Sexta-feira, 20 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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ARMAZéM LITERáRIO > FIM DE SEMANA, 26 E 27/4

Folha de S. Paulo

29/04/2008 na edição 483

IMPRENSA NA JUSTIÇA
Lilian Christofoletti

Ações de juízes contra mídia têm valor maior

‘As indenizações por danos morais fixadas em processos iniciados por juízes contra organismos de imprensa têm valor aproximadamente três vezes maior do que as estipuladas em ações movidas por pessoas de outras áreas de atuação.

A reportagem analisou as decisões proferidas em 130 processos abertos contra televisões, jornais e revistas de todo o país. Foram consideradas as diferentes instâncias e autorias.

Segundo o levantamento, o magistrado que recorreu à Justiça alegando ter se sentido ofendido por alguma reportagem obteve, em média, uma indenização de cerca de R$ 470 mil ou 1.132 salários mínimos.

Uma outra pessoa que tenha buscado no Poder Judiciário o mesmo tipo de reparação teve como resposta uma indenização menor, fixada em aproximadamente R$ 150 mil ou 361 salários mínimos.

‘Eu não tinha idéia disso, estou perplexo’, afirmou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que disse ser inconcebível existir um tratamento diferenciado entre um magistrado e um cidadão comum (leia texto abaixo).

Se o universo dos ‘não-magistrados’ for reduzido para as pessoas comuns, ou seja, se forem excluídos os artistas, políticos, advogados e membros do Ministério Público, a quantia estipulada judicialmente é menor, fica em torno de R$ 120 mil ou 289 salários mínimos.

Nesse valor total estão incluídos os processos movidos pelas três pessoas acusadas no caso da Escola Base, que estourou em 1994, quando inocentes foram presos por acusações improcedentes de violência contra crianças.

As indenizações fixadas em favor dos três envolvidos foram elevadas -para cada um foi definido, somando as diversas empresas jornalísticas acionadas na Justiça, cerca de R$ 2 milhões por danos morais.

Se os processos da Escola Base forem excluídos da contagem, o valor de indenização estabelecido para pessoas comuns que foram em juízo contra a imprensa se reduz para R$ 30 mil por pessoa, ou seja, cerca de 72 salários mínimos.

Instâncias

O levantamento das sentenças proferidas em diversas instâncias judiciais revelou uma tendência de os juízes das varas cíveis, de primeira instância, fixarem valores mais altos nas indenizações em geral.

Essa quantia pode ser modificada na segunda instância (Tribunais de Justiça), para mais ou para menos, e normalmente é reduzida pelos ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) de Brasília, que é a terceira instância judicial.

Dificilmente casos de indenização chegam ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Isso porque processos de reparação financeira são tidos como factuais e dependem mais de uma interpretação de cada magistrado sobre a situação reclamada. A vocação do Supremo é discutir questões constitucionais.

Segundo o levantamento da reportagem, em média, juízes de primeira instância fixaram em aproximadamente R$ 940 mil -ou 2.265 salários mínimos- as indenizações por danos morais para os colegas do Poder Judiciário.

Nos Tribunais de Justiça (segunda instância) essa média foi reduzida para R$ 236 mil (568 salários mínimos).

Quando chegou às mãos dos ministros do STJ (terceira instância), a quantia reparatória foi mantida em cerca de 500 salários mínimos (R$ 207,5 mil).

Entre os processos analisados, a indenização mais alta estipulada pelo Judiciário contra um organismo de imprensa foi dada numa ação movida pelo juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, que era titular da Vara de Infância e Juventude de Jundiaí quando foi acusado de supostas irregularidades em caso de adoção internacional de crianças em 1994.

Decisão da primeira instância condenou a Folha a pagar 500 salários mínimos relativos a cada uma das 31 reportagens sobre o caso, o que dá cerca de R$ 6,4 milhões. O processo ainda não foi analisado pelo Tribunal de Justiça.’

 

***

Tratamento diferenciado para juízes é ‘inconcebível’, diz ministro do Supremo

‘O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello afirmou ser ‘inconcebível’ que um juiz trate de forma diferenciada um colega do Judiciário que recorra à Justiça para tentar reparar um eventual prejuízo moral.

‘Não posso conceber que isso ocorra, eu fico perplexo. Quando um magistrado vai a juízo para reclamar por agressão a própria honra ele vai como um cidadão’, disse o ministro, que elogiou a tendência de o STJ reduzir as quantias fixadas.

Mello afirmou nunca ter pensado em interpelar um jornal ou um jornalista por entender que a privacidade de um homem público não é a mesma de um cidadão comum.

‘O homem público está na vitrine, é um livro aberto, e, evidentemente, se ele personifica o Estado, o faz com impessoalidade, ou seja, não pode se mostrar sensível quanto a pessoa dele próprio, a visão tem que ser outra’, disse o ministro.

Para o desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Celso Limongi, não existe uma tendência de o Judiciário favorecer os magistrados em decisões judiciais. Ele entende, no entanto, que é muito grande o prejuízo de um juiz que se vê envolvido em notícias negativas.

‘Quem julga tem a obrigação maior de se comportar bem. Por isso, o mal também é maior se o atingido for um juiz. Mas a diferença não é tão significativa. Eu não posso ter mais honra do que um médico. Mas entendo que um dano que atinja a honra de um juiz causa uma angústia maior’, disse Limongi.

Dois advogados de empresas jornalísticas que pediram para não serem identificados afirmaram que os valores fixados em favor de juízes sempre são mais elevados. Um deles disse que, além da quantia mais alta, o processo movido por um magistrado tramita mais rápido.

Contrário

O juiz gaúcho Newton Luís Medeiros Fabrício afirmou ter a percepção do que o ocorre é exatamente o contrário. ‘Eu acho que os juízes são mais rígidos com os colegas.’

O advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira, que representa o jornal ‘O Estado de S. Paulo’, disse também que, no seu dia-a-dia nos tribunais, não vê essa diferença.

‘Eu acho que as indenizações por danos morais são mais ou menos equivalentes. O que acontece é que as ações na maior parte das vezes são movidas por homens públicos’, disse Ferreira, que vê uma tendência de o Judiciário em geral aumentar o valor indenizatório.

Para advogada Adriana Lot Barreto Barbosa, que atuou numa das ações do juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, as quantias para danos morais não são expressivas. ‘Não o suficiente para inibir a imprensa marrom.’ Para ela, juízes de primeira instância fixam valores mais elevados ‘porque são mais corajosos e justos’.’

 

Juiz ganhou R$ 9,2 milhões em 11 processos

‘Um dos casos mais emblemáticos envolvendo magistrado e imprensa é o do juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, ex-titular da Vara de Infância e Juventude de Jundiaí (SP), que foi acusado de supostas irregularidades em caso de adoção de crianças.

Em 11 processos movidos por ele, as empresas jornalísticas foram condenadas a pagar um total de cerca de R$ 9,2 milhões por danos morais -algumas ações foram encerradas com acordos, outras ainda tramitam.

As acusações contra Beethoven surgiram em meados de 98 após um grupo de familiares apontar supostas irregularidades na quebra de pátrio poder (guarda) das crianças. Ministério Público e deputados endossaram as suspeitas.

Em dezembro de 2001, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu Beethoven.

Em outros casos, a crítica a uma decisão judicial motivou a condenação.

A TV Globo foi sentenciada a indenizar o juiz Airton Pinheiro de Castro, que viu uma sentença dele ser criticada no ‘Jornal Nacional’.

A reportagem relatava a dificuldade de acesso à Justiça para as camadas menos favorecidas da população. Citou dois casos: o de uma mulher presa por furtar um xampu e o de um acusado de tráfico de drogas que, defendido por um advogado bem pago, teria sido beneficiado por uma decisão de Castro.

A primeira instância não aceitou a ação pois entendeu que um juiz está sempre sujeito a críticas e, mesmo que correto, nem sempre contenta a todos.

Ao reavaliar o caso, o Tribunal de Justiça viu prejuízo moral e fixou a indenização em 500 salários mínimos. Cabe recurso.

Situações da vida privada também vão parar nas barras dos tribunais.

No Rio, um juiz estadual moveu um processo de reparação moral contra órgãos de imprensa porque foi divulgado um desentendimento dele com uma guarda municipal, que multou o carro do filho dele que estava estacionado em local proibido.

A Justiça condenou as empresas jornalísticas por entender que houve uma tentativa de desmoralizar o juiz e a família dele, que também foi incluída como beneficiária dos valores fixados de indenização. Ainda há recursos.’

 

REPELENTE
Carlos Heitor Cony

Amor-próprio ferido

‘RIO DE JANEIRO – Mais por cautela do que por temperamento, não sou dado a exaltações, mesmo assim, volta e meia me descubro um carioca exaltado, apesar dos milhões de motivos que o Rio me dá para a vergonha própria e a miséria coletiva. Em momentos de fossa urbana, não adianta pensar no Cristo do Corcovado, em Machado de Assis ou nas garotas de Ipanema. A solução é enfiar o rabo entre as pernas e assumir o mico de ter nascido e de viver numa cidade com tantos e tais problemas.

Foi uma foto quase inocente que vi nos jornais. No convés do porta-aviões George Washington, que está fundeado na baía, tendo ao fundo um dos nossos símbolos mais queridos, o Pão de Açúcar, um marinheiro norte-americano passa nos braços e no rosto o repelente contra os mosquitos da dengue.

De tanto ver documentários mostrando como se constroem, se armam e se defendem as poderosas máquinas de guerra, não podia imaginar que em seu arsenal, cheio de mísseis atômicos, radares, rastreadores de satélites e suprimentos capazes de sustentar uma cidade de 4.000 habitantes, houvesse um carregamento especial de prosaicos repelentes, desses que compramos nas pacíficas farmácias locais.

Aliás, e creio já ter comentado em crônica anterior, de tanto ver documentários sobre a construção de porta-aviões, acho que, se me derem equipamento adequado e material bastante, eu serei capaz de montar um deles, aqui mesmo, para flutuar na lagoa, em frente à minha varanda. Desde o corte da primeira chapa de aço à instalação do aparelho de som com os acordes do ‘Anchors Away’.

Só não poderia imaginar a necessidade de nossos repelentes domésticos. Será um dos itens mais fáceis de obter. Tenho um generoso estoque no banheiro para o que der e vier.’

 

EVENTO
Folha de S. Paulo

Atuação da imprensa e censura são temas de debate na Câmara

‘A liberdade de imprensa será tema na próxima terça-feira de uma conferência na Câmara dos Deputados com parlamentares e representantes de alguns dos principais órgãos de comunicação do país e de entidades do setor. Um dos assuntos que devem ser abordados é a elaboração de uma lei de acesso a informações públicas.

‘O Brasil vive pleno regime de liberdade de imprensa, mas há muita coisa a ser discutida nesse campo. A censura prévia que vem sendo exercida por decisões da Justiça é um exemplo’, afirmou Nelson Sirotsky, presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), entidade que organiza o evento ao lado da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Recentemente, fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus supostamente ofendidos por reportagens jornalísticas ingressaram de forma articulada na Justiça com ações de indenização por dano moral. Só contra a Folha foram 85. As 28 sentenças proferidas até agora são favoráveis ao jornal, sendo que várias condenaram os autores por litigância de má-fé (tentar usar a Justiça para fins ilícitos).

A 3ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa acontecerá no auditório da TV Câmara e será aberta ao público. O dia marca um ano da morte de Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha. A abertura contará com as presenças do vice-presidente da República, José Alencar, e do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia.

Participarão do evento Luís Frias, presidente do Grupo Folha; João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo; Júlio César Mesquita, do Conselho de Administração de ‘O Estado de S.Paulo’; e Roberto Civita, presidente da Editora Abril. Eles falarão no painel ‘Conquista do direito à liberdade de imprensa’.

A conferência acontece dois meses depois de o Supremo Tribunal Federal congelar boa parte da Lei de Imprensa, mecanismo sancionado pelo regime militar (1964-85) e que continha artigos típicos de ditaduras, tais como a possibilidade de apreensão de jornais mediante decisão administrativa. O STF decidirá até agosto se a lei será revogada, em partes ou totalmente. Em editorial, a Folha defendeu uma nova legislação para o setor. ‘Tornou-se inadiável instituir um novo marco regulatório, amplo e atualizado’, disse o texto.

Responsável por ingressar no STF com o pedido de revogação da lei, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) declarou que abordará no encontro a necessidade de lei de acesso a informações. Neste mês, o governo federal se comprometeu nas Nações Unidas a aprovar a lei, que regulamentaria o artigo da Constituição segundo o qual ‘todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo e geral’. A Casa Civil da Presidência trabalha o projeto a ser enviado ao Congresso.

Outra proposta que Miro Teixeira apresentará é a de que jornalistas no exercício da profissão só podem ser processados por calúnia caso a suposta vítima prove que havia ciência prévia de que a notícia a ser veiculada era falsa. Ele argumenta que a maioria dos atuais processos é movida não pelo cidadão comum, mas por autoridades que se dizem atingidas.

Segundo palestrantes, decisões da Justiça proibindo a veiculação de notícias serão debatidas. ‘Elevada à Constituição como princípio fundamental da democracia, a liberdade de imprensa deve assim ser compreendida pelo Judiciário ao analisar decisões que restauram a censura prévia nos casos em que proíbe a divulgação de determinadas notícias’, diz Cezar Britto, presidente da OAB.’

 

CASO ISABELLA NARDONI
Rubens Valente

Lula critica pirotecnia no caso Isabella

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que Alexandre Nardoni e sua mulher, Anna Carolina Jatobá, indiciados pela Polícia Civil por suposta autoria do assassinato da menina Isabella, ‘já estão condenados’. Ele pediu ‘cuidado’ nas investigações e deplorou o que chamou de ‘pirotecnia’.

‘O que eu acho grave nesse caso da Isabella é que mesmo que o casal seja inocente, já estão condenados. Se eles forem condenados, já foram condenados antes também’, disse o presidente, ao lado do governador José Serra (PSDB) e dos ministros José Temporão (Saúde) e Luiz Marinho (Previdência). As declarações foram dadas após se vacinar contra a gripe num posto de saúde em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

‘Acho que é preciso cuidado ao tratar dessas coisas, porque são vidas que estão em jogo, e vidas destruídas que dificilmente se recuperarão’, disse.

‘Eu fico preocupado quando a pirotecnia toma conta da investigação. Vinte e quatro horas falando no assunto, ou seja, termina inocentes sendo culpados e quem sabe os verdadeiros culpados ainda não apareceram. O que todos nós desejamos é que a polícia descubra o culpado e que ele seja severamente punido’, afirmou. Apesar das críticas, Lula disse que ‘a polícia de São Paulo tem a inteligência suficiente para, com muito cuidado, apurar’ o que chamou de ‘uma coisa de uma barbaridade imensa’.

Serra fez uma defesa da polícia e disse que, ‘como governador’, vai ‘aguardar o pronunciamento do Ministério Público e da Justiça’. ‘A polícia chegou às suas conclusões e encaminhou para o Ministério Público, e o promotor vai decidir se apresenta ou não a denúncia. (…) A polícia fez a sua parte.’

Lula e Serra tomaram a vacina num posto de saúde localizado a menos de 500 metros do apartamento do presidente, para marcar o início da campanha de vacinação contra gripe para idosos com mais de 60 anos de idade. A campanha, que vai até o dia 9, pretende beneficiar 14,5 milhões de idosos.

‘Faz três anos que tomo vacina e três anos que não tenho gripe. Todos nós que estamos chegando na terceira idade precisamos nos cuidar’, disse o presidente. ‘Lá em Brasília eu vejo todo mundo aparecer no meu gabinete gripado e eu não pego gripe. Não dói, é uma coisa importante’, afirmou.

Sem distinção

Na segunda-feira, Lula participará de atos públicos para lançar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em Osasco e Guarulhos, cidades administradas pelo PT. Ele negou que exista intenção política na sua agenda. ‘Não está sendo feito na capital, na segunda-feira, porque o prefeito [Gilberto] Kassab pediu para a gente fazer no dia 10, talvez por problemas internos da prefeitura. Mas a idéia era fazer São Paulo, Osasco, Guarulhos e uma da região do ABC que podia ser São Bernardo do Campo. Nessa história não tem distinção partidária.’

Durante a entrevista, Marinho, que deve sair candidato à Prefeitura de São Bernardo do Campo pelo PT, ficou o tempo todo atrás do presidente. Indagado se pretende subir no palanque para pedir votos a Marinho, Lula afirmou: ‘O Marinho merece qualquer sacrifício. É pra discutir ainda, vamos ver’.

Sobre o acordo entre DEM e PMDB em torno de Kassab, Lula disse: ‘O fato de o Serra ter feito aliança para as eleições municipais está dentro do tempo e do prazo porque dentro de alguns meses teremos eleições. Pensar em fazer aliança para 2010 em 2008, na minha opinião, é quase que uma questão de insanidade. Não tem lógica, a não ser a da especulação’.’

 

OCUPAÇÃO
Leneide Duarte-Plon

Exposição com fotos de Paris ocupada gera polêmica na França

‘A França ainda não acabou de ajustar contas com o passado ligado à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e ao colaboracionismo com o ocupante. Prova disso é que nos últimos dias uma polêmica ocupou a imprensa francesa em torno da legitimidade da exposição de fotos de André Zucca, da Paris de 1941.

Tudo nessa exposição de fotos parece incomodar. A começar pelo título original. ‘Ela deveria se chamar ‘Parisienses sob a Ocupação’ e não ‘Os parisienses sob a Ocupação’, dizia o historiador Jean-Pierre Azéma, autor do prefácio do livro com as fotos da exposição, antes mesmo de o título ser mudado, na última sexta.

Como muitos, ele pensa que fotos de parisienses vivendo normalmente ocultam a realidade trágica dos resistentes e a perseguição dos judeus.

As belas fotos de Zucca foram encomendadas pelo invasor nazista para publicação na revista alemã ‘Signal’, célebre pela qualidade da fotografia, mas acabaram não sendo publicadas. Eram fotos de propaganda, pois a revista era diretamente ligada a Goebbels.

Isso não estava dito explicitamente quando a exposição foi inaugurada na Biblioteca da Cidade de Paris, no bairro do Marais, onde fica até julho. Depois da crítica de um importante jornalista, os organizadores acrescentaram um texto explicativo informando que o ‘privilégio’ de fotografar a cidade era dado a poucos fotógrafos, escolhidos a dedo pelos alemães.

Os caros e raros filmes Agfacolor eram fornecidos somente a esses fotógrafos. Por isso, há tão poucas imagens dessa época. As fotos existentes foram feitas por fotógrafos que trabalhavam sob estrito controle.

As 270 fotos inéditas da exposição têm um grande valor histórico, mas mostram uma Paris descontraída, com uma vida quase normal em diversos bairros emblemáticos. Zucca fotografa as elegantes corridas de cavalo de Auteuil, fachadas de cinemas, bairros chiques ou mais populares como o mercado Les Halles, que desapareceu.

Os parisienses parecem despreocupados, sentados nos cafés, entrando ou saindo do metrô ou de cinemas.

Algumas fotos mostram um aspecto light da ocupação, com tropas alemãs descendo a avenida Champs Elysées depois da troca diária de guarda do Arco do Triunfo ou a rue de Rivoli enfeitada com a bandeira do Reich. Na cidade, aqui e ali podem ser vistos letreiros em alemão. Imagens históricas que ainda incomodam muito.

Resistência ausente

Na mesma cidade e época, toda tentativa de resistência era fortemente reprimida pelo ocupante alemão. A ausência da realidade da guerra chocou alguns e gerou a polêmica.

Na última segunda, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, anunciou que a exposição continua, mas a prefeitura vai organizar debates com historiadores sobre o uso da fotografia como instrumento histórico.

Além disso, as fotos vão ganhar legendas mais explícitas para que fique claro que foram feitas por um colaboracionista e sob encomenda dos nazistas. Os cartazes espalhados pela cidade foram retirados.

André Zucca foi um dos mais ativos fotógrafos da imprensa de antes da guerra. Ele trabalhou como repórter especial de grandes revistas como ‘Life’ e ‘Paris-Match’. No fim da guerra, foi julgado por colaboração com o ocupante, mas não foi condenado à morte. Mudou de nome, de cidade e morreu longe de Paris.’

 

EXPERIÊNCIA
Gustavo Fioratti

Repórter puxa carroça pelas ruas de SP durante 4 dias

‘Adquirir uma carroça em São Paulo é uma experiência. Por indicação de um carroceiro negro, alto, forte e sem os dentes da frente, vou comprar a minha em um tal de Alemão. A ‘loja’ do Alemão fica escondida sob uma ponte, no Bom Retiro. Alemão é um homem com cerca de 1,65 m, branco, cabelos claros, barba cerrada, roupas encardidas. Uma boa carroça ali custa R$ 250, um conjunto de ferro que pesa 90 kg. Fico com ela.

Um outro carroceiro aparece tão logo empunho o carrinho. ‘Tá começando?’, ele questiona. Digo que sim e aproveito para pedir dicas de onde poderia vender papelão e onde dormir. Ele me recomenda o albergue Dom Bosco, no Bom Retiro. ‘Lá tem até chuveiro com água quente’, completa.

Vou para a porta do albergue Dom Bosco às 8h da terça-feira, dia 8 de abril, sem a carroça. Espero, do lado de fora, até as 13h30, para falar com a assistente social. Ela dá as caras, acompanhada de um segurança. Diz que só há vaga para carroceiros. ‘Minha carroça está em outro lugar’, esclareço.

A assistente estranha o fato de eu ter ‘boa aparência’, apesar da barba crescida e da camiseta encardida. Para conseguir minha vaga, respondo a várias perguntas. Como soube do albergue? Há quanto tempo estou em situação de rua? Onde meus pais moram? Não poderia ficar na casa de amigo? Bebo ou uso drogas?

Sou aceito depois de meia hora de conversa. Estou agora bem próximo de um grupo que, segundo pesquisa da prefeitura, de 2005, é formado principalmente por homens (90%), com idade entre 41 e 55 anos (48%), nascidos na própria cidade (23%).

Ainda desconfiada, a assistente inicia uma breve explicação sobre a rotina no abrigo. É um lugar onde vivem cerca de 50 pessoas. Alguns conselhos são repetidos: ‘Estamos oferecendo uma facilidade. Não é para se acomodar, se tornar dependente dessa oferta’; ‘É importante manter coisas de valor trancadas no armário. Não deixe nada espalhado nem no banheiro’; ‘Não chegue bêbado nem alterado por drogas. Não chegue após as 22h, a não ser que tenha autorização.’ Por último, diz que não dão refeições.

Paramos em frente ao espaço onde vou passar as próximas três noites: uma cama de colchão nu e um armário vazio. Momentos depois, sou liberado da conversa para, enfim, buscar minha carroça.

Às 22h, as luzes se apagam. Uma gravação de quase meia hora com repetições do ‘Pai Nosso’, da ‘Ave Maria’ e de outras orações sinaliza a hora de dormir. No escuro, o silêncio é quebrado pelo choro de uma criança, pelo trem que passa ao lado e por roncos.

Na manhã seguinte, somos despertados às 6h pelas mesmas orações. Há fila nos banheiros. Deixo o albergue às 7h30.

Meu roteiro matinal passa pelos bairros de Higienópolis, Cerqueira César e Pinheiros. Vou observando lixos e caçambas. Há pouco material. Vejo outros carroceiros passarem com papelões assentados sobre o fundo de suas carroças. Sou um concorrente, mas muitos me cumprimentam com um aceno de mão.

É hora de batalhar por mercadoria: arrisco pedir caixas em supermercados. Mas todos já têm acordos com outros carroceiros. Chego à avenida dr. Arnaldo todo suado, com não mais do que cinco ou seis caixas encontradas ao acaso.

Sigo, com uns 10 kg a mais nas costas. Meu destino é a rua Oscar Freire, nos Jardins. Na alameda Lorena, o segurança de uma loja de roupa assobia para me oferecer uma carga de papelão.

Depois de uma hora de caminhada, chego, enfim, à porta do sucateiro. São 13h30 e há uma fila de quatro carroças. Chega a minha vez. Vou empilhando todo aquele papelão com dificuldade. Consegui reunir quase 45 kg, mas calculo que mais de 5 kg tenham sido desperdiçados pelo chão da sucataria, na pressa imposta pelos funcionários. Saio com R$ 7,20, o resultado de quase seis horas de trabalho.

Na descida até o Bom Retiro, começa a chover forte. A chuva traz certo alívio. Ameniza o calor. A cortina d’água parece barrar a poluição dos escapamentos. O sol volta a dar as caras no fim da rua Consolação.

Chego à beira de minha cama exausto às 18h30, depois de percorrer 17,4 km. Sinto muita dor nas pernas, sobretudo no joelho.

Último dia

Nos momentos finais da reportagem, ando mais tranqüilamente pelas ruas do Bom Retiro e, no caminho, vou encontrando vários outros carroceiros. Todos erguem a mão, me cumprimentando. Retribuo, mais como um adeus do que como um aceno.

Volto às 16h para o albergue, para pegar minhas coisas. Entrego a chave do armário junto com os lençóis. Alguns dos que passam por lá nem isso fazem. Simplesmente desaparecem.

É o momento de me despedir do personagem carroceiro. Deixo a carroça numa garagem, após percorrer 16,7 km. Somadas as andanças dos três dias de trabalho, percorri exatos 49,2 km. Desta experiência fica este relato, um testemunho de quem sobreviveu 72 horas na pele de um homem-cavalo.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Faustão lança show do meio milhão e remake de pegadinha

‘O ‘Domingão do Faustão’ deve lançar no próximo dia 18, quando comemora sua milésima edição, o quadro ‘Jogo dos Dez’, a versão brasileira do game show ‘Power of Ten’, que nos EUA promete pagar até US$ 10 milhões ao vencedor. No Brasil, no entanto, o prêmio máximo será de R$ 500 mil.

A edição número 1.000 do ‘Domingão’ também terá remake de pegadinhas. Três ou quatro pegadinhas clássicas (como uma em que um homem vendia coco sem água-de-coco dentro) serão regravadas. Outra atração será um ‘Jogo da Velha’, grande sucesso no início dos anos 90, com perguntas sobre a história do programa.

A estréia do ‘Jogo dos Dez’ no dia 18 ainda é dúvida porque depende da liberação, pela Alfândega, de computadores importados dos Estados Unidos.

Na primeira edição, dois artistas farão uma demonstração de como o jogo funciona. O quadro é baseado em pesquisas sobre comportamento, a serem feitas pelo Ibope. Após a primeira rodada, permanecerá no jogo aquele que responder o percentual mais próximo do resultado da pesquisa. Na rodada final, o competidor terá que acertar ‘na mosca’. Um exemplo hipotético de pergunta: ‘Qual o percentual de brasileiros que usam preservativo em suas relações sexuais?’.

Licenciado pela Sony, ‘O Jogo dos Dez’ pagará a partir de R$ 5.000 por rodada. Deverá ficar dois meses no ar. O apresentador Fausto Silva chegou a ameaçar não apresentar o quadro, porque setores da Globo queriam pagar só R$ 100 mil.

MULHER INTELIGENTE

A ex-’big brother’ Íris Stefanelli deu um piti daqueles na Rede TV!, na última quarta. Ela se recusou a gravar uma sátira do ‘Soletrando’, que vai ao ar amanhã, no ‘Superpop’. Na brincadeira, Íris, Sabrina Sato e Luciana Gimenez teriam que soletrar palavras ‘difíceis’. Na hora da gravação, Íris chorou e falou que seu contrato não a obrigava a tal humilhação, que tinha medo de ficar com fama de burra. O assunto foi parar na cúpula da emissora. O resultado foram quatro horas de atraso nas gravações, nas quais Luciana Gimenez deu um show. Ela confundiu cedilha com dois esses, chamou sobrancelha de sombrancelha e levou o Troféu Jumento.

A HORA DA ESTRELA

Revelação do filme ‘Cão Sem Dono’ (2007), a linda Tainá Müller (foto), 25, fará, em breve, sua primeira protagonista de telenovela. Interpretará Victória, a mocinha de ‘Revelação’, próxima novela do SBT. ‘A Victória é uma menina totalmente ‘do bem’, aquele tipo raro, que prefere acreditar nas pessoas antes de duvidar’, conta Tainá, por e-mail, enquanto se recupera de uma cirurgia para retirada de sisos. Mas a atriz continua com os pés no cinema. Acaba de filmar ‘Plastic City’, do diretor chinês Yu Lik-Wai. ‘Faço uma prostituta e dançarina.’

Pergunta indiscreta

FOLHA – O que você acha de até hoje o Cigano Igor, seu personagem em ‘Explode Coração’ (1995), ser referência de ator, digamos, incompleto?

RICARDO MACCHI (ator) – Sou massacrado há 13 anos pelo meu primeiro personagem, como se tivesse que ganhar o prêmio de ator revelação logo na estréia. Isso é uma grande injustiça. A Globo estava precisando de um galã, e eu era perfeito para o papel, mas não houve direção [de ator], eu não tive um coach [treinador de ator]. Me passaram que eu tinha que fazer um personagem com muito mistério, um cara puro, que ia para a Lua no final. Até hoje as pessoas me ridicularizam como se eu fosse político corrupto, criminoso. Queria fazer teste ao vivo para as pessoas verem que tenho talento. Fui pego para Cristo porque tenho uma imagem forte. Mas me vanglorio muito, durmo tranqüilo, porque fiz meu trabalho com dignidade. Não sou boçal. Tenho só corpo de boçal.

XUXEXO?

Diretores da Globo estão temerosos quanto ao futuro do novo programa de Xuxa, até agora não confirmado na programação de maio. Avaliam, após assistirem às primeiras gravações, que a atração não conseguirá convencer a família, como pretende. É que Xuxa continua falando para crianças -de até quatro anos.’

 

Mônica Bergamo

Meu amor, Paulo Autran

‘Ela namorou por dez anos com o diretor Antunes Filho e depois passou 33 anos casada com Paulo Autran. Viu os dois fazerem ‘papagaios’ em bancos para produzirem suas próprias peças, num tempo romântico em que não existia o pragmatismo da Lei Rouanet. Agora sozinha, Karin Rodrigues planeja voltar ao teatro

Um temporal de outono escurece a tarde de São Paulo, quando a atriz Karin Rodrigues, 72 anos, abre a porta da casa, de frente para uma praça no Jardim Paulistano. Ela veste uma blusa púrpura, um colar com pingentes em forma de pimentas e carrega uma sombrinha florida. ‘Vem! Vem! Corre! Eu prendi os cachorros para não pularem em você!’ Os cachorros -duas vira-latas, Clara e Frida (os nomes de sua mãe alemã), e um labrador, Zizi- podem desfilar pela casa desde que Karin perdeu o marido -o ator Paulo Autran, em outubro de 2007. ‘Ele não gostava de vê-las deitadas no sofá, não é meninas?’, diz, alisando o pêlo da então sonolenta Clara.

Desde moça, Karin ocupou o cargo de, digamos, primeira-dama do teatro. Aos 28 anos, conheceu o diretor Antunes Filho e passaram dez anos juntos, até que, em 1974, sua amizade com Paulo Autran transformou-se num ‘amor calmo’ -o oposto da relação com o primeiro. ‘É sempre um mistério porque você ama uma pessoa.’

‘Acho que ele [Antunes] compreendia a criança que eu fui. Ele era inteligente. Era uma relação emocionante.’ Parte da ‘emoção’ do relacionamento estava no fato de Antunes ser então casado (com a artista plástica Maria Bonomi). Quando ele terminou o casamento, a relação com Karin também ruiu. ‘O Paulo era mais centrado, combinava mais com a idade que eu tinha.’ Os dois oficializaram o casamento (o terceiro de Karin) só em 1999, com uma festa no apartamento de Paulo, nos Jardins, a 30 minutos da casa dela -eles nunca moraram juntos.

‘Eu tenho cachorro. Ele não gostava. Ele dizia: ‘Fecha a janela’. Eu gosto das janelas escancaradas. Mas nós tínhamos o mesmo humor. Sentávamos numa praça à tarde e conversávamos. Daí passava uma gorda de minissaia. Ele dizia [séria, engrossando a voz]: ‘Nossa, como ela ficou bem com essa saia, não?’ E eu [ainda séria]: ‘Realmente, como ela está elegante’. As pessoas deviam pensar que a gente só falava de arte. Era nada. Ele bordava tapetes. Uns tapetes horrendos, ele mesmo reconhecia. [rindo] Daí ele riscava os meus bordados, com uns desenhos ingênuos. [suspira] Era muito bom.’

Além dos casamentos que fizeram dela uma espectadora privilegiada dos bastidores do teatro brasileiro, Karin atuou em 31 peças, muitas delas com Paulo. ‘Ele fazia ‘papagaios’ [empréstimos bancários] pra montar os espetáculos. O Antunes também. Montavam com dinheiro próprio e depois iam pagando. Hoje em dia, Lei Rouanet virou um vício.’ Além de ter encarecido as produções. ‘Eles estavam mais preocupados com qualidade. Hoje, muitos produtores querem patrocínio e pouco ligam para a peça. O patrocinador pensa: ‘Tem ator global?’ Se tem, existe patrocínio.’ Ela sente na pele a dificuldade: busca produtor e patrocínio para montar em SP ‘Sonata de Outono’, ‘mas, com a Globo, mudou tudo’.

Segundo Karin, ao contrário de produtores e atores como o amigo Juca de Oliveira, que defende uma rediscussão da Lei Rouanet, Paulo Autran convivia bem com a regra. ‘Não posso falar por ele. Mas ‘O Avarento’, por exemplo, tinha a lei [Rouanet]. Mas é porque ele fazia peça de qualidade. Ele nunca fez um caça-níquel’, afirma. E há muitos ‘caça-níqueis’ hoje em dia? ‘Olha, teatro sempre foi coisa de elite. Até surgiu o Arena, que era mais barato, tinha essa proposta. Mas, veja pelas estréias de antigamente: eram sempre chiques, com trajes de noite. Isso não mudou muito. Ainda existem peças nos Sescs, mais experimentais, mas são minoria.’

Até perto dos 30 anos, Karin se dedicou aos dois filhos, Christiana e Jorge. Quando começou a atuar no teatro, recebeu convites também para TV -fez nove novelas. ‘A televisão é superficial, leva ao sonho da celebridade instantânea. Ninguém mais quer fazer uma carreira lenta, no teatro. O Paulo detestava televisão. Adorou fazer as novelas que fez, mas não queria mais. Porque demorava muito tempo e ele ainda tinha que decorar aqueles textos na maioria das vezes medíocres.’

Assunto da maior parte dos diálogos, Paulo Autran teve o quarto de sua casa reconstituído ao lado do quarto de Karin. Ela ainda guarda o último maço de cigarro do ator e, na parede, alguns dos tapetes que ele bordou. Deixou de jogar tranca às terças-feiras, hábito que carregou durante todo o casamento. Conserva ainda o costume de assistir a tudo que está em cartaz. ‘O Paulo fazia questão de ver e eu também’, diz. Como hobby, ela lê e … passa roupa. ‘É meu hobby. Adoro! Passo até as da empregada!’

Sua filha, Christiana, mora no mesmo terreno em que ela, na casa dos fundos. No fim da tarde, as duas olham o jardim, com um exemplar de pau-brasil (presente de Tônia Carreiro), azaléias e primaveras. Sentam-se para tomar sorvete de creme. Pouco antes, ela estava sentada no jardim e erguia os olhos do bordado para dizer:

‘Eu sempre achei que a vida é uma aventura. Não criei raízes, porque meu pai era imigrante, fugiu da Rússia vestido de mulher, aos 14 anos; minha mãe era separada, ou seja, o casamento não era uma coisa sagrada. Nada é para sempre, certo? Investir em segurança é bobagem, porque a vida é insegura. Eu sei que tenho autonomia de vôo. Se vou encontrar as pessoas é porque gosto, mas nunca porque preciso. Gosto da solidão, sem angústia’.

Frase

‘Sentávamos numa praça à tarde. Daí passava uma gorda de minissaia. Ele dizia: ‘Nossa, como ela ficou bem com essa saia, não?’ E eu: ‘Realmente, como ela está elegante’. As pessoas deviam pensar que a gente só falava de arte. Era nada. Ele bordava tapetes. Uns tapetes horrendos, ele mesmo reconhecia. (…) Era muito bom.’

KARIN RODRIGUES, 72, atriz’

 

Leandro Fortino

Tradução baixa ainda mais nível de ‘South Park’ em seu 10º ano

‘É difícil, mas a dublagem brasileira consegue baixar ainda mais o nível do desenho animado ‘South Park’. No episódio de estréia da décima temporada, hoje, às 22h30, chega a ser constrangedora a forma como foram adaptadas para o português as dezenas de palavrões emitidas nos pouco mais de 20 minutos de sua duração.

A história segue o mesmo espírito de sempre: o cozinheiro da escola, o Chef, retorna após uma temporada de três meses de férias em um lugar chamado Clube das Superaventuras. Só que ele volta estranho, pedindo a todo momento para fazer sexo anal com os pequenos alunos. Fica claro para Kyle, Stan, Kenny e Cartman, os quatro protagonistas da criação de Trey Parker e Matt Stone, que se trata de lavagem cerebral.

Assim, os moleques boca-suja vão atrás de respostas entre os diretores do tal Clube das Superaventuras, uma instituição que explora lugares ermos e incentiva o sexo com garotinhos de tribos e de aldeias por onde passam seus seguidores.

Nada anormal no universo sórdido de ‘South Park’. Mas a dublagem em português que será exibida hoje pode ofender os mais conservadores, por causa da adaptação de termos como ‘asshole’ (literalmente, buraco na bunda) ou ‘fuck you’ -que está mais para o permitido ‘dane-se’ do que para o pesado ‘foda-se’.

Assim, o hipnotizado Chef e os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil.

Mas quem vê ‘South Park’ sabe muito bem os riscos que corre. E, bem ou mal, uns bons palavrões vez ou outra podem até ser engraçados.

SOUTH PARK – 10ª TEMPORADA

Quando: estréia hoje, às 22h30

Onde: no VH1′

 

Bia Abramo

A propaganda e o mundo irreal

‘NAS PRIMEIRAS cenas, aparece uma avenida com várias pistas, que termina numa alça de viaduto. Em cada uma das quatro pistas, nos dois sentidos e na alça, há carros. Muitos. O trânsito não está parado, mas as vias estão tomadas.

É de noite; o céu está escuro e vemos faróis acesos, os dianteiros com luz branca, os traseiros com luz vermelha. Os automóveis andam; devagar, porque o fluxo é intenso. A música é suave. Uma mão desliga um despertador, com mostrador digital: é bem cedo, quase de madrugada, e o dono da mão está despertando.

Corta para outra cena de trânsito, mas dessa vez um carro some, deixando uma fumaça muito tênue no ar. Seguem-se cenas semelhantes: pessoas que despertam, carros que desaparecem. As imagens externas vão se tornando mais claras: é início de dia. O sol vai progressivamente clareando, mais gente vai despertando, mais automóveis sumindo.

Não há locução e, por alguns segundos ou décimos deles, aqueles carros todos saindo de cena, instala-se um fio de esperança: será que essas pessoas que acordam estão desistindo de ir de carro para o trabalho, por isso eles se esvaem no ar? Será que estamos diante de uma campanha para desestimular o transporte individual?

Até que uma voz em off nomeia a decepção: ‘Se você sonhava com um carro bonito, completo, que não fosse só um carro, ele chegou’. No próximo toque do controle remoto, você aterrissa no mundo real: o telejornal informa sobre mais um recorde de trânsito em São Paulo; os quilômetros de congestionamento invariavelmente na casa das centenas. O recorde inadmissível de ontem é o trânsito suportável de hoje e dele teremos saudades amanhã.

As propagandas de automóveis, qualquer uma (e são muitas), estão se tornando francamente aterrorizantes nos dias de hoje, pelo menos para aqueles que vivem em SP. Na cidade cuja frota já de 6 milhões acabou de ganhar 48 mil novos veículos só em março, cada automóvel a mais significa mais trânsito, mais transtorno, mais caos; portanto, cada apelo para que se compre mais um daquela ou desta marca soa funesto como uma trombeta do apocalipse.

É claro que a publicidade funciona. Mesmo com a piora galopante do trânsito, as pessoas estão comprando mais em vez de menos carros: o número de novos veículos que integraram a frota de São Paulo em março de 2008 é 64% maior do que a média mensal de todo o ano de 2007.

Tanta eficiência é, justamente, o aspecto mais diabólico da propaganda. Se vender geladeira a esquimó já parece meio perverso, fazê-los enxugar gelo soa quase cruel.’

 

CENTENÁRIO
Matinas Suzuki Jr.

Ed Murrow, um dos raros casos de homem do tamanho do mito

‘O americano Ed Murrow foi um campeão entre campeões. Subindo aos telhados para dar mais urgência e eloqüência às transmissões da blitz germânica sobre Londres durante a Segunda Guerra, ele disse a que vinha o jornalismo de rádio. Depois, quando a televisão nasceu, deu carisma, consciência e envergadura moral para o novo meio -do qual se tornaria, em pouco tempo, a figura mais marcante.

Entre as 11 mais importantes reportagens do século 20, escolhidas pela Universidade de Nova York, Murrow tem três: a cobertura, pelo rádio, da Segunda Guerra (‘This Is London’), os programas de TV que ajudaram a liquidar o senador anticomunista Joe McCarthy (admiravelmente adaptados no filme ‘Boa Noite, Boa Sorte’, de George Clooney) e o quase documentário ‘The Harvest of Shame’, que mostrava com cenas de neo-realismo a miséria dos bóias-frias no sul dos EUA.

Na faculdade, Murrow foi o número um nos debates (sua professora de retórica, deficiente física, permaneceu dando dicas a ele mesmo quando já era um mito do broadcasting) e, na década de 30, arrumou lugar nos EUA para cerca de 300 intelectuais judeus que fugiam do nazismo. Entre as tragadas nos cigarros Camel, suas palavras para o rádio e a TV -que ele preferia ditar a escrever, mantendo o ritmo oral- estão entre os melhores textos que o jornalismo já produziu.

No livro fundamental sobre a história do poder da mídia nos EUA, ‘The Powers of Be’, David Halberstam afirma que Murrow é um dos raros casos em que o homem é do tamanho do mito. Ele nunca fugiu ao combate: pagou do próprio bolso uma publicidade no ‘New York Times’ anunciando seu programa contra o macarthismo, ao saber que o canal CBS não iria fazê-lo. Em 1958, ao ser homenageado pela indústria de rádio e TV dos Estados Unidos, deixou tensos os colares de pérolas e as gravatas borboletas negras do jantar ao afirmar que a televisão estava em decadência e alienando as pessoas.

Abril era o mês de Edward R. Murrow: sexta-feira passada foi o seu centenário de nascimento; ele morreu em um 27 de abril, como hoje. Por trás da entonação grave de barítono que emprestava efeito dramático às suas reportagens, suspirava um pulmão frágil que durou apenas 57 anos.

MATINAS SUZUKI JR. é jornalista.’

 

ELEIÇÕES NOS EUA
Teté Ribeiro

Humoristas influenciam campanha

‘Agora juntas num filme, Amy Poehler e Tina Fey são os dois nomes femininos mais em alta no vasto mercado de comediantes da TV americana. São também dos mais polêmicos, porque acabaram se envolvendo na batalha da qual sairá o candidato do Partido Democrata à Casa Branca.

Poehler é conhecida pelo humorístico ‘Saturday Night Live’. Ao lado de Seth Meyers, no quadro ‘Weekend News Update’, satiriza notícias da semana, e vem criando alvoroço por causa dos esquetes em que interpreta Hillary Clinton (usando peruca e terninhos de cores sóbrias).

O programa de 23 de fevereiro fez história ao satirizar a suposta diferença de tratamento da imprensa a Barack Obama e Hillary nos debates: o primeiro seria um pop star e a segunda, uma pedra no caminho.

O quadro gerou páginas e páginas de comentários em jornais e revistas, e vem sendo apontado como um ponto de inflexão no olhar da imprensa sobre Hillary nesta campanha.

‘A mídia fica falando que, se a Hillary ganhar na Pensilvânia [como aconteceu, de fato, no dia seguinte à entrevista à Folha], vai ser porque a atitude dos jornalistas em relação a Obama mudou depois daquele esquete. Não concordo. Os jornalistas podem até ter mudado um pouco, mas ninguém muda seu voto por causa disso’, disse Poehler na última segunda-feira, em Nova York.

Hillary no ar

A ex-primeira-dama gostou tanto do esquete que foi ao programa no sábado seguinte contracenar com Poehler, além de, segundo se comentou, perguntar ao elenco e aos produtores se poderia usar o quadro como uma indicação de apoio à sua candidatura.

‘Isso não aconteceu de verdade’, disse Poehler. ‘O esquete apontou uma coisa que estava acontecendo, mas que ainda não tinha sido comentada por ninguém. Por isso, gerou tanta polêmica. Mas foi feita apenas para ser engraçada. O ‘Saturday Night Live’ não apóia nem deixa de apoiar nenhum candidato’, afirmou.

No mesmo programa de 23 de fevereiro, a convidada da noite era Tina Fey, ex-roteirista principal do ‘Saturday Night Live’, tendo sido a primeira mulher a ocupar a função, e atual atriz e roteirista do seu próprio seriado cômico, ‘30 Rock’ -exibido no mesmo canal, NBC, tendo Alec Baldwin como um executivo republicano e passado nos bastidores de um programa humorístico do estilo ‘Saturday Night Live’.

Fey quase declarou seu apoio a Hillary e disse frases cheias de duplo sentido. A que ficou mais famosa foi ‘Bitches get things done’, algo como ‘as vacas fazem as coisas’, que tem conotação sexual, mas se refere mais, no caso, a uma mulher chata, mandona. O slogan acabou estampado em camisetas de eleitores de Hillary.

A atriz disse à Folha não ter problema nenhum com o termo ‘bitch’. ‘Sei que faço muitas coisas e também sei que não sou fácil de conviver. Então, se alguém quiser dizer isso de mim, fique à vontade.’

E rejeitou a idéia de que esteve para anunciar na TV seu apoio à ex-primeira-dama. ‘A intenção não foi dar um empurrãozinho para a campanha da Hillary. Minha função é fazer as pessoas rirem.’

Mas a outra frase que fez barulho foi ‘Bitch is the new black’, algo como ‘Vacas são o novo preto’, alusão à frase já tradicional no mundo da moda -que a cada estação elege uma cor para ser ‘o novo preto’- e, é claro, a Obama.

O filme

As duas atrizes estão juntas na comédia ‘Baby Mama’, escrita para elas por Michael McCullers, também diretor do longa que estreou anteontem nos Estados Unidos e tem chegada ao Brasil prevista para 29 de agosto.

Na história, Fey é uma executiva de uma rede de supermercados de comida orgânica que, aos 37 anos, decide ser mãe. Após várias tentativas de inseminação artificial (ela é solteira e não tem namorado no começo da história), descobre que tem uma chance em um milhão de engravidar, por causa do formato do seu útero.

Pensa em adotar, mas descobre que o processo pode demorar até cinco anos. Então, parte para uma barriga de aluguel. Por meio de uma agência, conhece a personagem de Poehler, Angie Ostrowiski, uma garota de classe média baixa que aceita a função em troca de US$ 10 mil a receber após o parto.’

 

JOTACARLOS.COM
Eduardo Simões

Desenhos de J. Carlos voltam em versão digital

‘Um precioso arquivo dos costumes e da cultura brasileira nas primeiras décadas do século 20 está ao alcance de alguns cliques na internet desde o fim de março. Abrigado no portal Memória Gráfica Brasileira (memoriagraficabrasileira.org), o site jotacarlos.org permite folhear todas as edições das revistas cariocas ‘O Malho’ e ‘Para Todos’ publicadas entre 1922 e 1930, período em que a direção artística ficou a cargo do cartunista e designer José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos (1884-1950).

Ao todo, são 58 mil páginas digitalizadas, a partir dos exemplares vindos da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, ou doados por Eduardo Augusto de Brito e Cunha, filho de J. Carlos.

Patrocinado pela Petrobras, o projeto custou R$ 296 mil e foi executado entre 2005 e 2007 pela fotógrafa, professora da PUC-Rio e designer Julieta Sobral e pelo caricaturista Cássio Loredano. Todo o material digitalizado foi doado à Biblioteca Nacional.

A digitalização não teve só o objetivo de preservar o acervo -naturalmente comprometido por conta da curta vida útil do papel jornal, em que boa parte das revistas foi impressa-, mas também o de possibilitar o acesso a seu conteúdo, já que o material somente podia ser visto, com limitações cromáticas, por meio de microfilmes, na Biblioteca Nacional.

Foliões e melindrosas

Também autor de textos para o teatro de revista, letrista de samba e escultor, J. Carlos se tornou célebre pela vasta galeria de personagens que criou, não somente para ‘O Malho’ e ‘Para Todos’, mas também para as revistas ‘O Tico Tico’, ‘Fon-Fon’ e ‘O Cruzeiro’, entre outras. O site traz alguns exemplos desses desenhos de J. Carlos, como políticos, sambistas, foliões e melindrosas.

Segundo Julieta Sobral, o curioso banco de dados das revistas revela também alguns costumes de consumo daqueles nove anos, desde como as pessoas se vestiam e o que comiam até as músicas que ouviam, o que liam e o que viam no teatro ou no cinema.

‘Ambas as revistas são uma crônica visual dos anos 20. Mas pode-se dizer que ‘O Malho’ era mais ‘masculina’, porque se voltava mais para a política e o esporte, enquanto a ‘Para Todos’ era mais ‘feminina’, abordando temas como teatro, culinária e moda’, diz Sobral, que ressalta, além dos desenhos, a sofisticação da diagramação e da tipografia das revistas.

Todo o acesso ao site é gratuito, para qualquer visitante. No entanto, alguns dos recursos de navegação do banco de dados, como busca por palavras-chave, armazenamento de páginas e anotações, são limitados a usuários cadastrados.

Mais livros

O projeto de recuperação dos trabalhos de J. Carlos foi complementado com o lançamento de dois títulos, já à venda nas livrarias: ‘O Vidente Míope’ (R$ 59; 278 págs.), com organização de Cássio Loredano e texto do historiador e professor Luiz Antonio Simas; e ‘O Desenhista Invisível’ (R$ 52; 200 págs.), com análise de Sobral sobre sua atuação como designer gráfico. Os dois livros foram editados pela Folha Seca.

De acordo com Sobral, em breve outras vertentes do trabalho do artista também serão digitalizadas e virarão livros, como ‘J. Carlos na Publicidade’ e ‘J. Carlos para Crianças’.’

 

MOMENTOS DECISIVOS
Niall Ferguson

História da carochinha

‘A famosa definição de Leopold von Ranke [1795-1886] quanto ao objetivo do esforço dos historiadores pode ser traduzida de diversas maneiras. ‘Como de fato foram’ costuma ser a mais comum tradução de ‘Wie es eigentlich gewesen’; uma versão mais precisa é ‘como essencialmente foram’.

Já R.G. Collingwood, o grande filósofo da história da Universidade de Oxford, oferece definição mais precisa: ‘O conhecimento histórico é o restabelecimento de um pensamento passado’. Ele ilustra seu ponto citando o almirante Nelson, que se recusou a remover as condecorações que tornavam seu uniforme muito conspícuo, na batalha de Trafalgar.

Mas a história, como profissão, pouco fez para concretizar a ambiciosa visão de Collingwood. Assim, é refrescante encontrar, em ‘Wish I’d Been There – Twenty Historians Revisit Key Moments in History’ [Gostaria de Ter Estado Lá -Vinte Historiadores Revêem Momentos Decisivos da História], a afirmação de que ‘os historiadores precisam se colocar no passado, se desejam trabalhar de maneira efetiva’.

Thedore Rabb e Byron Hollinshead montaram um time formidável de estudiosos para realizar a viagem imaginária no tempo que esse envolvente volume propõe. Mas o exercício é sutilmente diferente do que Collingwood preconizava. Os colaboradores imaginam que tenham estado lá como observadores invisíveis, e não como protagonistas históricos.

Os mais astutos se concentram em evocar os ambientes do passado. Tom Holland imagina de maneira vívida o sofrimento dos elefantes do exército de Aníbal, em sua travessia dos Alpes. O primeiro prêmio cabe a sir John Elliott, por seu maravilhoso relato sobre a visita do futuro rei inglês Carlos 1º a Madri, em 1623.

Alguns dos historiadores vão mais longe. ‘O que realmente desejo saber’, escreve Josiah Ober, sobre a morte de Alexandre Magno, ‘é que sensação propiciava estar no centro do mundo, em um momento no qual a história humana havia atingido um de seus grandes pontos de inflexão’.

Infelizmente, essa aspiração constitui anacronismo. E Ober tampouco deixa claro por que a morte de Alexandre constituiu um ponto de inflexão; afinal, era inevitável que ele morresse, em dado momento.

Para que se possa alegar que um ato individual alterou o curso da história é preciso desenvolver um experimento mental mais desafiador. Precisamos imaginar o que teria acontecido se a ação em pauta não tivesse se realizado.

Apenas alguns dos colaboradores dão esse salto. Geoffrey Parker é um deles, ao argumentar que, caso os espanhóis tivessem rendido o que restava de sua frota em 1588, ‘seria difícil ver de que maneira a Espanha poderia resistir à Contra-Armada inglesa que chegaria à sua costa no ano seguinte’.

William McNeill argumenta que, sem o patrocínio de Frederico 2º da Prússia, a batata não teria sido adotada com a mesma rapidez na Europa Central e Oriental.

O efeito líqüido da experiência é uma sensação semelhante à que afligiria um passageiro um pouco enjoado de um navio de cruzeiro em excursão histórica pelas ilhas gregas. As imagens são deliciosas.

Mas será que realmente nos mostram a história ‘como de fato foi’? Paradoxalmente, os mais bem-sucedidos desses esforços de imaginação histórica são aqueles que também a explicam como de fato não foi.

NIALL FERGUSON é professor em Harvard. A íntegra deste texto saiu no ‘Financial Times’.’

 

 

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