Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > Autobiografia de um jornalista

Experiência pessoal como ferramenta de conhecimento

Por Washington José de Souza Filho em 10/10/2015 na edição 871
Vida privada no contexto público, de Sérgio Mattos, ed. Contexto, 2015. 648p

Na definição do próprio Sérgio Mattos, autor do livro, ele é multifacetado, capaz de realizar diversas atividades, quase simultaneamente e concentrando-se em apenas uma quando a necessidade é concluir uma atividade que tenha iniciado, muitas vezes em meio a outras. O livro Vida privada no contexto público, lançado em Salvador, nesta quinta-feira (8/10), no Palácio da Reitoria da UFBA, representa a descrição de um percurso de quem, ao escolher diversas opções, centrou-se em uma – o jornalismo –, por meio da qual consolidou a segunda – a dedicação à educação, na formação de novos jornalistas.

Jornalista, professor universitário, escritor, poeta e músico, Mattos admite a capacidade de ser muitos, mas entre as virtudes e os defeitos que reconhece, e entre as características que considera atribuídas a ele destaca, particularmente uma: a disposição de nunca confrontar-se, com quer que seja e sobre o pretexto que for. O mesmo admite, porém que seja incapaz de desistir de um embate, quando surge.

O livro que ora publica, diferentes de muitos de uma trajetória iniciada como jornalista há 50 anos, mas classificada como a de agitador cultural, revela a disposição do bom combate, ao apresentar a sua perspectiva. A sua vida profissional e pessoal relacionada com os fatos que acompanhou e participou nas décadas de atuação relacionadas com o jornalismo e a educação, ainda mantida como professor da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), depois de aposentadoria na UFBA.

“Esboços” da genealogia paterna e materna

A publicação é uma autobiografia. O livro representa uma das muitas faces de Sérgio Mattos, que ao optar pelo registro da sua atuação profissional, mas com uma forte e destacada abordagem da vida pessoal, expõe de maneira direta o que sempre revelou de maneira discreta, de acordo com o seu estilo. A apresentação que fatos, nos quais esteve envolvido, com o registro que inclui para complementar as observações, seja através de documentos, textos ou mesmo os comentários, algumas vezes de maneira irônica, soa como a disposição de promover uma revisão deles, com a intenção de estabelecer a sua visão. Mattos define o sentido do que representa a sua visão da vida privada – a dele – exposta de maneira pública, ainda que ele represente em boa parte – e com um importante valor – a atuação dele neste contexto – a de um homem que faz a sua exposição, sem a necessidade, por exemplo, de um biógrafo.

De alguma forma, o que faz é como quisesse estabelecer, como uma resposta para todas as coisas, sobre a formação, a carreira profissional, as diversas atividades, a vida pessoal: de mim, falo eu.

Escreve Sérgio:

“As interpretações e análises que faço de meu tempo de vida podem apresentar contradições se confrontadas com relatos e testemunhos de outras pessoas, mas representam a expressão da minha consciência e da percepção de minha própria vida inserida no contexto socioeconômico, cultural e político do país e da Bahia em particular. Ao longo dos anos exerci múltiplas atividades, às quais me entreguei com dedicação. Mas duas delas sempre se destacaram e estiveram próximas: jornalismo e educação, contribuindo e influenciando diretamente na construção da minha obra.”

Apesar da influência e importância da Bahia, Sérgio nasceu no Ceará, em Fortaleza, de onde veio para Salvador, após uma passagem pelo Recife, em consequência do trabalho do pai. O livro, dividido em sete partes, dedica as três primeiras para registrar desde o seu nascimento, até o início da carreira como jornalista, vivida em Salvador, na efervescência da década de 60, marcada pelo golpe militar de 64. A publicação, complementada por anexos, inclui o que o autor define como “esboços” da genealogia das famílias paternas e maternas.

Vida acadêmica não impediu dedicação a outras atividades

Entre as sete partes do livro de Sérgio, o destaque – sem que a referência a sua origem e formação não tenha importância – surge a partir da terceira, que é dedicada ao começo da trajetória como jornalista. A formalização, por assim dizer, representa uma escolha, uma decisão que contraria a visão da família, mas como surge como a opção mais natural para ele, envolvido com a realização de publicações, desde a adolescência, como morador, em Salvador, do Rio Vermelho, um bairro que ainda mantém a referência de boêmio.

O ingresso no curso de Jornalismo da UFBA e, em seguida, na Tribuna da Bahia, marca a atuação como profissional do jornalismo. A Tribuna está celebrizada no jornalismo baiano pelo processo de formação e capacitação da equipe, jovens jornalistas, desenvolvido para a implantação do jornal, realizado pelo jornalista Quintino de Carvalho. A preparação durou quase um ano, desde 68, até o lançamento do jornal, em outubro de 69. O trabalho na Tribuna, paralelo à realização do curso, mais adiante, vai permitir o acesso ao jornal A Tarde, onde consolidou a carreira.

A atuação como jornalista, parte mais visível das diversas fases de Sérgio Mattos, liga-se a de professor na mesma UFBA, pouco tempo depois da conclusão do curso. Mattos estabelece na Universidade uma carreira profícua, consagrada como um dos mais importantes acadêmicos brasileiros, uma condição reconhecida fora do Brasil, percebida, facilmente, no Exterior. A obtenção dos títulos de mestre e doutor na Universidade de Austin, cidade do Texas, nos Estados Unidos, serviu como o passaporte para o reconhecimento internacional.

A vida acadêmica, desenvolvida paralelamente ao trabalho como jornalista em A Tarde, depois da conclusão dos cursos nos Estados Unidos e a volta ao Brasil, não impediu a dedicação a outras atividades, marcada pelo empreendedorismo – principalmente as relacionadas com a Literatura – e a produção artística. Sérgio, ele mesmo admite, talvez pudesse ter alcançado um maior destaque entre algumas das atividades que realizou, mas o desejo de novas realizações o empurrou para as diversas tentativas, ainda que tenha feito todas com a mesma dedicação, como faz questão de ressaltar.

“Uma ferramenta do conhecimento”

A descrição que Sérgio faz de si é ampla, na proporção que tem o livro. Ainda que sejam referências dele, elas são importantes, principalmente entre a sexta e a sétima partes. A disposição de expor a vida, ao apontar as questões que acompanhou e participou tem diversos lances, entre os quais merecem destaque o papel desempenhado como candidato a reitor da UFBA, além da avaliação da saída de A Tarde, uma bem sustentada crítica e com uma referência firme, sem pestanejar, a “passagem relâmpago e irresponsável” do jornalista Ricardo Noblat, que sempre se apresenta como sábio sobre todas as coisas, na direção do jornal.

As referências feitas por Sérgio que não podem ser esquecidas incluem outra experiência polêmica, como a saída do Instituto de Radiodifusão da Bahia (Irdeb), para o qual foi indicado para o cargo de diretor geral, no Governo de João Durval Carneiro, na década de 80. Da mesma forma, há ainda o inusitado ato de “desnomeação”, em 2006, para o cargo de Secretário de Comunicação da Prefeitura de Salvador, pelo na época prefeito, João Henrique Carneiro – por coincidência, filho do ex-governador João Durval.

Em relação aos dois fatos, Sérgio, com a mesma ênfase da avaliação do declínio de A Tarde, aponta as suas críticas para as manobras do poder político, ainda que no caso da Prefeitura de Salvador aponte, sem receio, a causa do seu afastamento de um cargo do qual não tomou posse para a direção do jornal, contra o qual mantinha um litígio na Justiça do Trabalho, depois do afastamento.

A leitura do livro é um convite, não apenas, para a descoberta sobre a vida pessoal e profissional de um homem que a despeito da exposição que faz, permite ao apresentar os fatos que destaca, dos quais participou, em boa parte de forma direta, uma avaliação sobre um tempo, principalmente entre os que estão incluídos na sua trajetória como jornalista, iniciada há 50 anos. Ao mesmo tempo em que faz um registro, Sérgio propõe que “a experiência individual seja transformada em uma ferramenta do conhecimento”, não fosse ele, entre as diversas faces, não tivesse entre as mais destacadas a do jornalismo e a da educação, pelo trabalho como professor universitário.

***

Washington José de Souza Filho é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA e doutor em Ciências da Comunicação

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