Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > LEITURAS DO GLOBO

Fonte desprotegida

Por Marcus Miranda em 18/09/2007 na edição 451

Talvez nunca venhamos a conhecer a verdade sobre o brutal assassinato do líder comunitário Jorge da Silva Siqueira Neto, ex-presidente da Associação de Moradores da Comunidade Marcílio Dias (Kelson’s), localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro. No entanto, a publicação de uma fotografia interna em matéria do jornal O Globo, no domingo (26/8), sobre a atuação de uma milícia naquela comunidade, pode ter contribuído para este desfecho. Na foto, Jorge da Silva, tratado na matéria com o pseudônimo de ‘André’, cobria o seu rosto com uma moção concedida a ele pela Câmara Municipal do Rio, na qual era possível perfeitamente ler o nome dele.

É realmente uma pena que tal deslize editorial tenha ocorrido, pois, sem dúvida, a série de reportagens, denominada ‘Os brasileiros que ainda vivem na ditadura’, sobre comunidades nas quais os moradores, devido à omissão do Estado, são agredidos e têm os seus direitos de cidadania cassados por bandidos, fardados ou não, representa um marco no jornalismo brasileiro, digno de todos os prêmios e louvores.

Pretexto do fechamento

Ao mesmo tempo, a série – apurada e escrita de forma brilhante por Carla Rocha, Dimmi Amora, Fábio Vasconcelos e Sérgio Ramalho – conseguiu um efeito secundário, porém importante, que escapou ao controle dos autores: permitir ao jornal O Globo ‘limpar’ um pouco o seu passado, quando apoiava a ditadura militar, e tratar aquele período como sempre deveria ter feito, qual seja, como um atentado permanente ao Estado Democrático de Direito.

O episódio deve servir para que se abra uma discussão, diante da violência e da falta de limites de bandidos e policiais bandidos, sobre as medidas a serem adotadas pela imprensa no sentido de ampliar ainda mais a preservação de suas fontes.

De forma alguma se pode aceitar que seja usado o pretexto da correria do fechamento como justificativa ao que ocorreu, até porque o risco, no limite, é termos a repetição de atos de barbárie contra as fontes.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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