Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > CANTO PARA O RECIFE

Frevo para todos os sentidos

Por Urariano Mota em 04/02/2008 na edição 471

Este é um livro que se abre antes para os olhos. Copiadas de suas páginas, muitas de suas fotos deveriam estar nas paredes dos mais exigentes amantes das artes. Ou dos amantes das flores. Da flor de lira. Dos blocos das flores. E aqui paramos, porque neste passo logo estaríamos a lembrar, a recitar os nomes dos blocos de carnavais pernambucanos. Como quem declama, de lira:

‘Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes,

Camponeses, Apois Fum e o Bloco Um dia Só

Os Corações Futuristas, Bobos em Folia,

Pirilampos de Tejipió

A Flor da Magnólia….’

Dissemos que se abre antes para os olhos e não exageramos. Houve no livro um cuidado e bom gosto na escolha das fotos, das pinturas, dos desenhos, que valorizariam qualquer papel, mas que ganham maior relevo em suas páginas de couché. Claro, imagens todas subordinadas ao tema do frevo, um frevo que guarda a identidade de toda a gente brasileira. E, mais uma vez, aqui não exageramos. É que para tão belas imagens, o desfrute não é pura, puríssima estética. Elas exigem olhos de sensibilidade, que sabem de conhecimento e sabor a história da gente do Brasil. Isso quer dizer que nas fotos há verdadeiros documentos históricos, há mais que uma profusão de madeleines, há indícios e indicações do quanto mudamos e permanecemos desde o século 20. Nele vemos trabalhadores rasgados, descalços e soberbos, ensoberbecidos de álcool e alegria. Nele vemos cabelos lisos, crespos, duros, brancos, negros e amarelos, inebriados. Nele vemos gozo em close, que dá gana de entrar na foto e gritar ‘bate-bate com doce eu também quero’.

‘O mundo era de todos’

Chega a ser impressionante como com tão poucos recursos fotógrafos captaram o furor e alegria do frevo em 1940, em meados da década de 1950. Foi preciso que um livro como este recuperasse para todas as gerações o fino olho de Pierre Verger e Marcel Gautherot. O primeiro procura pessoas, o segundo flagra o movimento, sempre em ângulos incomuns. Ora pela sombras dos dançarinos, ora pelas caras em instantâneos de prazer. E nesse capítulo de fotos, até um pintor consumado e realizado como Lula Cardoso Ayres, conforme vimos em ‘O frevo venceu‘, é impressionante como Lula Cardoso Ayres também pintava além da perícia nos pincéis: a sua foto de um passista isolado, na beira do cais do Recife, é um amor realizado por sua gente. E vêm mais depois, ou antes, Abelardo da Hora, Vicente do Rego Monteiro, Portinari, Bajado.

Como se isso fosse pouco, este é um livro que se abre também para a inteligência, para a leitura, para um sabor de tato, de cheiro, de revitalização de acordes adormecidos, porque ‘se fosse possível descrever, em palavras, a introdução da marcha do ‘Clube das Pás’! Mas é possível dar uma idéia do que se passava por dentro de mim, que me sentia, inospitamente, órfão e livre; desapegado de tudo e de todos. Eu era mais que um guerreiro. Era o vento. Cada homem e cada mulher eram uma parte daquele furacão libertário. Todos se emancipavam (eu digo por mim) e se tornavam magnificamente dissolutos… porque o clarim estava tocando, porque os estandartes se equilibravam no espaço, porque o mundo, naquele exato e breve momento era, afinal, de todos’.

Nossa casa esquecida

Isso é Antonio Maria, cronista preciso e amoroso, fundamental, cardisplicente. Na página 180. Mas, quatro páginas antes…

‘E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu’.

Isso é Clarice Lispector, ao recordar sua infância na Praça Maciel Pinheiro.

Este é um livro, enfim, que pode ser lido em sossego, sem afobação, em um tempo físico de duas horas. E relido, curtido, acariciado e guardado por muitas horas nos próximos 100 anos. Assim como aquelas imagens que nos são caras, com as quais cruzamos olhares por alguns minutos, mas que nos acompanham por muito e muito tempo. Ele, imagens, textos e registros nos recompõem com a nossa identidade, que talvez nem desconfiássemos que era nossa. É como penetrar em uma nossa esquecida casa. É como, afinal, se disséssemos:

– Mãe, pai, presente. Recife mandou me chamar.

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Jornalista e escritor, Recife, PE

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