Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > TAM, VÔO 3054

Estética cinematográfica

Por Pedro Correa Martins em 24/07/2007 na edição 443

Enviei o e-mail abaixo ao ombudsman da Folha de S.Paulo, Mário Magalhães. Creio, porém, que as críticas que faço à cobertura pelo jornal do acidente com o avião da TAM podem ser estendidas a outros jornais e veículos de comunicação. Envio uma cópia do e-mail ao OI na expectativa de que ele suscite uma reflexão sobre a cobertura jornalística em tempos de crise.

Caro Sr. Mário Magalhães,

Escrevo para expor a minha indignação com a cobertura da Folha de tragédias recentes, entre as quais incluo a última, a queda do Airbus da TAM em São Paulo, nesta semana.

A minha crítica se dirige ao tom empregado pelo jornal para diferenciar o noticiário comum das páginas que tratam das tragédias em si. Refiro-me desde as vinhetas presentes em cada uma das páginas ‘especiais’ (no caso da atual cobertura, ‘Tragédia em Congonhas’) até a diagramação, que faz uso abundante – e confuso – de infográficos e fotos de grandes dimensões.

Reconheço que é tarefa da Folha – assim como de grandes veículos de comunicação brasileiros – debruçar-se sobre o último acidente a fim de conferir-lhe sua devida importância. São muitos e urgentes os assuntos a serem abordados pelo jornal: o drama das famílias, as investigações sobre culpados, as propostas para resolver os problemas na aviação no Brasil etc.

Essa responsabilidade perante os seus leitores não justifica, porém, que o jornal espetacularize um acontecimento que já é, por si só, espetacular. Que fique claro que não defendo que o jornal poupe seus leitores de informações ou fotografias que possam vir a chocá-los ou a comovê-los, contanto que se mantenha o bom senso (e aqui cabe citar o excelente artigo de Bia Abramo na edição de hoje do jornal (19/07), em que critica a falta de sensibilidade de repórteres televisivos que insistiam em informar os telespectadores do estado em que os corpos das vítimas se encontravam).

Minha crítica, repito, é ao tom excessivo e espetacularizante da cobertura, com suas vinhetas, ‘cadernos especiais’, infográficos elaboradíssimos e fotos e mais fotos com tamanho exagerado.

Já pensava nessa questão desde que ocorreu a série de ataques do PCC em São Paulo, em maio do ano passado. Na ocasião, senti que a gravidade das notícias não saciaram o jornal, que recheou suas páginas com vinhetas com o nome ‘Guerra Urbana’ e na cor vermelha – como se as fotos chocantes e os trágicos acontecimentos não bastassem. Parecia que o jornal se esforçava para criar um novo produto, muito bem trabalhado e dotado de características singulares, a fim de garantir aos leitores uma dose empacotada de sangue e horror. A cidade estava paralisada, o medo tomava conta da população, policiais eram mortos. Ainda assim, nas páginas da Folha, todo o horror adquiria, surpreendentemente, uma grandiosa beleza. A Folha, sem o saber – ou assim espero –, seguia padrões estéticos cinematográficos, que não deixariam nada a dever a um filme do Tarantino.

Hoje, ao deparar-me com o caderno especial ‘Tragédia em Congonhas’, minha indignação chegou ao ápice: o jornal publicava a relação completa das vítimas do acidente. Lá estavam os nomes, destacados pelo fundo branco e diferenciados entre si por cores intercaladas. Ao centro, em vermelho, o número acachapante de mortos: 192. Tudo diagramado de uma maneira equilibrada e elegante, de modo que achei estar diante de algum anúncio publicitário, como as listas de alunos aprovados publicadas pelos cursinhos em épocas de vestibular.

Acho saudável que os jornais estejam sensíveis às demandas dos leitores e, assim, possam inovar e oferecer produtos diferenciados (como suplementos, cadernos especiais sobre eventos esportivos etc.). Quando se trata de uma tragédia, porém, esperamos mais sobriedade e mais respeito.

Proponho, com os meus comentários, uma reflexão acerca dos limites do jornalismo em tempos de crise. Todos sabemos que as tragédias são um prato cheio para a atividade jornalística. No entanto, transformar a cobertura em um nítido produto é imoral.

Atenciosamente, Pedro Correa Martins

******

Historiador, São Paulo, SP

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