caminhos da descoberta e da inovação, vencer nosso desconforto e resistência ao novo, reconhecer as recompensas de cooperar com a mudança (FERGUSON, s.d, p 186).

A esquerda estúpida (como diz Saramago) faz exatamente o contrário… (ver aqui

)

‘A esquerda atual `deixou de ser esquerda´ e tornou-se estúpida’, afirmou ontem o escritor José Saramago, que acusou também os governos de estarem se tornando ‘comissários do poder econômico’. ‘Antes, gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda’, afirmou o octogenário escritor, militante histórico do Partido Comunista português. Fugindo do tema literário, Saramago acabou por dedicar grande parte da sua intervenção aos problemas das democracias (itálico meu) contemporâneas, que na sua opinião não passam de ‘plutocracias’, e apelou à insubmissão da população. ‘O mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio’, disse o escritor. Para Saramago, ‘é hora de protestar porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada para contestá-los, pode se dizer que merecemos o que temos’ (ver aqui).

No máximo, um belo relatório

Não tenho a menor dúvida que o presidente da reparticular é apenas o motorista da elite dominante, como defendem João Pedro Stédile e Dom Mauro Morelli.

Nem duvido que o Brasil seja um ‘estado oligárquico e autoritário, precisando urgentemente ser democratizado’, conforme nos ensina a filósofa da USP, Marilena Chauí, também da direção nacional do PT.

Mas enquanto o Lula não disser explicitamente que a coisa é assim e ficar fingindo que não é uma rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa, e não conclamar o povo brasileiro a fazer as mudanças necessárias para que isto mude, ele deve colher, tanto o ônus, quanto o bônus do cargo que ocupa. Por que ele não educou o povo para a cidadania, como fez Chávez na Venezuela?

Nosso povo dorme em berço miserável, enquanto uma minoria dorme em berço esplêndido. Enquanto os que estão despertos não fizerem sua parte para que a classe trabalhadora perceba o quanto está escravizada neste processo político, econômico, educacional e midiático, nada vai mudar. E, se houver a Confecom, no máximo ganharemos um belo de um relatório que vai mofar nos armários do governo, como o que foi feito para as RadCom que Lula engavetou.

Mas pode ser pior. Se o relatório for para beneficiar os donos da mídia, ele será imediatamente implantado!

******

Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (CMQV)

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