Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > FIM DE SEMANA, 12 E 13/05

Folha de S. Paulo

18/05/2007 na edição 433


MÍDIA & UNIVERSIDADE
Luiz Costa Lima


Sob o domínio da imagem


‘Há pouco mais de uma década deu-se entre nós a reaproximação do intelectual
com a imprensa cotidiana. Em um país que custou a implantar o ensino
universitário, o jornal havia sido o veículo de aprendizagem dos que queriam
aprender a escrever.


A convivência durou enquanto foi de bom-tom que os periódicos tivessem um
suplemento literário. Durante o regime militar de 1964, foram eles
progressivamente desaparecendo.


A reaproximação, no início da redemocratização, tinha não só uma motivação
política: ante o insulamento das universidades, o intelectual, convertido em
professor, encontrava nos jornais uma maneira de retomar o contato com o público
em geral e de intervir no debate potencialmente nacional.


Quem pesquisar as coleções dos jornais mais importantes do país verificará
que os chamados suplementos de cultura têm, cada vez mais, menos páginas e
deixado de contar com muitos nomes que ainda há pouco os freqüentavam.


Assim não sucedeu porque as universidades aumentaram postos e encargos ou
melhoraram suas condições salariais. Tampouco porque se ampliou o leque de
profissões.


Em vez de postular uma única razão para a drástica redução do intelectual nos
jornais, é mais fecundo expor alguns atalhos passíveis de serem
desenvolvidos.


Para isso, lançarei mão de duas abordagens, que têm em comum apenas não
tocarem no problema que aqui focalizo.


Exploração midiática


Da primeira foi responsável Jürgen Habermas, cujo texto este caderno traduziu
e publicou um resumo.


Em ‘O caos da esfera pública’ (Mais! de 13/8/2006), Habermas caracterizava o
perfil do intelectual que se firmara a partir do Iluminismo e estivera presente
até aos anos próximos ao fim da Segunda Guerra: ‘Seu mundo é o de uma cultura
política da contradição, em que as liberdades comunicativas dos cidadãos podem
ser desencadeadas e mobilizadas’.


A intervenção do intelectual embaraçava a formação de homogeneidades inertes
e estáveis, sempre bem-vistas pelo poder político. Em seu lugar, a intervenção
do intelectual introduzia uma nota de dissonância.


Como exemplo modelar, considere-se a manifestação de Hannah Arendt quando do
processo contra Adolf Eichmann, um criminoso de guerra.


Para quem conhecia o papel desempenhado pela judia emigrada no debate sobre o
pensamento político da modernidade ocidental, deverá ter sido surpreendente sua
crítica contra a conduta do Estado de Israel, desenvolvida nas 300 páginas de
seu ‘Eichmann em Jerusalém’ (1963, revisto e ampliado em 1965 e publicado no
Brasil pela Companhia das Letras).


O fato de que o capturado era um réu confesso não justificava a exploração
midiática de seu processo; ao contrário, por ele se cumpria a ‘banalidade do
mal’.


Arendt preferia desgostar irmãos e aliados do que deixar de levar a sério seu
papel de pensadora política.


O mesmo poderia ser dito da campanha de Noam Chomsky contra a ‘guerra santa’
movida pelo presidente George W. Bush contra o Iraque. Limitemo-nos, porém, ao
argumento de Habermas: com a propagação da TV, o modelo do intelectual foi
corroído: ‘A televisão convida (seus) participantes à representação de si
mesmos’.


O intelectual tende então a se tornar um ser performático. Em vez de
argumentos, especializa-se em fazer ‘caras e bocas’; em converter idéias em
frases curtas, irônicas e picantes.


O ‘iconic turn’, o primado da imagem visualizada, afetou-o profundamente. E
deu lugar a um híbrido curioso: um certo jornalismo ‘cultural’, que mistura
fofocas da sociedade com declarações bombásticas sobre livros, filmes e
exposições.


O intelectual converte-se em mais um profissional, dissemelhante em absoluto
de seu modelo passado.


Mas como se manifesta o intelectual transformado em profissional?


É evidente que, para sua caracterização, não basta considerar sua
participação na rede midiática, pois ela é bastante pequena. É na sala de aula,
nos seus artigos ou livros que ela se expressa.


É tendo em conta sua presença aí que podemos dizer: a conversão do
intelectual em profissional se dá pela redução de seu interesse, dentro do campo
em que se especializou, a uma área bem restrita; seja um tema, um autor ou um
período.


Nem pensar que lhe interesse desenvolver uma reflexão teórica sobre sua
especialidade.


É aqui que importa a reflexão do físico teórico Freeman Dyson (‘The world on
a string’, O mundo em uma corda, ‘New York Review of Books’, 13/5/2004). Dyson
discute o estado da física contemporânea.


A vocação intelectual


Segundo expõe, duas teorias hoje convivem: a relatividade geral que vigora
para os grandes objetos (como o sistema planetário) e a mecânica quântica, para
os pequenos.


Não seria desejável unificá-las, ainda mais que, do ponto de vista da
demonstração matemática, são entre si contraditórias?


Os defensores da unificação, alcançável por uma teoria que abrangesse as
anteriores, aspiram a que a física passe a conter um conjunto finito de
equações, que serviriam de base para as outras ciências da natureza.


Embora Dyson reconheça que as teorias vigentes se contradizem mutuamente, não
embarca na busca da unificação, seja porque não vê como matematicamente
consegui-lo, seja porque lhe parece de muito maior relevância acentuar a
importância de que a investigação científica mantenha duas direções, a analítica
e a sintética.


A analítica ‘reduz fenômenos complicados a seus componentes mais simples’; a
sintética, ao contrário, ‘constrói estruturas complicadas a partir de suas
partes mais simples’.


Por minha conta, acrescento: a preservação do analítico e do sintético é
fundamental para toda e qualquer atividade que se pretenda intelectual.


Assim, em vez de concorrer com os profissionais performáticos ou de se
acomodar a um nicho que o cega para a compreensão do campo em que se diz
especialista, o intelectual manteria a possibilidade de optar ou por um caminho
mais prático -o analítico- ou por um mais reflexivo e interrogador.


Quando então interviesse no debate público, o faria não como ‘profissional’
ou de acordo com o figurino midiático, senão como alguém que atende a sua
‘vocação’. Onde essa desaparecer, o caminho estará aberto para uma sociedade de
autômatos. Será o nosso caso?


LUIZ COSTA LIMA é crítico e professor da Universidade do Estado do RJ e da
Pontifícia Universidade Católica (RJ). É autor de ‘História, Ficção, Literatura’
(Companhia das Letras).’


VENEZUELA
Fabiano Maisonnave


Fim da RCTV tira novela popular do ar


‘O enredo é típico de uma novela latino-americana: o mulherengo David
Espinoza tenta mudar de vida ao se apaixonar por Graciela Andreína, moça
sonhadora que sofre de uma gravíssima doença. Mas o dramalhão dos protagonistas
da novela venezuelana ‘Mi Prima Ciela’ tem um ingrediente a mais. No ar há dez
dias, deve deixar o público órfão daqui a exatamente duas semanas, junto com
todo o restante da programação da RCTV.


O presidente Hugo Chávez anunciou para o dia 27 a morte da emissora, nunca
perdoada por ter apoiado abertamente o golpe frustrado contra ele, em 2002. Com
53 anos e 2.800 funcionários, a RCTV é a mais antiga do país e uma das que mais
têm produção local, com cerca de nove horas diárias -entre as quais, ‘Mi Prima
Ciela’.


Com uma audiência média de 35 pontos na última semana, ‘Mi Prima Ciela’ é o
segundo programa mais assistido das 21h às 22h, horário nobre da TV local. É um
público diário de 3 milhões dos 26 milhões de venezuelanos, segundo levantamento
da AGB Nielsen.


Se, no exterior, a batalha entre RCTV e Chávez é mostrada em torno da
liberdade de expressão, na Venezuela, a opinião pública está mais preocupada com
a popular grade de entretenimento da emissora, cujas novelas são o
carro-chefe.


A RCTV tem feito uma intensa campanha relacionando o fim da emissora ao das
novelas. Nos intervalos, por exemplo, aparece uma dona-de-casa pedindo para
Chávez ‘deixar a minha novela em paz’.


Já o governo Chávez, ciente de que a medida é impopular -69% de rejeição,
segundo o instituto Datanálisis- convocou profissionais de novela simpáticos ao
governo para montar uma série no canal estatal que substituirá a RCTV.


Na última terça, a reportagem da Folha visitou os estúdios da novela, gravada
na sede da RCTV, numa área decadente do centro de Caracas.


Do lado de fora, o prédio, semelhante a uma caixa-forte, reflete a polêmica
da RCTV, com as paredes transformadas num imenso mural de apoio à emissora.
Semanas antes, as mesmas paredes amanheceram com pichações pró-Chávez e velas
simulando um funeral.


Dentro, à exceção de cartazes da campanha pró-RCTV, o trabalho segue o ritmo
frenético de qualquer emissora. Nos modestos estúdios -um corredor com cerca de
dez cenários-, os atores se preparavam para gravar por toda a tarde.


Parte das cenas gravadas nos últimos dias provavelmente nunca irá ao ar. Já
há 15 capítulos prontos, quase o suficiente para cobrir até o dia 26. Mesmo
assim, o canal promete continuar tocando a novela -os contratos dos 25 atores
não prevêem o fim da concessão.


Com o prazo fatal chegando, os atores se vêem como a orquestra do Titanic?
Não, diz Nacho Huett, 35, já na sua 11ª novela, onde vive um cineasta que se
apaixona por uma mulher 20 anos mais velha. ‘Nas outras novelas, trabalhávamos
sem essa pressão, mas quase todo mundo aqui tem anos de RCTV e tenta fazer seu
trabalho de forma profissional’, diz.


Protagonista pela primeira vez, o galã Manuel Sosa, 22, custa a acreditar que
a sua grande chance será interrompida. ‘Nunca penso que fecharão o canal, que eu
colocarei o 2 na minha TV e não estará lá.’’


TELEVISÃO
Théo Azevedo


Série mostra viagem dos videogames pelo tempo


‘‘Eu lancei a maldição dos videogames sobre o mundo’, brinca Steve Russell no
primeiro dos cinco episódios de ‘A Era do Videogame’, série que começa a ser
exibida na quarta-feira pelo Discovery Channel.


O responsável pelo primeiro jogo para computador, ‘Spacewar!’, criado em
1961, é um dos entrevistados da produção, que explica, pixel a pixel, como a
‘brincadeira séria’ dos jogos eletrônicos se transformou em uma indústria
bilionária.


Em vez de manter as abordagens usuais, comparando os games com a indústria de
Hollywood -ou, pior, associando-os ao terrorismo e à violência-, o documentário
os coloca onde devem estar, ou seja, como uma manifestação cultural importante,
levando o telespectador a pensar sobre os jogos eletrônicos como reflexos do
tempo.


É uma história rica, que começa na década de 50, época em que ‘pressionar o
botão’ poderia significar o fim do mundo, imagem mudada pelo predecessor de
‘Pong’, ‘Tennis for Two’, criado por um cientista que ficaria mais conhecido por
ter participado do projeto da bomba atômica. Anos mais tarde, quando a TV
funcionava como uma máquina de más notícias, graças à Guerra do Vietnã, o Atari
levou os games para a sala de estar.


A série é recheada de entrevistas, uma oportunidade e tanto para conhecer
figuras como Nolan Bushnell e Alexey Pajitnov, criadores do Atari e Tetris,
respectivamente, e Shigeru Miyamoto, ícone da indústria e responsável por ‘Super
Mario Bros.’, que salvou os games da falência em época carente de personagens e
heróis.


Diversão de gente grande


‘A Era…’ passeia por diferentes épocas sem seguir necessariamente uma ordem
cronológica, o que dá dinamismo à produção, entremeada por trechos de jogos,
desde os clássicos até os recém-chegados. Por isso, em questão de segundos, os
games vão da pureza e inocência do bigode de Mario aos crimes do controverso
Grand Theft Auto (ou simplesmente GTA).


Tanta agilidade faz o programa valer a pena até para os que não jogam mais,
enquanto os ‘gamemaníacos’, que costumam se preocupar com a sua paixão sendo
distorcida por produções da grande mídia, devem ir ao êxtase ao ver tantos
estudiosos, jornalistas e membros do setor juntos. É claro que os mais
perfeccionistas verão uma ou outra pequena incoerência, como imagens de Tomb
Raider quando o assunto são jogos on-line, mas nada que vá agitar os fóruns na
web.


Do meio para o fim da minissérie entram em cena algumas tendências, como o
uso da realidade virtual para recrutamento militar, que tem como símbolo máximo
‘America’s Army’, produzido pelo exército dos EUA. Mas faltou aprofundar o tema
-a tecnologia dos jogos também tem sido usada em aplicações médicas,
educacionais, cidadãs etc.


O último episódio é sobre internet e games on-line, como os RPGs ‘World of
WarCraft’ e ‘EverQuest’, que reúnem milhares de pessoas em mundos de fantasia.
Porém, surpreende o excessivo enfoque em ‘Second Life’ que, embora tenha sua
parcela de importância no mundo virtual, não é um jogo propriamente dito, mas
uma ferramenta de socialização.


Temas como, por exemplo, as novas profissões que os games criaram ficaram de
fora. Mas, em geral, ‘A Era do Videogame’ se sai muito bem ao desvelar a
‘maldição’ de Russell por vários ângulos, da simples diversão à manifestação
cultural, como parte integrante da sociedade moderna. Durante as próximas
semanas, às 21h, dê um ‘pause’ e vá assistir.’


Marcelo Bartolomei


Maria Flor protagoniza ‘Eterna Magia’


‘Rosto já conhecido no cinema, com papéis em filmes como ‘Quase Dois Irmãos’
e ‘O Diabo a Quatro’, Maria Flor, 23, encara, a partir de amanhã, um desafio
inédito: liderar o elenco de uma novela da Globo. Sua Nina é a protagonista de
‘Eterna Magia’, de Elizabeth Jhin, a nova produção da emissora para o horário
das 18h.


No mesmo dia em que seu maior ícone da TV, a companheira de elenco Malu
Mader, reclamava publicamente dos boatos que circulavam na imprensa sobre o
suposto fim de seu casamento, Maria Flor sentiu na pele o que deverá enfrentar
nos próximos oito meses.


‘Eu me assustei’, conta, referindo-se ao dia em que elenco e produção foram
apresentados à imprensa. ‘Era tanto jornalista, tanta pergunta e um assédio que
eu nunca tinha vivido nas entrevistas sobre os filmes que fiz antes.’


‘O público sempre foi carinhoso comigo. Eu acho que construí alguma coisa.
Não sei como eles acham que a Maria Flor é. Eu acho que os fãs queriam que eu
fosse mais alta’, brinca. ‘Quero que as pessoas venham falar comigo na rua
[sobre o personagem] e dêem sua opinião.’


Em ‘Eterna Magia’, Maria Flor será Nina, uma descendente de bruxas que
renegará seus poderes por achar que eles fizeram mal à família no passado.
Diferentemente de outros papéis -em ‘O Diabo…’ e ‘Belíssima’, ela viveu
prostitutas- , a atriz será uma clássica mocinha romântica, apaixonada pelo
noivo, que sofrerá quando descobrir que será trocada pela irmã. ‘Há alguns dias,
eu gravei uma cena em que ela está toda sofredora e cai de uma escada. Me
inspirei em Scarlet O’Hara, de ‘E o Vento Levou’, para fazer a Nina’, conta.


Cacá Diegues reprovou


Carioca de Laranjeiras, Maria Flor estudou teatro na infância, mas se dedicou
ao balé na adolescência. ‘Eu decidi que queria ser bailarina, mas surgiu o
cinema.’ Por causa da paixão pela profissão e do porte físico – 1,62 metro e 46
quilos-, fez aulas de acrobacia aérea e de dança, até que um dia foi convidada a
fazer um teste para o filme ‘O Diabo a Quatro’, de Alice de Andrade. Antes,
chegou a se empolgar com uma possível entrada no cinema, quando foi dirigida por
Cacá Diegues em um teste para ‘Deus É Brasileiro’, no qual não passou.


Depois da reprovação, procurou cursos de interpretação e foi chamada para o
filme ‘Quase Dois Irmãos’, de Lúcia Murat, e também para uma participação em
‘Cazuza – O Tempo Não Pára’, de Sandra Werneck e Walter Carvalho.


Numa trajetória inversa à da maioria dos companheiros de cena, do cinema para
a televisão, abandonou os cursos, inclusive a faculdade, para fazer ‘Malhação’
(2003), ‘Cabocla’ (2004) e ‘Belíssima’ (2005). ‘Às vezes, a gente tem que fazer
alguns trabalhos que levam a outros. Fiz ‘Malhação’ e aprendi muito ali. Eles
fazem muitas cenas por dia, é uma rapidez e muita gente em cena’, avalia.


Da admiração platônica à convivência diária, ela tem gravado ao lado de
grandes nomes do teatro e da televisão. ‘A gente tem que observar muito. Me
inspiro nas pessoas da rua, nos outros atores, pergunto se está bom. Eu amo a
Malu, por exemplo. Imagina: eu assisti a ‘Top Model’ [1989] e agora estou
fazendo a irmã dela, que era minha musa inspiradora’, diz.


Novela à parte, Maria Flor pode ser vista atualmente nos cinemas como a
Letícia de ‘Proibido Proibir’, de Jorge Durán, em que é um dos vértices do
triângulo amoroso também composto por Caio Blat e Alexandre Rodrigues. Na
história, ela é a estudante de arquitetura Letícia, que, na companhia dos
pretendentes, enfrenta uma situação-limite quando o filho de uma paciente de
Paulo (Blat) é ameaçado pela banda podre da polícia.


Ainda neste ano ela aparecerá em ‘Pode Crer!’, de Arthur Fontes, e ‘Chega de
Saudade’, segundo longa-metragem de Laís Bodanzky. ‘Vai parecer que eu trabalho
muito e faço várias coisas, mas os filmes, todos, já foram feitos.’’


***


Bruxaria será usada para o bem, diz autora


‘Nina (Maria Flor), Pérola (Eliane Giardini), Zilda (Cássia Kiss), Elisa
(Milena Toscano), Medéia (Araci Esteves) e Clara (Anna Rita) serão valentinas
declaradas em ‘Eterna Magia’. Segundo a autora, Elizabeth Jhin, outras mulheres
também descobrirão o dom durante a novela. A maioria usará o poder para fazer o
bem, e apenas a personagem de Cássia Kiss, por ser a vilã da história, fará
declaradamente o mal. ‘Nossas bruxas são descendentes dos celtas, da tradição
irlandesa. Por isso, não são chamadas de bruxas, mas sim de valentinas, pessoas
que têm o dom da magia’, disse ela.’


Bia Abramo


Passado e oculto fazem a festa às 18h


‘SAEM OS fantasminhas camaradas de ‘O Profeta’, entram bruxas ruivas em
‘Eterna Magia’. Nosso mago de plantão, Paulo Coelho, participa como ator, no
papel de um mago celta, e empresta sua credibilidade de expert no oculto para a
trama.


A se acreditar numa leitura muito corrente da mitologia celta, a Irlanda
pré-medieval era povoada por feiticeiras protofeministas e devotas da natureza.
O acerto aí é duplo: o tema do fortalecimento feminino está no ar, como o
murmúrio ecológico.


A dobradinha temas sobrenaturais e ‘novela de época’ se fixou, de fato, como
o nicho da novela das seis.


O tempo remoto garante uma espécie de leveza que parece impossível numa
novela contemporânea -a não ser na forma de humor e deboche, como é o caso das
produções do horário das 19h.


Se, por um lado, parece ser preciso tratar, nas novelas passadas nos tempos
atuais, de assuntos complicados que estejam na ordem do dia (e suscitem algum
tipo de polêmica), as de época estão mais ou menos livres para exagerar nos
clichês românticos e na ingenuidade.


Da mesma maneira, ao colocar as crenças no sobrenatural -quaisquer que sejam,
de fundo mais ou menos religioso ou simplesmente derivadas de uma vontade de
acreditar em explicações não-racionais- no centro das tramas, aposta-se numa
espécie de vale-tudo irrealista, que deve, de alguma maneira, servir como
conforto escapista.


‘O Profeta’, nesse sentido, foi exemplar. Com história situada numa rósea e
pouco rebelde década de 50 e espiritismo light, além de protagonistas lindos e
loiros, funcionou tão bem que a nova das seis, ‘Eterna Magia’, vai ter que
contar com os nomões de Malu Mader e Thiago Lacerda e as artes de Paulo Coelho
para manter a bola em jogo.


Se ‘Paraíso Tropical’ sofre de uma espécie de embotamento da inteligência ao
tratar das questões amorosas, ‘Vidas Opostas’ carrega nas tintas da perversidade
nesse tema. Parece que nenhum autor de novela acordou para o fato de que as
relações amorosas se complicaram, não por conta de um mal externo.


O amor imorredouro, impoluto e disposto a enfrentar qualquer obstáculo que
acomete os pares românticos tornou-se uma espécie de loucura a dois,
desencantada e neurótica, na qual os impedimentos vêm antes de dentro do que de
fora. Se mesmo as novelas mais corajosas, e essas duas, cada uma a seu modo,
são, não tomarem pé do estado das coisas nesse terreno, vão continuar marcando
passo.’


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