Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Futebol e afeto

Por Paulo Lima em 14/11/2006 na edição 407

Em seu novo romance, O segundo tempo, o escritor e jornalista gaúcho Michel Laub, 33 anos, volta a esmiuçar o universo da infância e da adolescência. Jovens em pleno processo de descoberta e transição ocuparam seu livro anterior, Longe da água. No entanto, nesse novo livro os dramas familiares acontecem à sombra de uma tragédia do futebol: o Gre-Nal de 1989. Naquele ano, Grêmio e Internacional realizaram aquela que é considerada a decisão mais importante do esporte no Rio Grande do Sul.


É a partir das reminiscências desse clássico esportivo que a narrativa breve, porém densa, se constrói. Nela, um jovem de 15 anos vive um rito de passagem. Preso a uma rede de afetos em uma família prestes a se desagregar, ele é levado a tomar uma decisão drástica: optar por proteger seu irmão de 11 anos dessa terrível verdade, ou tomar o partido dos pais, que estão se separando.


A história se passa em Porto Alegre, cidade onde Michel Laub nasceu e é igualmente cenário do seu romance anterior. Mas o que poderia ser considerado como autobiográfico não passa, na realidade, de uma técnica. A estratégia de Michel Laub, de se apropriar das próprias lembranças e sensações e dissolvê-las – ou transformá-las – num relato ficcional, é bem sucedida. O segundo tempo captura facilmente o leitor, com sua alternância entre a paixão do futebol e as convulsões de um relacionamento familiar, um se confundindo com o outro, o clímax do Gre-Nal do Século servindo de ante-sala à revelação final do livro, e vice-versa.


Ex-editor–chefe e ex-diretor de redação da revista Bravo!, Michel Laub é coordenador da área de publicações e cursos do Instituto Moreira Salles e colaborador da revista EntreLivros. Em sua dupla lide de escritor e jornalista, ele distingue semelhanças entre uma atividade e outra, mas acentua uma enorme diferença entre ambas: ‘A ficção flerta com a ambigüidade, com o incompleto, enquanto o jornalismo pretende sempre dar respostas (e, na maioria das vezes, falha…)’, disse nesta entrevista concedida por e-mail.




***


Nesse novo romance, um fato da infância determina o destino dos personagens, tal como aconteceu em Longe da água, seu livro anterior. Por que voltar sempre à infância?


Michel Laub – A infância e a adolescência são as fases em que você vive os sentimentos de forma mais intensa, porque é a primeira vez que se está passando por aquilo. Você ainda não tem noção de que sobreviverá, como alguém adulto sempre tem. No caso de O segundo tempo, o drama do livro só funcionaria com personagens desta fase etária (principalmente o irmão do narrador, que tem 11 anos). Para alguém mais velho, aquilo tudo talvez soasse um pouco banal.


Mais uma vez Porto Alegre é o cenário de um livro seu. São Paulo, onde você mora há algum tempo, não o inspira, ou as origens do escritor representarão sempre a sua geografia sentimental?


M. L. – No caso de O segundo tempo, não havia como fugir disso, até porque o livro é muito baseado na relação com o futebol – e futebol, para mim, está diretamente ligado à minha experiência pessoal como torcedor do Grêmio. Eu até poderia tentar escrever sobre um personagem palmeirense ou coisa assim, mas seria fácil cair em algo artificial. Eu não teria aquela memória dos detalhes e sensações de época que, mais do que os fatos históricos sobre derrotas e vitórias, são a essência da experiência de um torcedor.


Foi mais fácil ou mais difícil escrever esse terceiro romance? Em termos da narrativa, como você o analisa em relação aos anteriores?


M. L. – Mais fácil. Foi o livro mais planejado, até porque foi o único com projeto anterior seguido de forma mais ou menos fiel – eu o escrevi com uma bolsa da Fundação Vitae, com prazo para terminar etc. Mas também tem algo de sorte aí: o fato de eu ter conseguido seguir este planejamento. O Longe da água também tinha um plano inicial, mas ele englobava outra forma, outra história, que acabou não funcionando. E aí eu tive um trabalhão para refazer todo o livro, que virou uma coisa totalmente diferente.


O livro pode ser lido ou como a história de um conflito familiar, ou como um rito de passagem de um menino de 15 anos, ou como uma história de perdas ou conquistas afetivas. Qual dessas interpretações o agrada mais?


M. L. – As três estão corretas. Pessoalmente, gosto de pensar que o futebol não está no livro por acaso – que, de alguma forma, também é o centro do romance. Então o livro falaria da relação entre o futebol e os sentimentos do ‘mundo real’.


O narrador principal deixa Porto Alegre e vai para São Paulo, onde estuda Jornalismo. Até que ponto você se permite mesclar a ficção com elementos autobiográficos?


M. L. – Há uma brincadeira aí: como o Longe da água foi considerado autobiográfico por muita gente, achei interessante acrescentar ao Segundo tempo alguns dados que poderiam causar alguma confusão neste sentido. Eu novamente ponho lá uma menção à praia de Albatroz, por exemplo, que é um lugar onde eu devo ter estado uma ou duas vezes na vida, apenas de passagem. E o personagem morar em São Paulo na época em que narra também era um elemento de Longe da água. Enfim, são passagens que eu poderia ter mudado sem nenhum problema, mas achei divertido insistir nessa ambigüidade com a vida real. Fica meio contraditório: ambos os livros têm protagonistas com a mesma idade, morando no mesmo lugar, mas com experiências de vida bem diversas. Se o leitor continua achando que os dois são autobiografias, é sinal de que ambas as narrativas funcionam num nível elementar de convencimento, o que é bom.


Por que o Gre-Nal de 1989, o futebol, como contraponto para os dramas afetivos descritos no livro?


M. L. – Eu queria aproveitar algum evento real do futebol, não inventar um jogo ou algo assim, porque achei que daria um elemento a mais de interesse para o livro (o leitor que tem familiaridade com aquele universo lembra dos detalhes da época etc.). Nesse sentido, como a escolha teria de recair sobre algum jogo que simbolizasse uma decepção, o Gre-Nal do século acabou sendo um candidato natural. Na minha vida de torcedor, mais até do que a Copa de 1982, este deve ter sido o momento mais trágico.


Você também acredita que hoje o futebol está morto, como afirma o personagem principal no início do livro?


M. L. – Não, até porque continuo acompanhando. Mas sem a intensidade de antes, claro. Quando eu tinha lá os meus 12 ou 13 anos, ainda mais naquela época, em que não havia tantas opções de lazer como hoje, o futebol ocupava um espaço realmente central na vida. Esta frase do livro não se refere só ao futebol, claro: o personagem está falando dos sentimentos dele também.


Você utiliza como epígrafe uma frase de Hanif Kureishi, retirada do seu romance Intimidade, que trata do drama de uma separação. Kureishi foi uma inspiração ou a frase apenas justifica a decisão final do personagem principal de O segundo tempo?


M. L. – Esta frase eu encontrei quando já estava terminando o livro. Achei perfeita não só pelo conteúdo, mas porque ambos os livros têm alguma relação: ambos se passam num curto período de tempo (o dia do jogo, uma noite no caso de Intimidade) e são narrados por personagens prestes a abandonar sua família. E, no fim das contas, o Kureishi fala da traição como algo que pode ser positivo, e esta visão eu acho muito interessante. No Segundo tempo, é a traição aos pais que permite ao protagonista ajeitar a vida do irmão e ir em frente.


Você foi editor da Bravo! por oito anos, e hoje atua no Instituto Moreira Salles. Por que deixou a revista?


M. L. – Meu ciclo na Bravo! se encerrou sem mágoas, tanto que até hoje tenho boas relações com o pessoal de lá. A revista mudou de editora e precisava se reciclar para ser viável comercialmente. Eu preferi não participar desta nova etapa, e acho que foi bom tanto para mim quanto para eles.


Além do seu trabalho no Instituto Moreira Salles, você escreve para a revista EntreLivros. De que forma a atividade jornalística se reflete no seu trabalho de escritor?


M. L. – O jornalismo e a ficção trabalham com ferramentas semelhantes: a linguagem, os recursos narrativos. Escrever uma matéria é contar uma história, basicamente. Agora, isto se dá num nível mais formal. Em essência, são coisas completamente diferentes. Na ficção eu me dou ao luxo de ser meio obscuro, por exemplo, o que no jornalismo seria um defeito grave. A ficção flerta com a ambigüidade, com o incompleto, enquanto o jornalismo pretende sempre dar respostas (e, na maioria das vezes, falha…).


O título do seu livro tanto pode se referir ao desfecho do Gre-Nal do Século, como pode ser uma alusão à decisão do menino de 15 anos da história de partir para uma nova etapa de vida. Podemos dizer que seu livro traz uma história de superação, de otimismo?


M. L. – Sim, acho que o final aponta para isso, embora o tom melancólico. A relação dele com a família se esfacelou, mas os sentimentos em relação ao irmão sobreviveram. Falar de sentimentos que resistiram ao tempo é uma forma de otimismo, acho eu.

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Jornalista, editor do Balaio de Notícias

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