Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > LITERATURA & JORNALISMO

Flipando na onda

Por Norma Couri em 10/07/2007 na edição 441

Ele caminhava torto pelas pedras roladas de Paraty com hordas de jornalistas pedindo aspas ou um sorriso, mas J.M. Coetzee não estava ali para entrevistas ou fotos. O genial prêmio Nobel sul-africano está tão de mal com a imprensa desde a distorção tão brutal de suas respostas numa entrevista que não acredita mais em gravador nem em ouvido de repórter. No máximo, responde como escritor, por e-mail, depois de severa seleção (nem pense em se habilitar).


Se a moda pegar, a Festa Literária Internacional de Paraty vai naufragar porque, em cinco edições, finca seus pilares na falação: estrelas nos palcos, coletivas, telões, tradução simultânea. São três dias de entrevistas coletivas e aquelas que os jornalistas mais almejam, as tais exclusivas, nas quais os poucos autores massacrados por múltiplos gravadores repetem, incansáveis ou mortos de cansaço, o que disseram na exclusiva anterior.


E se o público acreditar no que afirmava semana passada Robert Fisk, o correspondente britânico do The Independent baseado há mais de quatro décadas no Líbano, não vale a pena ler o que os jornais reproduzem se não forem ingleses ou franceses: a imprensa em geral mente, inventa, manipula e romanceia (menos ele).


Não foi à toa que o escritor israelense Amós Oz declarou nesta FLIP que começou na quinta-feira (5/7) e terminou no domingo (8) que a melhor maneira de conhecer a verdade de um país é lendo seus autores, sua ficção, seus romances. ‘Pelos jornais, só sabemos de suicidas, catástrofes, horrores e carnificinas. É pela literatura que se encontra a verdade. Procurem lá, não nos jornais’


Inveja da favela


A imprensa amontoada na casa que pertence ao navegador Amyr Klink também era uma atração para os freqüentadores assíduos das FLIPs, aqueles que saem antes das palestras e debates terminarem para fazer uma interminável fila que conduz à toca sagrada, ao autor em pessoa (‘pensei que fosse mais moço’, ‘ele riu para mim’, ‘tirei uma foto ao seu lado para mostrar aos netos’), ao autógrafo num livro que ali se compra com sobrepreço e que talvez nem seja aberto um dia. Mas contamina a casa. Jovens, velhos, adolescentes, empresários, gente do ramo e os não-iniciados estão ali, andando de um lado para o outro, lotando pousadas e restaurantes, comendo e bebendo escritores nem que seja por quatro dias.


Para coroar o acontecimento um príncipe de verdade, Joãozinho de Orleans e Bragança, oferece caipirinha em casa, e os autores, que só sabiam de Brasil através de notícias do inferno, os seqüestros, a tomada dos morros, a morte por um tênis ou dez dólares, fazem um passeio de barco e encantam-se com o paraíso.


A FLIP não trouxe nenhum escritor português, mas cinco africanos, dois prêmios Nobel – Nadine Gordimer além de Coetzee –, dois de língua portuguesa, o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa, e um negro, de Serra Leoa, Ismael Beah, de 26 anos, que visitou o Vidigal e teve inveja da favela brasileira. ‘Eu só aprendi a matar, matar, matar e a gostar de matar’.


Concentração e respeito


A FLIP ofereceu palcos suculentos para a platéia de mais de 30 mil em duas tendas. O suave californiano Jim Dodge, que criou uma bem-sucedida pata, FUP, foi ofuscado no palco pelo agressivo britânico Will Self, que pediu em casamento o mediador do debate, o jornalista Artur Daviepe, e ameaçou invadir a casa e aterrorizar quem ousasse fazer perguntas indigestas. Havia uma indiana, uma egípcia, um mexicano, dois argentinos e vários brasileiros irritados porque o foco das luzes da FLIP recaía sempre sobre os estrangeiros.


Natural. Happening cerebral, bouillon de culture, respiro intelectual, esbarra-se em personalidades que nunca fizeram parte do cenário – as que vem espiar outras personalidades e as que se deixam espiar –, com direito a um fim de semana em Paraty, quem quer perder, deixar de ler os bastidores, deixar escapar a chance de ser mais um a cobrir? Ver Nadine Gordimer ir de charrete para a entrevista do Roda Viva, o príncipe Joãozinho tirar uma foto ao lado do serraleonês Ismael Beah, Agualusa dar um mergulho saltando em grande estilo do barco dos escritores… Dá para perder? Ainda por cima ganhando a Folha de S.Paulo de graça ou, se pagasse, levando junto uma penca de bombons da Kopenhagen (só por causa deles, muita gente levou três edições)?


Teve gente que não gostou, literatura merece mais concentração e respeito, mas lá estava o patrono desta FLIP, Nelson Rodrigues, com suas colunas em O Globo (‘A Vida Como Ela É’) ensinando: toda unanimidade é mesmo burra…

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/01/2010 Luís Morna Morna

    Olá Norma .Li seu artigo(Amazónia-A esperança nunca se abate) e adorei!!!Só lamento o falhanço de Copenhaga e saber que muito se abate sem causa alguma!Se poder,responda para meu endereço de mail:luis_morna@hotamil.com
    Um grande abraço e continue denunciando o holocausto da Amazónia.Sou de Portugal,Ilha da Madeira

  2. Comentou em 10/07/2007 Deonísio da Silva

    Como sempre, Norma Couri refresca a alma de quem leva literatura a sério. Se os organizadores da FLIP quisessem de fato discutir os temas que anunciaram, os convidados deveriam ser outros. Com aqueles convidados, deveriam mudar os temas. Soube por pessoas que lá estiveram, muito bem informadas, que a mesa da censura, por exemplo, restringiu-se ao caso Roberto Carlos, nem de longe o tema solar das proibições havidas neste país, onde a censura é norma e não exceção ao longo de todo o período republicano. Até um ex-presidentes da República, vivo e atuante intelctualmente, está entre os 508 livros proibidos no Brasil pós-64, mas nem isso foi lembrado. Na mesma semana em que a FLIP fazia isso, uma revista semanal de informação dizia que em 1979 foi entregue ao ministro da Justiça um manifesto de 1000 intelectuais contra a censura. Foram 1046, os subscritores tinham nome, profissão conhecida, rg, endereço etc, e a ditadura os identificou um a um. E não foi em 1979, mas em 1977, no Governo Geisel, quando o então ministro Armando Falcão se recusou a receber a comissão que lhe entregaria o abaixo-assinado. Em 1979, já vivíamos o governo João Figueiredo e o ministro da Justiça era outro.
    O dever dos intelectuais é esclarecer os temas em debate e não aumentar a confusão. Para aumentar a confusão, são dispensadas maiores qualificações.
    Deonísio da Silva, Rio de Janeiro

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